Teoria x prática no primeiro ano de Mano Menezes na seleção; onde está o erro?

Publicado em domingo, agosto 28, 2011 ·

mano-menezes1Competente, estudioso, ponderado e, apesar do espaço relativamente curto de tempo, profundo conhecedor da liturgia do cargo. Mano Menezes tinha todos os predicados para chegar ao fim de seu primeiro ano à frente da seleção brasileira com a imagem imaculada. Passados 13 jogos, 60 convocados, seis vitórias inexpressivas, três derrotas em quatro clássicos e uma eliminação surpreendente na única competição que disputou, teoria e prática caminham em direções opostas. Da mesma forma com que celebriza seus personagens, o futebol os desconstrói. A visão atual de Mano é a de um técnico inseguro, incoerente e, já por duas vezes garantido na função pelo presidente da CBF, pressionado.

– A necessidade de resultados influencia o comportamento do técnico, é o que o faz mudar de discurso – diagnostica o ex-craque e comentarista Júnior. – A escolha do Mano foi quase unânime, mas seleção é diferente. Ainda que seja um período de transição, esperam-se vitórias, e a falta delas sempre traz problemas.

Ganso x Fernandinho

O recente amistoso com a Alemanha, segundo Mano, foi o marco divisório entre a primeira e a fase seguinte de seu trabalho, que começa no próximo dia 5, contra Gana, em Londres. Ao estabelecer um ponto final e um novo começo, o técnico instiga a reflexão. A forma como a derrota em Stuttgart aconteceu ratificou as últimas impressões: à beira do campo esteve um comandante distante das convicções e do discurso que, em sua primazia, pregava renovação e o resgate de um estilo de jogo. E nenhum outro fato melhor para confirmar o distanciamento entre Mano e a gênese de suas ideias quanto a opção por começar o jogo com Fernandinho, um segundo volante, no lugar de Paulo Henrique Ganso, o camisa 10 cujo futebol moderno e elegante simbolizava suas melhores intenções.

– Ao abrir mão do talento contra um adversário que historicamente sempre respeitou o Brasil, ele demonstrou estar perdido – afirma o tricampeão do mundo Paulo César Caju. – Ele perdeu a confiança e a seleção, a identidade.

Se o confronto com os alemães mostrou o desalinhamento entre o técnico e suas propostas, o início foi promissor. Ao fixar residência no Rio para trabalhar diariamente na CBF, pôde acompanhar de perto as seleções de base. A escolha de um profissional com passagens pela direção de grandes clubes como Ney Franco para comandar a equipe sub-20 também se mostrou acertada. Sem eliminatórias, a opção por amistosos contra seleções de ponta foi outro fator positivo. A empolgante atuação na vitória sobre os Estados Unidos aumentou a expectativa. Vieram triunfos sobre Irã e Ucrânia, e, a reboque, a primeira frustração. Para o amistoso contra a Argentina, no Qatar, Mano chamou Ronaldinho Gaúcho, mas quem brilhou foi Lionel Messi, autor do único gol da partida.

Resgate com Ronaldinho

As primeiras convocações de 2011 marcaram o reaparecimento de velhos conhecidos da seleção brasileira. Júlio César foi chamado contra a França, naquela que seria a segunda derrota consecutiva do treinador. A lista de remanescentes do fracasso na África do Sul aumentou no jogo com a Escócia, com Maicon, Lúcio e Elano. Embora a volta dos mais experientes estivesse no planejamento para a disputa da Copa América, muitos viram sinais de retrocesso na esperada renovação, que deu poucas chances para Lucas, Leandro Damião e Hulk.

– Jogadores experientes dão tranquilidade aos garotos, mas ele terá de avaliar bem. É preferível perder tempo, entre aspas, com a molecada do que com veteranos que podem não chegar à Copa – adverte o também tricampeão e comentarista Gérson. – Acho que a Copa das Confederações vai marcar o início da arrancada ou o fim do caminho dele.

Mais do que o retrospecto, a forma de jogar nunca empolgou. Mano reconheceu que, após um ano, ainda não conseguiu dar uma cara à equipe. A melhor partida da seleção sob seu comando continua sendo a primeira. Para o ex-atacante Careca, titular da seleção nas Copas de 86 e 90, o problema está relacionado ao estilo e à qualidade dos volantes:

– Ele convoca jogadores que não agregam tanto e acaba faltando diálogo no meio. Há jogadores como o Hernanes que podem fazer a bola chegar mais limpa ao Ganso.

A ausência de Hernanes desde a expulsão no primeiro tempo contra a França é uma das incoerências do técnico, que alega que o jogador do Lazio, autor de 11 gols em sua primeira temporada na Itália, é meia, função para a qual, diz ele, há opções melhores.

– Esse discurso de resgate de um estilo é jogar para a galera, pois depende dos jogadores que tem. Quem conhece futebol italiano sabe que o feito do Hernanes é significativo – afirma Júnior.

A renovação deveria ser pautada por desempenho e entusiasmo, e não idade ou tempo de casa na visão de Casagrande. Nesse caso, ele enxerga em Ronaldinho Gaúcho, convocado para o jogo contra Gana, a tábua de salvação de Mano, um possível ponto de convergência entre o técnico e seus antigos ideais.

– Ele, indo bem, reafirma a ideologia de jogar para frente, com estilo. Além de segurança, passa empolgação. Ronaldinho contagia os mais jovens, vale a pena tê-lo. Essa hora é para aqueles que erram o mínimo possível.

O Globo

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