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No caso de Romário e modelo transexual Thalita Zampirolli, a transfobia ultrapassa o affair

thalita“Transexual sai com Romário e diz: ‘Somos amigos bem íntimos’”, diz a chamada do jornal O Dia desta terça-feira, 17, mostrando uma foto da modelo Thalita Zampirolli de mãos dadas com o ex-jogador. Num primeiro momento, pensei: E daí? Não é de hoje que sabemos que belas travestis e mulheres transexuais se envolvem com jogadores. Depois, pensei que o romance assumido de uma trans com um ídolo do futebol poderia contribuir com a causa trans e para a naturalização do relacionamento – que geralmente cai no amor clandestino ou “na pegadinha do Mallandro”. Até que lamentavelmente vi a enxurrada de transfobia (ou despreparo) sendo derramada pela publicação, pela própria trans, por Romário e pelos leitores – muita gente na minha própria timeline compartilhando com deboche.

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Primeiro, o jornalista tratou do affair como se fosse o acasalamento da mulher macaca. Perguntas óbvias como ‘Rola beijo na boca?’ ou agressivas e insistentes como ‘Qual é o seu nome de batismo?’, ‘Mas você tinha um primeiro nome, não é?’, ‘Ninguém diz que você é transexual… Ou diz?’ foram despejadas em cima da modelo. Questões que certamente não teriam o menor cabimento se o jornalista não estivesse munido da ideia de que o relacionamento com uma trans fosse digno de piada. Ou de que uma mulher transexual nada mais é que uma mulher e que tais perguntas destinadas a uma pessoa que lutou pela identidade feminina são no mínimo desrespeitosas.

Depois, senti meus ouvidos doerem com as respostas despolitizadas e munidas apenas de vaidade de Thalita – algo comum em algumas mulheres transexuais, que após passarem pela cirurgia de redesignação e mudança de documentos decidem viver apenas da passabilidade cisgênera, renegando a condição trans. Tanto que, ao receber o elogio de que tem a voz feminina, ela diz que por causa de sua aparência prefere viver de forma diferenciada, longe das lutas LGBTs e da prostituição. ‘Sou criticada por não apoiar manifestações LGBT. Eu vivo em outro mundo. Não apoio. Muitas manifestações pedem respeito, mas você vê hoje em dia nas paradas gays muita falta de respeito. Eles se beijam [???], transam na areia… Não apoio isso. Trabalho com vários gays, eles têm um padrão de vida diferente da maioria e poderiam pedir respeito de forma diferenciada”.

O que Thalita não poderia imaginar – talvez por ser “diferenciada” e não estar informada sobre o cenário T no Brasil (e este é um direito dela, mas infelizmente o mundo é um só) – é que Romário, seu amigo íntimo, fosse manifestar contra o romance público e negar tudo, dizendo que ‘ela não é mulher’ e que, por esse motivo, não teria rolado nada entre eles. Em seu Facebook, o ex-atleta alegou que Thalita é gente boa, sangue bom, é sua camarada, mas garantiu que certamente ‘casamento não iria rolar’, soltando uma gargalhada logo em seguida. ‘Disse que respeito o gosto pessoal de qualquer pessoa, mas volto a afirmar: eu gosto de mulher!’, escreveu.

“Ela é sangue bom, mas eu gosto de mulher”, disse Romário (Wikimedia Commons)

Surgiram ainda a onda de comentários espinhosos abaixo da entrevista. ‘Quem diria o Romário pegando traveco…kkkk’, ‘Doutor Romário dando o ré no quibe’, ‘Quem diria… Romário que sempre foi um cara ‘machão’… Nada contra a opção homossexual, mas a gente se surpreende quando descobre que uma pessoa do perfil do Romário faz essa opção’. Um feedback claro de como a transfobia está presente no discurso, de como uma mulher transexual não tem a sua identidade feminina legitimada, de como o órgão genital ainda é visto como o destino, e de como uma transexual é percebida como um homem querendo se passar por quem não é. Ou seja, “uma farsa que deve ficar somente entre quatro paredes – jamais em público”.

Porém, esqueceram de dizer para Romário (e para muita gente) que ninguém nasce mulher, torna-se mulher [como bem disse Simone de Beauvoir] por uma construção social e física. Esqueceram de dizer que a transexualidade não é o mesmo que homossexualidade e que o genital não define o gênero. Esqueceram de dizer ainda que a atração sexual não se explica, não é digna de questionamento e muito menos de deboche. Por fim, esqueceram de avisar a todos que (um pouco) de informação, respeito e consciência política faz bem para a sociedade em geral. Inclusive para nós mesmos e para a quebra dos nossos preconceitos internalizados, que nos fazem reproduzir muitas vezes o discurso do opressor.

Afinal, enquanto ficamos presos a esse tipo de desserviço na mídia, Thalita continua considerando o beijo LGBT em público um desrespeito, Romário continua querendo abafar o relacionamento com uma transexual e deslegitimá-la como mulher, o leitor continua propagando as suas fobias na rede. E o que poderia ser uma linda história de amor, se transformou em mais uma triste manifestação de transfobia e outros preconceitos. E o pior: de todos os lados.

 

Por Neto Lucon, do Blog NLucon

Luiz Couto registra Dia Internacional contra Homofobia e Transfobia

 

No plenário da Câmara dos Deputados, Luiz Couto falou do Dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia (rejeição a transexuais e travestis), celebrado na quinta-feira (17). Ele destacou que a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República registrou em 2011 uma média de 3,4 denúncias diárias de violência praticada contra homossexuais.

“Foram enviadas 1.259 denúncias, de forma anônima, por meio do telefone 100 do Disque Direitos Humanos. A homofobia é crime. Muitos se esquecem de que devemos tratar as pessoas com respeito. As denúncias englobam casos de violência física, sexual, psicológica e institucional, além de episódios que envolvem discriminação relacionada com a opção sexual da pessoa”. Disse o parlamentar.

Entre os Estados que mais registram queixas estão São Paulo (210), Piauí (113), Bahia e Minas Gerais (105, cada um) e Rio de Janeiro (96). “Segundo dados, em 2011 ocorreram 266 homicídios, sinal de que precisamos trabalhar para vencer a intolerância, ainda grande em relação aos homossexuais. Na Paraíba, de acordo com o Movimento do Espírito Lilás (MEL), 11 homossexuais já foram mortos em 2012, enquanto 21 foram assassinados no ano de 2011. Isso é bastante preocupante para um estado pequeno como é o nosso. A homofobia é uma discriminação e uma violação de direitos humanos. Precisamos combater o preconceito e a impunidade contra esses crimes”, enfatizou Couto.

Ascom de Luiz Couto
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