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Espécie brasileira de coral combate superbactéria hospitalar

Uma das bactérias mais importantes causadora de infecções relacionadas à assistência a saúde (IrAS) e que atinge os pulmões – a Klebsiella pneumoniae (KPC) – acaba de ganhar um combatente inusitado e promissor: o coral orelha-de-elefante (Phyllogorgia dilatata).

 


Coral Orelha de elefante no Recife de Fora – mostra biodiversidade e cobertura. Foto: Coral Vivo

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A espécie, que ocorre na costa do Brasil, é a primeira nas águas do Atlântico Sul a ser identificada com essa característica antimicrobiana para controle desse tipo de microrganismo encontrado em ambiente hospitalar. Com o título: “Identification of a Novel Antimicrobial Peptide from Brazilian Coast Coral Phyllogorgiadilatata”, a novidade está publicada na mais recente edição da “Protein & Peptide Letters”.

Esse estudo – que avaliou a ação das biomoléculas extraídas e purificadas do coral – é liderado por pesquisadores da Pós-Graduação em Ciências Genômicas e Biotecnologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), em parceria com o Museu Nacional/UFRJ, e faz parte da Rede de Pesquisas Coral Vivo, patrocinada pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Ambiental, e pelo Arraial d’Ajuda Eco Parque. Os cientistas destacam que cepas dessas bactérias têm desenvolvido resistência à maioria dos antibióticos existentes atualmente, causando milhares de mortes por infecções em ambientes hospitalares.

“Percebemos que este pode ser um candidato promissor a novo antibiótico para atuar contra bactérias resistentes aos fármacos disponibilizados até agora”, informa a bióloga molecular e professora da UCB, Simoni Campos Dias. Essa superbactéria, objeto da pesquisa, chegou ao Brasil em 2005. Pelo menos 106 pessoas morreram no Brasil infectados por ela, entre 2011 e 2012, segundo dados mais recentes do Ministério da Saúde – o que destaca a importância dessa pesquisa. Como esses animais vivem fixos no mar e sobrevivem à alta competitividade dos ambientes marinhos, eles possuem barreiras químicas que conseguiram destruir essa superbactéria pulmonar.

O coral orelha-de-elefante é encontrado em abundância na costa brasileira e nas ilhas oceânicas distribuídas desde o Maranhão até Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. Não há relatos na literatura sobre peptídeos antibacterianos extraídos desta espécie. O estudo conclui que as biomoléculas extraídas e purificadas do orelha-de-elefante também conseguiram controlar o crescimento daStaphylococcus aureus e da Shigella flexneri, consideradas bactérias importantes nas infecções adquiridas em ambiente hospitalar, e que apresentam cepas resistentes a muitos antibióticos usados com frequência nas unidades de saúde.

Escolha da espécie

De acordo com o coordenador geral do Projeto Coral Vivo e professor do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, o biólogo Clovis Castro, foram selecionadas seis espécies de corais que tinham potencial para a pesquisa. “Como esses animais sobrevivem à alta competitividade dos ambientes marinhos, eles possuem barreiras químicas como, por exemplo, os peptídeos antimicrobianos”, relata Castro. Além do extrato bruto da Phyllogorgia dilatata, foram avaliados: Carijoa riisei, Muriceopsis sulphurea, Neospongodes atlantica, Palythoa caribeorum e Plexaurellagrandiflora.

“Nos resultados preliminares, percebemos que a Phyllogorgia dilatata tinha potencial consideravelmente mais alto do que as demais, por isso aprofundamos os experimentos somente com ela”, explica a pesquisadora Loiane Alves de Lima, que teve a pesquisa como tese de seu mestrado na UCB.

Próximas etapas

As substâncias são encontradas em quantidades extremamente pequenas no coral. A bióloga Simoni Campos Dias explica que o próximo passo será descobrir se esse peptídeo é derivado do próprio coral ou se pertence às bactérias e outros micro-organismos que vivem em associação com ele. “Começamos a investigar também as moléculas de outros animais marinhos do Caribe, visto que os resultados desse estudo apresentaram alto potencial de defesa”, completa.

Somente terá efeito no organismo humano com a biomolécula isolada criteriosamente e processada: “Após longo processamento do fármaco descoberto no coral, o composto será clonado dentro de levedura, para que seja possível produzir o princípio ativo em grande quantidade. Assim, o medicamento poderá ser fabricado”, resume o professor da Universidade Católica de Brasília, Octávio Luiz Franco, que faz parte da equipe de pesquisadores. Ele conta que isso pode levar uns 10 anos, porque serão necessárias mais pesquisas e testes no organismo humano e aprovação dos órgãos competentes. E alerta: “O extrato em si, sem o processamento adequado, poderia causar danos maiores do que a bactéria causadora da infecção hospitalar”.

Esse é um dos estudos sobre novos combatentes para as temidas superbactérias liderados pelos pesquisadores da Universidade Católica de Brasília (UCB), que já pesquisaram outros peptídeos com atividade antimicrobiana extraídas de plantas e animais, por exemplo. A pesquisa com os corais brasileiros foi financiada pela Universidade Católica de Brasília (UCB), CNPq, CAPES e Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal, e faz parte da Rede de Pesquisas Coral Vivo, que é patrocinada pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Ambiental, e pelo Arraial d’Ajuda Eco Parque. Participaram cientistas da UCB, do Museu Nacional / Universidade Federal do Rio de Janeiro, da Universidade Federal do Ceará, e da University de La Habana, de Cuba.

Curiosidade

O coral orelha-de-elefante está na atual cédula de R$ 100. Ele foi indicado para o Banco Central e Casa da Moeda pelos pesquisadores do Museu Nacional/UFRJ e do Projeto Coral Vivo, assim como as demais espécies marinhas que acompanham a garoupa na nota. A edição 12 do informativo “Coral Vivo Notícias” publicou matéria com as imagens cedidas pelo Projeto e suas respectivas localizações. Confira aqui.

Projeto Coral Vivo

O Projeto Coral Vivo faz parte da Rede BIOMAR (Rede de Projetos de Biodiversidade Marinha), que reúne também os projetos Tamar, Baleia Jubarte, Golfinho Rotador e Albatroz. Todos patrocinados pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Ambiental, eles atuam de forma complementar na conservação da biodiversidade marinha do Brasil, atuando nas áreas de proteção e pesquisa das espécies e dos habitats relacionados. As ações do Coral Vivo são viabilizadas também pelo co-patrocínio do Arraial d’Ajuda Eco Parque, e realizadas pela Associação Amigos do Museu Nacional (SAMN).

Fonte: Site Coral Vivo

Uso indiscriminado de antibióticos aumenta risco de casos de superbactéria, diz infectologista

O uso indiscriminado de medicamentos, sobretudo antibióticos, aumenta de forma considerável o risco de casos de superbactérias – micro-organismos resistentes à maior parte dos tratamentos disponíveis. O alerta é do diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia, Marcos Antonio Cyrillo.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que 440 mil casos de tuberculose resistente são registrados no mundo todos os anos, além de cerca de 150 mil mortes decorrentes de infecções por superbactérias.

“Não há hospital livre disso. Lógico que um hospital de grande porte e de alta complexidade ou um hospital universitário com vários leitos de UTI [unidade de terapia intensiva] e que interna pacientes com cirurgias complicadas são o tipo de lugar que pode ter mais bactérias resistentes. Mas nenhum hospital ou casa de repouso com longa permanência está livre disso”, observou Cyrillo.

Para o infectologista, o uso indiscriminado de antibióticos configura, de certa forma, um problema cultural, já que o profissional de saúde se sente mais seguro ao receitar o medicamento. “Ele acha que está fazendo um bem para o paciente, mas vários fatores precisam ser levados em conta na hora de fazer um programa de prevenção e também de orientação para o uso de antibiótico”, reforçou.

Na tentativa de conter os casos de superbactéria no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou que a venda de antibióticos só pode ser feita com a apresentação de duas vias da receita médica. O objetivo, de acordo com a gerente de Vigilância e Monitoramento em Serviços de Saúde, Magda Machado, é restringir a automedicação, já que uma via fica retida pelo estabelecimento.

Ela lembrou que, após os casos da superbactéria KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase) registrados no país nos últimos anos, a Anvisa editou uma nota técnica que trata da identificação, prevenção e controle de infecções relacionadas a micro-organismos multirresistentes. Entre as obrigatoriedades nas unidades de saúde está a higienização das mãos por meio do uso de álcool em gel por profissionais de saúde e visitantes.

Francisca Silva, 52 anos, é representante de laboratório e tem medo de contrair qualquer tipo de infecção resistente a medicamentos. “Tomo certos cuidados com a higiene porque trabalho em hospital e, por isso, estamos suscetíveis a todo tipo de contaminação. Procuro me proteger de qualquer uma delas”, contou.

A dona de casa Andreia Queiroz da Silva, 34 anos, tem lúpus, doença que compromete o sistema imunológico, e também se preocupa em manter hábitos como lavar as mãos com água e sabão quando frequenta unidades de saúde. “Acho que está faltando informação sobre essa superbactéria. Nos hospitais, é comum vermos panfletos com orientações sobre a higienização das mãos, mas muita gente não segue.”

Cleide Teixeira, 39 anos, é enfermeira e trabalha há 19 anos na mesma unidade de saúde. Além da higienização das mãos, ela usa luvas cirúrgicas descartáveis como alternativa para se proteger e proteger os pacientes de micro-organismos multirresistentes. “Nós, profissionais de saúde, estamos expostos a qualquer tipo de doenças. Temos a obrigação de evitar que os pacientes sejam contaminados”, avaliou.

Agência Brasil