Vaticano: Depois do sínodo da família, a Igreja será a mesma?

Publicado em terça-feira, outubro 7, 2014 ·

familiaÉ uma espécie de debate parlamentar, com bispos, famílias e peritos de todo o mundo sentados à mesa. O Papa Francisco quer saber o que pensa o mundo sobre as famílias modernas, depois de ter enviado um grande inquérito a todas as dioceses. E quer que o diálogo se faça sem tabus. “Uma condição geral de base é esta: falar claro. Que ninguém diga: ‘isto não se pode dizer, vão pensar isto ou aquilo de mim’. Devem dizer tudo aquilo que sentem sem cerimónias e timidez”, avisou ontem de manhã, na abertura dos trabalhos.

Para as alas mais progressistas da Igreja, a abertura de Francisco representa uma oportunidade de mudança. Alguns esperam que saiam do sínodo – que só termina em Outubro de 2015 – novas orientações em relação à participação nos sacramentos de divorciados e homossexuais. O Papa tem insistido na ideia de uma Igreja mais inclusiva, mas nunca precisou até onde estará disposto a ir em matéria de alterações doutrinais. O debate em torno destas questões tem estado aceso nos últimos meses e as alas mais conservadoras já mostraram que não estarão dispostas a abrir a comunhão a pessoas em “situação irregular”.

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A decisão final é do Papa, mas os padres com quem o i falou duvidam que haja mudanças profundas na maneira de a Igreja encarar as novas estruturas familiares. A forma, a maneira como a Igreja passa a mensagem, poderá ser modificada, mas o conteúdo, a doutrina, deverá manter-se. O relatório preliminar do sínodo, dado a conhecer ontem pelo relator-geral dos trabalhos, aponta nesse sentido: no pós-sínodo não devem ocorrer alterações doutrinais. “No caso de um matrimónio sacramental (consumado), não é possível um segundo matrimónio reconhecido pela Igreja, após um divórcio, enquanto o primeiro cônjuge estiver vivo”, afirmou o cardeal húngaro Péter Erdo, recordando o ensinamento da Igreja sobre a “indissolubilidade” do matrimónio.

O sínodo sobre a família não se irá debruçar, até dia 19, só sobre a questão dos divorciados. Mas o debate tem sido particularmente intenso desde Fevereiro. O cardeal alemão Walter Kasper, tem vindo a defender o acesso aos sacramentos de pessoas em uniões irregulares. Francisco convidou Kasper a fazer uma reflexão de abertura do consistório de Fevereiro para reflectir sobre a família. E Kasper apontou casos de uma segunda união estável, em que o casal vive a fé de “forma sincera e consistente”e em que existe um “desejo dos sacramentos”. “Devemos ou podemos negar-lhes, após um período de acompanhamento, o sacramento da reconciliação e depois a comunhão?”, questionou.

Os críticos conservadores, que têm à cabeça outro alemão, o cardeal Ludwig Müller, consideram que não deve haver alteração porque esta é uma matéria que faz parte da doutrina da Igreja. Ontem e a propósito deste debate, o arcebispo de Paris e presidente-delegado do sínodo rejeitou, numa conferência de imprensa, que exista uma “guerra de cardeais”. André Vingt-Trois explicou que o que se procura não é “obter uma maioria”, mas “trabalhar para fazer crescer uma vontade comum na Igreja”.

A IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA Num ponto, conservadores e progressistas concordam: é chegada a altura de a Igreja debater profundamente o tema da família. Em sociedades cada vez mais laicas, com o aumento dos divórcios, a queda dos matrimónios religiosos e o aparecimento de novas formas de família, é preciso uma resposta certeira por parte da Igreja. E é isso que o Papa Francisco quer ver discutido: como se pode falar às famílias de hoje?

Foram convidados a participar no sínodo 14 casais. O primeiro, australiano, falou ontem para confessar à audiência que os documentos do magistério católico têm uma “linguagem difícil e não particularmente relevante” para o seu quotidiano e referiu-se à união sexual como “parte essencial” da espiritualidade dos casais. Abordou ainda a questão da homossexualidade, contando o caso de uma família amiga que acolheu o companheiro de um filho, à mesa, no Natal.

Nos próximos dias será assim, no Vaticano. Os presidentes de cada conferência episcopal, as famílias e os peritos terão quatro minutos para falar sobre os temas que constam do documento preparatório. As conclusões, por enquanto, são um mistério. Como também o é a maneira como serão apresentadas ao mundo. No final da próxima semana, deverá ser redigido, votado e aprovado, pelo Papa, um documento final. João Paulo II convocou três sínodos e uma exortação pós-sinodal no fim de cada um. Mas Bento XVI, nos dois que organizou, publicou apenas, no boletim da Santa Sé, os primeiros parágrafos das intervenções. Não se sabe ao certo o que Francisco tenciona fazer. O mais provável é que só em 2016, a seguir ao sínodo ordinário de Outubro de 2015, possa surgir um documento final com as conclusões.

POUCAS MUDANÇAS É pouco provável que a Igreja surpreenda o mundo. Para muitos, as mudanças só acontecerão do ponto de vista da comunicação com o mundo. “O sínodo é uma ocasião para dizer, com uma linguagem nova, o pensamento de sempre da Igreja”, defende o porta-voz da Opus Dei em Portugal. Pedro Gil defende que é “positivo” que todos tomem a palavra para dizer o que pensam, mas ressalva que a “âncora da Igreja, que é o Evangelho” vai manter- -se sempre intocável. “O grande desafio é saber como apoiar as famílias nos seus anseios e problemas quotidianos”, diz.

Um canonista ouvido pelo i acredita que nem a comunhão dos divorciados recasados deverá sofrer alterações. “Porque essa é uma lei de direito divino, não é uma lei eclesiástica. Para que a Igreja seja fiel ao Evangelho, essa é uma norma que terá de se manter”, explica. Também o porta-voz da Conferência Episcopal, padre Manuel Barbosa, duvida de mudanças de fundo: “A praxis pode mudar, mas a doutrina da Igreja não muda.” Além disso, ressalva um outro sacerdote, as mudanças são sempre lentas e é conveniente que assim seja, sob pena de se criar um “cisma” dentro da Igreja. “Entre os cardeais, há uns que abrem a porta e outros que a têm fechado. É preciso que o Papa tenha em conta a unidade da Igreja e, ao tocar na ferida, não abra outras feridas”, avisa.

Já o bispo emérito das Forças Armadas, Januário Torgal, acredita que é chegado o momento de arrumar a casa e pôr a Igreja a falar a uma só voz. Até aqui, o acolhimento de pessoas em situação irregular varia de paróquia para paróquia, consoante a sensibilidade de cada padre. “É preciso, cada vez mais, uma pastoral de proximidade com as pessoas”, defende. O bispo emérito apela a uma “solução de eucaristia no tocante aos divorciados” e espera que haja uma aceitação dos métodos contraceptivos. “Estou convicto que o seu uso poderá vir a ser aprovado para os casais, desde que não vivam para o egoísmo”, considera.

 

TEMAS EM DISCUSSÃO

O lugar de Divorciados e recasados

Comunhão É um dos temas mais polémicos em agenda. A expectativa das alas mais progressistas da Igreja é a de que saia do sínodo uma orientação no sentido de os divorciados e recasados poderem comungar. A estas pessoas, que estão em “situação irregular”, são actualmente vedados outros sacramentos, como a confissão e até o baptismo. O problema é que a Igreja não reconhece a dissolução dos casamentos.

Gays e novos conceitos de família

O que fazer? Filhos de pais separados, adultos em “situação irregular” que prestam serviço nas paróquias, uniões de facto, casamento e adopção por homossexuais. A existência de novos modelos familiares está no centro do debate. O Papa já demonstrou que está aberto a acolher todas as pessoas na Igreja, mas nunca disse se estará disponível para mudar a doutrina. Não haverá soluções fáceis, sobretudo em relação aos gays.

A contracepção e o planeamento familiar

Usar ou não A última vez que a polémica estalou foi com Bento XVI que, durante uma viagem de avião ao continente africano, recusou a utilização do preservativo no combate à sida. O tema é referido na terceira parte do Instrumentum Laboris (documento de preparação do sínodo). Dentro da Igreja, há cada vez mais teólogos que defendem que o métodos naturais de contracepção estão completamente ultrapassados e já não fazem sentido.

A nulidade dos casamentos

Agilizar O assunto tem gerado debates acesos na Igreja, mas todos concordam que é preciso agilizar os processos de declaração de nulidade. O casamento católico requer um conjunto de condições que, se não estiverem reunidas no momento do casamento (o desejo de ter filhos, por exemplo), o inviabiliza. A Igreja leva estes processos muito a sério, para evitar excessos. Mas nos últimos anos tem aumentado o número de pedidos de nulidade.

A crise nas famílias do ocidente

Apoiar A crise na instituição família é o ponto de partida e o ponto de chegada da reflexão dos bispos. Na sociedade ocidental, multiplicam-se os divórcios e os casais optam, cada vez mais, por não ter filhos. As famílias são hoje mais complexas e o ritmo de vida moderno mais acelerado. O Papa Francisco quer ver discutida a melhor forma de a Igreja apoiar as famílias, dentro daquilo que é a realidade actual.

O “problema” das sociedades laicas

Posição Outro dos aspectos em discussão é a posição da Igreja em sociedades cada vez mais laicas na forma de olhar para o relacionamento humano e para a família. Sociedades em que, do ponto de vista político e legal, são permitidas uniões e adopção de crianças por pessoas do mesmo sexo ou a interrupção da gravidez. A Igreja precisa de encontrar o seu lugar, apesar de se tratarem, como no caso do aborto, de matérias não negociáveis.

Jornal I

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