Uma espiritualidade que não assume as lutas sociais não é libertadora

Publicado em terça-feira, Abril 29, 2014 ·

thiagoOs movimentos sociais estão em evidência nos dias de hoje, especialmente porque no ano passado a população brasileira decidiu ir às ruas reivindicar direitos e denunciar o que está errado no país. Mas, bem antes disto, brotaram no Brasil experiências como a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e as Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), que, além da luta social, estão imbuídos de uma espiritualidade libertadora.

É sobre esta relação entre movimentos sociais e espiritualidade que o jovem filósofo e teólogo Thiago Valentim conversou com a Adital. Thiago defende que espiritualidade libertadora e as lutas sociais não são realidades distintas, mas complementares em todos os sentidos. “Eu acredito numa espiritualidade libertadora, que fortalece as lutas sociais por vida plena, por justiça. Uma espiritualidade que não assume as lutas sociais não é libertadora”.

Junto com Raquel Rigotto, Thiago Valentim será facilitador do grupo de reflexão “Espiritualidade e Movimentos Sociais” no I Encontro Nacional de Espiritualidade Libertadora, que acontecerá de 1° a 4 de maio em Fortaleza, Ceará.

Os movimentos sociais estão intrinsecamente ligados aos ideais da Teologia da Libertação pela sua preocupação com os setores desfavorecidos pelo grande sistema. Como você vê a importância da presença da espiritualidade nas manifestações políticas populares organizadas?

Thiago: Os movimentos sociais, por si só, tem sua legitimidade garantida, pois são formados por pessoas de categorias socialmente excluídas, transformadas em sujeitos da luta. Alguns movimentos, por sua gênese, estão imbuídos de uma espiritualidade libertadora, também chamada de mística. Estes possuem um elemento a mais que os fortalece na luta e na resistência. Essa espiritualidade libertadora é o que faz esses movimentos sociais estarem ligados à Teologia da Libertação, pois além da consciência de que os direitos humanos precisam ser garantidos, existe a certeza de que Deus se manifesta nas lutas do povo, pois, se seu Reino consiste na vida em abundância (cf. Jo 10, 10) e na justiça, em toda e qualquer ação que vise à promoção e defesa da vida, dos seres humanos e da natureza, preferencialmente dos excluídos da sociedade, aí Deus se manifesta.

Em hebraico, espírito é a ruach, é feminino e significa também vento, sopro, disposição, ânimo, sentido. A espiritualidade libertadora é uma força profunda que move homens e mulheres a lutarem pela garantia de seus direitos, que empurra pra frente, dá ânimo, dá sentido à luta e, ao mesmo tempo, faz assumir a causa da justiça como causas próprias, para toda a vida, mesmo quando suas necessidades são satisfeitas.

 

Conte-nos um pouco sobre a história da relação entre a Igreja Católica e os movimentos sociais no Brasil.

Thiago: Com o Concílio Vaticano II (1962-1964) um vento novo sopra na Igreja, promovendo uma abertura profética. A Igreja assume, de diversas formas, a luta pela vida e a opção pelos pobres. Essa opção é reafirmada, na América Latina, pelas Conferências do Episcopado Latinoamericano, especialmente Medellín (1968) e Puebla (1979), bem como em diversos espaços eclesiais. Diante das ditaduras políticas estabelecidas nos países latino-americanos vários setores da Igreja Católica e de outras igrejas cristãs escutaram o clamor dos oprimidos (cf. Ex 3, 7) e se puseram corajosamente ao seu lado. Florescem as Comunidades Eclesiais de Base e, no Brasil, foram criadas pastorais que assumem as lutas sociais, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), fundada em 1975 e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), criado em 1972, como entidades de serviço e de presença solidária, fraterna, profética, ecumênica afetiva junto aos pobres da terra. Das CEBs e dessas pastorais, dentre outras, vão surgindo movimentos sociais, legítimos representantes dos grupos oprimidos. A partir de então, setores da Igreja Católica comprometidos com a transformação social (e aqui é importante frisar que também setores comprometidos de outras igrejas cristãs têm parte nessa história) sempre estimularam o protagonismo dos pobres e sua organização, dando contribuição significativa para o surgimento dos movimentos sociais, no campo e na cidade. Um exemplo é o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), que completa 30 anos de luta pela Reforma Agrária. Os movimentos sociais foram amadurecendo, conquistando independência e consolidando seus quadros, suas lutas. Os setores da Igreja Católica e de outras igrejas continuam atuando como entidades de serviço, sendo parceiras dos movimentos sociais, porém, igualmente com autonomia em suas decisões e suas lutas.

Quais os principais avanços que os movimentos organizados conquistaram no Brasil nesses últimos anos? E quais as metas para os próximos?

Thiago: A partir da redemocratização do país, com a aprovação da Constituição de 1988, o povo organizado conquistou vários direitos. Porém, nenhum direito foi garantido por boa vontade de representantes políticos, mas foi conquistado a partir de muita luta, muita pressão, muito suor e sangue derramado. Nada nos foi dado de mão beijada, como diz o ditado. Há avanços no acesso à terra, à água, à moradia, ao direito à alimentação, à liberdade de ir e vir, dentre outros. Contudo, não são conquistas universalizadas. São pontuais ou, às vezes, apenas na letra da lei, faltando serem implementadas. No semiárido brasileiro, por exemplo, a implantação de tecnologias de convivência com o semiárido, com subsídios dos governos, é uma conquista da sociedade civil organizada, mas ainda há muito no que avançar. Ainda estamos muito aquém das conquistas que queremos. Há forças contrárias em todos os setores da sociedade que impedem de que os pobres avancem na melhoria da qualidade de vida e, não raro, ameaçam as conquistas obtidas. O grande capital avança sobre os territórios dos povos e comunidades tradicionais pelo agro e hidronegócio, mineradoras, especulação imobiliária, projetos de privatização do mar, enquanto que a Reforma Agrária não avança. Segundo dados do Incra, “Dilma desapropriou 186 imóveis, num total de 342.503 hectares, incorporou 2.540.772 hectares à reforma agrária e assentou 75.335 famílias. É um resultado pífio quando os números são comparados com os governos Lula (1.987 imóveis, 48.291.182 hectares incorporadas e 614.088 famílias assentadas) e Fernando Henrique Cardoso (3.539 imóveis, 21.129.935 incorporadas e 540.704 famílias assentadas)”. Em 2011, início do governo Dilma, era 165 mil o número de famílias acampadas. Apenas cerca de 45 mil tiveram acesso à terra nos últimos três anos. A Reforma Agrária vai de mal a pior. Diante deste quadro preocupante, a perspectiva para os movimentos sociais é de se fortalecer internamente para o enfrentamento do modelo de des-envolvimento imposto sobre os territórios, que toma dimensões cada vez maiores.

Você acredita que uma sociedade justa e fraterna só será possível de se alcançar através das lutas sociais, da revolução espiritual ou será um processo misto” Para você, como será a sociedade do futuro?

Thiago: No Evangelho de Marcos, encontramos um dito de Jesus:”Quem não é contra nós, está a nosso favor” (Mc 9, 40). Se o projeto de Jesus é a vida plena para todos, então quem é a favor da vida e luta por ela, principalmente pela vida dos últimos da sociedade, dos vitimados pelo sistema, está colaborando na construção dessa sociedade justa e fraterna, que Jesus chama de Reino de Deus. Eu acredito numa espiritualidade libertadora, que fortalece as lutas sociais por vida plena, por justiça. Espiritualidade libertadora e lutas sociais não são realidades distintas, separadas, mas complementares em todos os sentidos. Uma espiritualidade que não assume as lutas sociais não é libertadora.

Não sei ao certo como será a sociedade do futuro. Depende de uma série de situações. O que eu posso dizer é que sociedade eu aspiro, eu desejo, pela qual estou lutando, ou seja, uma sociedade liberta de toda opressão, onde não haja ricos e pobres, onde todos tenham comida em quantidade e qualidade suficientes, onde não haja ninguém sem casa pra morar, sem terra pra plantar e sem água para beber e produzir (Is 65, 20-25); onde ninguém mais será traficado, nem escravizado (cf. Gl 5, 1); onde os idosos sentarão nas praças sem temer a violência e os meninos e meninas ali poderão brincar felizes (cf. Zc 8, 4-5); onde as mulheres não serão mais violentadas e não haverá mais preconceito e violência étnica e racial.

No ano passado Fortaleza assistiu a uma questionável manifestação de autoridade contra os movimentos sociais por conta da desproporcional forma como o poder público tratou um grupo de manifestantes acampados em um parque público da cidade. A violenta repressão da polícia paulistana contra um grupo contrário a um aumento na passagem do transporte público gerou uma onda de protestos que se espalhou por todo o País. Para você, apesar desses relatos preocupantes, há uma boa relação entre os movimentos sociais e a classe política brasileira?

Thiago: Neste ponto, é preciso levar em consideração o seguinte: da mesma forma como são inúmeras as demandas, as violações e negação de direitos, também são vários os movimentos sociais, dependendo da categoria, da situação a que se quer superar, como também é diversa a forma como esses movimentos se relacionam com a representação política brasileira. Na atualidade, existem movimentos que romperam totalmente com as representações políticas existentes, com o próprio sistema político instalado e alguns movimentos até surgiram a partir do rompimento com determinados movimentos ou entidades representativas, por entender que tal movimento ou entidade já não representa mais os interesses da categoria. Outros movimentos, porém, já são mais governistas e ligados a partidos políticos. No geral, do meu ponto de vida, não é boa a relação entre os movimentos sociais e a classe política brasileira. Aliás, diante da conjuntura política, uma boa relação nesse caso seria questionadora. A classe política brasileira, com algumas exceções, é corrupta, patrimonialista, inimiga do povo e busca, de diversas formas, cooptar lideranças e criminalizar os movimentos sociais. As manifestações desencadeadas a partir de junho de 2013, mas também aquelas acontecidas bem antes, organizadas por camponeses e indígenas, mostram claramente como os governos tratam as pessoas que, de forma legítima, reivindicam seus direitos: através da repressão policial. Num Estado democrático de direito, mas com atitudes ditatoriais, repressivas, num contexto explícito de violação e negação de direitos humanos é inviável uma boa relação entre movimentos sociais genuínos e governos.

Quais as expectativas para o I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora?

Thiago: As expectativas são as melhores possíveis, desde o encontro gostoso de companheiros e companheiros ao debate sério em torno dos grandes conflitos. Na Comissão Pastoral da Terra, estamos entrando no ritmo da dança que nos conduzirá ao nosso IV Congresso Nacional, que se realizará em julho de 2015, em Porto Velho/RO, celebrando também os 40 anos de vida da CPT. Escolhemos como lema a frase de um poema de Thiago de Mello, “Faz escuro, mas eu canto”. O momento político é difícil. Na Igreja Católica, sopra ares novos com o Papa Francisco. Esperamos, e vamos colaborar para tanto, que este I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora nos anime na luta, nos faça reafirmar o compromisso com as grandes causas da justiça, nos faça mais irmãos e irmãs e, diante de tantos desafios, tanta escuridão no caminho, nos leve a bradar: “Faz escuro, mas eu canto”. O canto da vitória, como o canto de Miriam, irmã de Moisés (cf. Ex 15, 20-21) e de Débora (cf. Jz 5), o canto de quem não desiste nunca, de quem tem esperança de ver acontecer o “novo céu e a nova terra” (Ap 21, 1). Até lá!

Thiago Valentim é natural de Madalena /CE, graduado em Filosofia e Teologia pela Faculdade Católica Rainha do Sertão, em Quixadá; atualmente cursando Especialização em Assessoria Bíblica – DABAR, na Escola Superior de Teologia/EST, em São Leopoldo/RS, curso em parceria entre EST e CEBI; membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB) e da Rede Glocal de Leitura Popular/Contextual da Bíblia, pelo CEBI; membro da Associação de Missionários e Missionárias do Nordeste (AMINE), da Articulação Antinuclear do Ceará e da União dos Irmãos e Irmãs de Jesus, um grupo de pessoas que buscam viver a espiritualidade de Charles de Foucauld. Agente da Comissão Pastoral da Terra do Ceará (CPT), atualmente integra a coordenação colegiada regional.

 

Adital

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