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Stedile: Governo se tornou refém do agronegócio

pedro-stedileNa quinta-feira, 06 de fevereiro, João Pedro Stedile, da coordenação nacional do MST, participou de uma coletiva de imprensa, e analisou os desafios da luta pela Reforma Agrária, as mobilizações da classe trabalhadora para o próximo período e a importância de uma reforma política para o Brasil. A entrevista coletiva anunciou a realização do 6° Congresso Nacional do Movimento, que será realizado entre os dias 10 a 14 de fevereiro.

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Segundo ele, a Reforma Agrária está paralisada por vários fatores. “Existe uma pressão grande do capital financeiro, que domina a agricultura através do agronegócio e das empresas transnacionais. O governo se tornou refém do agronegócio. Como a Kátia Abreu pode ser base desse governo, se ela assinou o impeachment do Lula?”, indaga.

Segundo o Sem Terra, a composição conciliadora dos governos Lula-Dilma não dá mais certo, já que as políticas paliativas não dão mais conta de resolver as pressões sociais.

Além disso, a mídia, que noticiava as lutas sociais, “tem feito campanha sistemática para desmobilizar e criminalizar as lutas, para que os trabalhadores nem pensem em se mobilizar e protestar. Por fim, a letargia da Reforma Agrária também é fruto das derrotas políticas sofridas pela classe trabalhadora”, acredita.

Para reverter esse quadro, Stedile acredita que apenas fortes mobilizações poderiam mudar essa correlação de forças. “Temos de mostrar que o agronegócio não é o futuro. Importamos 21 milhões de toneladas de fertilizantes. É um modelo que não se sustenta e uma hora vai estourar. Os trabalhadores vão voltar a se mobilizar, e a união da classe trabalhadora vai dar gás para a Reforma Agrária”.

Com informações do MST.

Para ler o texto do MST sobre a entrevista na íntegra clique aqui.

 

Adital

Stedile: o significado e as perspectivas das mobilizações de rua

(Foto: Marcelo Camargo / Abr)
(Foto: Marcelo Camargo / Abr)

É hora do governo aliar-se ao povo ou pagará a fatura no futuro. Essa é uma das avaliações de João Pedro Stedile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), sobre as recentes mobilizações em todo o país. Segundo ele, há uma crise urbana instalada nas cidades brasileiras, provocada por essa etapa do capitalismo financeiro. “As pessoas estão vivendo um inferno nas grandes cidades, perdendo três, quatro horas por dia no trânsito, quando poderiam estar com a família, estudando ou tendo atividades culturais”, afirma. Para o dirigente do MST, a redução da tarifa interessava muito a todo o povo e esse foi o acerto do Movimento Passe livre, que soube convocar mobilizações em nome dos interesses do povo.

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Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Stedile fala sobre o caráter dessas mobilizações, e faz um chamamento: devemos ter consciência da natureza dessas manifestações e irmos todos para a rua disputar corações e mentes para politizar essa juventude que não tem experiência da luta de classes. “A juventude está de saco cheio dessa forma de fazer política burguesa, mercantil”, constata. E faz uma alerta: o mais grave foi que os partidos da esquerda institucional, todos eles, se moldaram a esses métodos. Envelheceram e se burocratizaram. As forças populares e os partidos de esquerda precisam colocar todas as suas energias para ir para a rua, pois está ocorrendo, em cada cidade, em cada manifestação, uma disputa ideológica permanente da luta dos interesses de classes. “Precisamos explicar para o povo quem são os principais inimigos do povo”.

João Pedro Stedile, da coordenação do MST (Foto: José Cruz/ABr)

Brasil de Fato – Como você analisa as recentes manifestações que vêm sacudindo o Brasil nas últimas semanas? Qual é a base econômica para elas terem acontecido?

João Pedro Stedile – Há muitas avaliações sobre por que estão ocorrendo estas manifestações. Me somo à análise da professora Ermínia Maricato, que é nossa maior especialista em temas urbanos e já atuou no Ministério das Cidades na gestão Olívio Dutra. Ela defende a tese de que há uma crise urbana instalada nas cidades brasileiras, provocada por essa etapa do capitalismo financeiro. Houve uma enorme especulação imobiliária que elevou os preços dos aluguéis e dos terrenos em 150% nos últimos três anos. O capital financiou – sem nenhum controle governamental – a venda de automóveis para enviar dinheiro para o exterior e transformou nosso trânsito um caos. E, nos últimos dez anos, não houve investimento em transporte público. O programa habitacional Minha casa, minha vida empurrou os pobres para as periferias, sem condições de infraestrutura. Tudo isso gerou uma crise estrutural, em que as pessoas estão vivendo um inferno nas grandes cidades, perdendo três, quatro horas por dia no trânsito, quando poderiam estar com a família, estudando ou tendo atividades culturais. Somado a isso, a péssima qualidade dos serviços públicos, em especial na saúde e mesmo na educação, desde a escola fundamental, ensino médio, em que os estudantes saem sem saber fazer uma redação. E o ensino superior virou loja de vendas de diplomas a prestações, onde estão 70% dos estudantes universitários.

Do ponto de vista político, por que isso aconteceu?

Os 15 anos de neoliberalismo e mais os últimos dez anos de um governo de composição de classes transformou a forma de fazer política em refém apenas dos interesses do capital. Os partidos ficaram velhos em suas práticas e se transformaram em meras siglas que aglutinam, em sua maioria, oportunistas para ascender a cargos públicos ou disputar recursos públicos para seus interesses. Toda a juventude nascida depois das Diretas Já não teve oportunidade de participar da política. Hoje, para disputar qualquer cargo, por exemplo, o de vereador, o sujeito precisa ter mais de um milhão de reais. O de deputado custa ao redor de dez milhões de reais. Os capitalistas pagam e depois os políticos os obedecem. A juventude está de saco cheio dessa forma de fazer política burguesa, mercantil. Mas o mais grave foi que os partidos da esquerda institucional, todos eles, se moldaram a esses métodos. Envelheceram e se burocratizaram. E, portanto, gerou na juventude uma ojeriza à forma dos partidos atuarem. E eles têm razão. A juventude não é apolítica, ao contrário, tanto é que levou a política para as ruas, mesmo sem ter consciência do seu significado. Mas está dizendo que não aguenta mais assistir na televisão essas práticas políticas que sequestraram o voto das pessoas, baseadas na mentira e na manipulação. E os partidos de esquerda precisam reapreender que seu papel é organizar a luta social e politizar a classe trabalhadora. Senão cairão na vala comum da história.

E por que as manifestações eclodiram somente agora?

Provavelmente tenha sido mais pela soma de diversos fatores de caráter da psicologia de massas, do que por alguma decisão política planejada. Somou-se todo o clima que comentei, mais as denúncias de superfaturamento das obras dos estádios, que são um acinte ao povo. Vejam alguns episódios. A Rede Globo recebeu do governo do estado do Rio de Janeiro e da prefeitura R$ 20 milhões do dinheiro público para organizar o showzinho de apenas duas horas do sorteio dos jogos da Copa das Confederações. O estádio de Brasília custou R$ 1,4 bilhão e não tem ônibus na cidade! A ditadura explícita e as maracutaias que a Fifa/CBF impuseram e que os governos se submeteram. A reinauguração do Maracanã foi um tapa no povo brasileiro. As fotos eram claras, no maior templo do futebol mundial não havia nenhum negro ou mestiço! E aí o aumento das tarifas de ônibus foi apenas a faísca para acender o sentimento generalizado de revolta, de indignação. A gasolina para a faísca veio do governo tucano Geraldo Alckmin, que protegido pela mídia paulista que ele financia, e acostumado a bater no povo impunemente – como fez no Pinheirinho e em outros despejos rurais e urbanos – jogou sua polícia para a barbárie. Aí todo mundo reagiu. Ainda bem que a juventude acordou. E nisso houve o mérito do Movimento Passe Livre, que soube capitalizar essa insatisfação popular e organizou os protestos na hora certa.

Por que a classe trabalhadora ainda não foi à rua?

É verdade, a classe trabalhadora ainda não foi para a rua. Quem está na rua são os filhos da classe média, da classe media baixa, e também alguns jovens do que o Andre Singer chamaria de subproletariado, que estudam e trabalham no setor de serviços, que melhoraram as condições de consumo, mas querem ser ouvidos. Esses últimos apareceram mais em outras capitais e nas periferias. A redução da tarifa interessava muito a todo o povo e esse foi o acerto do Movimento Passe livre, soube convocar mobilizações em nome dos interesses do povo. E o povo apoiou as manifestações. Isso está expresso nos índices de popularidade dos jovens, sobretudo quando foram reprimidos. A classe trabalhadora demora a se mover, mas quando se move afeta diretamente o capital. Coisa que ainda não começou acontecer. Acho que as organizações que fazem a mediação com a classe trabalhadora ainda não compreenderam o momento e estão um pouco tímidas. Mas a classe, como classe, acho que está disposta a também lutar. Veja que o número de greves por melhorias salariais já recuperou os padrões da década de 1980. Acho que é apenas uma questão de tempo, é só as mediações acertarem nas bandeiras que possam motivar a classe a se mexer. Nos últimos dias já se percebe que em algumas cidades menores e nas periferias das grandes cidades já começam a ter manifestações com bandeiras de reivindicações bem localizadas. E isso é muito importante.

Vocês do MST e dos camponeses também não se mexeram ainda…

É verdade. Nas capitais onde temos assentamentos e agricultores familiares mais próximos já estamos participando. Inclusive, sou testemunha de que fomos muito bem recebidos com nossa bandeira vermelha e com nossa reivindicação de reforma agrária, alimentos saudáveis e baratos para todo o povo. Acho que nas próximas semanas poderá haver uma adesão maior, inclusive realizando manifestações dos camponeses nas rodovias e municípios do interior. Na nossa militância está todo mundo doido para entrar na briga e se mobilizar. Espero que também se mexam logo.

Na sua opinião, qual é a origem da violência que tem acontecido em algumas manifestações?

Primeiro vamos relativizar. A burguesia, através de suas televisões, tem usado a tática de assustar o povo colocando apenas a propaganda dos baderneiros e quebra-quebra. São minoritários e insignificantes diante das milhares de pessoas que se mobilizaram. Para a direita, interessa colocar no imaginário da população que isso é apenas bagunça e no final, se tiver caos, colocar a culpa no governo e exigir a presença das Forças Armadas. Espero que o governo não cometa essa besteira de chamar a guarda nacional e as Forças Armadas para reprimir as manifestações. É tudo o que a direita sonha! Quem está provocando as cenas de violência é a forma de intervenção da Policia Militar. A PM foi preparada desde a ditadura militar para tratar o povo sempre como inimigo. E nos estados governados pelos tucanos (SP, RJ e MG), ainda tem a promessa de impunidade. Há grupos direitistas organizados com orientação de fazer provocações e saques. Em são Paulo, atuaram grupos fascistas e leões de chácaras contratados. No Rio de Janeiro, atuaram as milícias organizadas que protegem seus políticos conservadores. E claro, há também um substrato de lumpesinato que aparece em qualquer mobilização popular, seja nos estádios, carnaval, até em festa de igreja, tentando tirar seus proveitos.

 

 

Por Nilton Viana, do Brasil de Fato 

João Pedro Stédile: MST declara apoio aos blogueiros

A burguesia perdeu governos, mas mantém poder hegemônico através do poder judiciário e da grande imprensa. Felizmente, existem os blogueiros. Porém, cada vez que um blogueiro atinge os interesses desses grupos dominantes, eles usam o poder judiciário e a mídia para criminalizar e satanizar o inimigo.

“Por isso o MST apoia a luta de vocês, não desanimem”. Com essa mensagem João Pedro Stédile se solidariza com os companheiros da mídia alternativa.

Veja o vídeo em que Stédile detalha por que o MST apoia a luta dos blogueiros progressistas pela democratização da informação no Brasil.

Portal Vermelho

Stedile afirma que três projetos estão em disputa para a América Latina

Conjuntura na América Latina

A América Latina está vivendo uma conjuntura positiva para a classe trabalhadora em geral, pois saímos da hegemonia total dos Estados Unidos e do neoliberalismo com a eleição de diversos governos progressistas em todo o continente. E, agora, há uma disputa permanente do futuro do continente ao redor de três projetos ou propostas.

O primeiro é a retomada da ofensiva dos Estados Unidos, que quer recolonizar a região e transformá-la apenas em fornecedora de matérias primas e energia para ter lucro máximo para suas empresas que por aqui operam. Há um segundo projeto que defende uma integração continental, sem os americanos, mas ainda nos marcos dos interesses das empresas capitalistas. E há um terceiro projeto, que nós chamamos de ALBA (Alternativa Bolivariana Para a América), que se propõe a fazer uma integração econômica, política e cultural, que juntasse governos progressistas com as organizações populares.

Essas três propostas se enfrentam todos os dias em todos os espaços. A cada eleição presidencial, haverá candidatos dos três projetos. A vitoria de [Fernando] Lugo (presidente deposto do Paraguai), fortalecia o projeto dois e três, e representava um alento para a região do Cone Sul, pois derrotou as oligarquias paraguaias depois de 60 anos de ditadura do partido colorado. Eles tentaram derrubá-lo em 23 outros processos de impeachment e somente conseguiram derrubá-lo agora, quando os serviços de inteligencia e os interesses econômicos dos Estados Unidos se envolveram e ajudaram a preparar esse golpe de estado, que teve uma unidade impressionante em termos econômicos, políticos e midiáticos.

Movimentos sociais

Os movimentos sociais, no sentido genérico, que envolve todas as formas de organização da classe trabalhadora — desde o movimento sindical, popular, até a luta por moradia, por saúde, de luta pela terra e etc –, devem continuar com sua missão histórica que é organizar o povo para que ele lute por melhores condições de vida, pela defesa de seus interesses e por um novo projeto de sociedade. Os movimentos têm um papel fundamental, pois sem a organização popular na base e sem consciência de classe, não será possível fazer mudanças estruturais na sociedade e nem institucionais nos espaços do poder Legislativo e Executivo quando elegermos nossos representantes.

Assentamentos da reforma agrária

Há uma situação da condição humana que faz com que em qualquer novo espaço, território, assentamento, condomínio ou bairro, nem todas as pessoas se adaptem. A FAO (organização das Nações Unidas) tem um estudo que aponta que em qualquer mudança de moradia, há uma desistência média de 15% das pessoas, inclusive nos edifícios de luxo!

Nos assentamentos do MST, e também nos novos edifícios dos bairros da cidade, tem desistências, trocas, mudanças, que, portanto, são naturais que ocorram. No caso do MST, as desistências são maiores na região amazônica, aonde às vezes não tem estrada, escola, nenhum atendimento de saúde, e aí as famílias não aguentam e desistem. Aqui na região Sul e Sudeste, acontece um movimento inverso. Há algumas desistências, mas o número de novas pessoas que vão morar no assentamento é maior do que a desistência, porque as famílias levam os parentes para morar no mesmo lote.

Nós lutamos e conseguimos colocar na Constituição que, no caso da reforma agrária, a família camponesa recebe apenas um título de concessão de uso familiar. Em nome da mulher e do homem. E eles não podem vender. Portanto, mesmo quando há desistências, o que acontece são trocas de lotes, ou, no máximo, o desistente vende as benfeitorias que fez como a casa, animais e repassa o lote pro Incra colocar outra família.

O socialismo

Não só é possível como é necessário. O Socialismo é uma proposta da classe trabalhadora para construir uma sociedade mais justa e igualitária, aonde todos tenham direitos e oportunidades iguais, e aonde a riqueza seja distribuída de acordo com o trabalho de cada um. No fundo, todas as pessoas de boa vontade defendem esse sonho, ainda que não tenham claro como será. Portanto, as sociedades do futuro serão socialistas. O capitalismo é o modelo do passado, da exploração, da concentração de riqueza, da desigualdade social, da humilhação. E por mais que a burguesia, alguns exploradores e seus porta-vozes na mídia e na sociedade achem que vai ser eterno, um dia vai desmoronar. Disso não tenham duvidas.

Num passado recente, desde os tempos da ditadura e até o neoliberalismo, a classe dominante no campo era controlada pelos latifundiários atrasados. E cada vez que havia algum conflito trabalhista ou de ocupação de terra, ou tentativa de despejo de posseiros antigos, os latifundiários usavam da violência física e procuravam eliminar as lideranças dos trabalhadores. Para se ter uma ideia, de 1984 a 2004, já na democracia formal, foram assassinados mais de 1.600 lideranças, e apenas 80 culpados foram a julgamento.

Na ultima década, a classe dominante no campo se transformou e agora quem manda são empresas transnacionais e fazendeiros modernos. Então a forma de repressão vem mudando. Em vez de assassinatos, eles nos criminalizam, nos reprimem através do poder judiciário e da imprensa. Esses são os dois poderes sobre os quais eles têm controle absoluto. Não precisam mais matar.

Vejam o que fizeram conosco no caso da ocupação da fazenda grilada pela Cutrale, em Iaras. A fazenda pertence à União e o Incra pediu despejo da empresa. Nós ocupamos. A Cutrale, aliada com a Coca-Cola, a Globo e o governo [José] Serra (então governador de São Paulo), organizaram uma campanha midiática que transformou os pobres sem-terras em demônios devastadores de laranja! Vejam o que fizeram no caso de Pinheirinho, em São José dos campos. Uma área de empresa falida e corrupta. E lá se juntaram as mesmas forças. Não houve mortes. Mas houve um massacre ideológico, político e as famílias perderam as casas depois de oito anos de trabalho honesto.

O MST

O MST tem um papel histórico de seguir organizando de forma autônoma os pobres do campo, que lutam por terra, por trabalho, por melhores condições de vida. Infelizmente o agronegócio, que está mancomunado com o poder econômico, de quem é sócio, com os meios de comunicação, criaram uma ilusão na sociedade brasileira de que o agronegócio é solução. E escondem que ele aumenta a produtividade expulsando milhares de trabalhadores, usando venenos de forma intensiva, que transformou o Brasil no país que mais usa venenos e que tem alimentos mais contaminados no mundo. E isso gera câncer em 400 mil pessoas por ano no Brasil.

Ou seja, o agronegócio dá lucro, produz, mas para meia duzia de fazendeiros e empresas transnacionais. Por outro lado, nos temos 4 milhões de famílias camponesas, pobres, sem terra, sem trabalho, muitos morando nas periferias das cidades do interior. Nós temos 10 milhões de analfabetos no interior do pais. Nós temos 5 milhões de famílias que vivem no interior e que dependem do Bolsa Família para comer! Então nós temos muito trabalho pela frente. Organizar os pobres do campo. Está difícil, mas continuaremos incansáveis o nosso trabalho até que a classe trabalhadora como um todo se dê conta das mudanças necessárias no país, e possamos debater um novo projeto pro país, como fizemos, a partir das lutas sociais da região do ABC, na década de 79 a 89.

No passado, a expressão reforma agrária era entendida por muitos apenas como desapropriação de uma fazenda e distribuição dos lotes de terra. Essa reforma agrária funcionava quando o modelo econômico era dominado pelas indústrias. E, portanto, os camponeses se integravam com a indústria e conseguiam sair da pobreza. Era a chamada reforma agrária clássica, que a maioria dos países industrializados fizeram.

Agora, o capitalismo dominante é do capital financeiro e das empresas transnacionais, também na agricultura. O chamado agronegócio. Assim, eles conseguem aumentar o lucro e a produção sem os camponeses. Por isso que muitos de seus porta-vozes dizem que não precisa mais reforma agrária. Não precisa para eles ganharem dinheiro. Mas precisa reforma agrária para resolver os problemas dos pobres do campo. Agora, nós precisamos de um novo tipo de reforma agrária. Uma reforma agrária que comece na distribuição de terras, mas que organize cooperativas de produção para instalar agroindústrias nos assentamentos e no interior. Porque é isso que aumenta a renda e tira da pobreza.

Uma reforma agrária que adote a matriz tecnológica da agroecologia produz alimentos sadios, sem veneno, e sem alterar o equilíbrio do meio ambiente. Uma reforma agrária que distribua educação. Portanto, teríamos que instalar mais escolas fundamentais e de Ensino Médio em todo interior, para criar alternativas para a juventude e levar o conhecimento pro interior. Imaginem que nos últimos 20 anos, foram fechadas –repito, fechadas!– 25 mil escolas no meio rural. Nós precisamos abrir escolas e não fechar. Por isso nossa luta ficou mais difícil e demorada, porque agora temos que lutar por um outro de desenvolvimento agrícola e derrotar o agronegócio. O agronegócio é o modelo do lucro, do capital. Nós queremos uma reforma agrária popular, de outro tipo.

As eleições

O MST teve o mesmo comportamento desde a sua formação em relação às eleições. Nós não devemos nos comportar como partido e indicar candidatos. Os nossos militantes que têm vocação politica devem entrar em partidos políticos e fazer as disputas lá. Nós mantemos autonomia dos partidos e dos governos. Mas como nossos militantes têm consciência social, e como procuramos fazer trabalho de conscientização com nossa base, é evidente que o resultado é que nossa base e militância sempre procura fazer campanha, no período eleitoral, para eleger os candidatos mais populares, mais progressistas, de esquerda, e que estejam comprometidos com o povo. E aí em cada região tem as realidades partidárias diferenciadas, em que esse perfil de candidato aparecem em diversos partidos.

Os governos Lula e Dilma não são governos do PT. Participam dele muitos partidos, inclusive alguns conservadores e oportunistas. Não é um governo de esquerda, na minha opinião; é um governo progressista. E evidentemente que foi muito importante elegermos para derrotar os candidatos neoliberais, que representavam apenas os interesses do grande capital e das empresas transnacionais. Na minha opinião, os governos têm essa característica, em primeiro lugar, porque se elegeram num período histórico de descenso do movimento de massas, em que a classe trabalhadora, depois de 89-95, havia sido derrotada política e ideologicamente. E, portanto, não disputou nas ruas, com lutas e mobilizações, o governo. Tanto é que a principal forma de fazer campanha nesse período tem sido apenas a televisão. E os partidos brigam muito pelos minutos de televisão.

Em segundo lugar, a vitoria eleitoral só foi possível porque foi construída uma aliança interclassista, com diferentes interesses de classe dentro do governo. Interesses que estão dentro de cada ministério, e que às vezes são até antagônicos. E em terceiro lugar, sua natureza é determinada porque os movimentos populares, os partidos e a sociedade brasileira em geral carecem de um projeto pro país. Desde 1989, nós paramos de debater um projeto pro país. E na ausência de um programa histórico, de um projeto, os partidos e seus políticos vão agindo apenas na base do pragmatismo, ou resolvendo os problemas cotidianos da administração pública.

MST

Stedile: a única saída para a crise capitalista são mobilizações de massa

“Só mobilização das massas podem resolver os problemas estruturais da sociedade brasileira.” Assim que o dirigente do MST e da Via campesina, João Pedro Stédile, visualiza o debate proposto pela Fundação Perseu Abramo “A crise do capitalismo e a construção de um modelo de desenvolvimento justo e sustentável” realizado durante a Cúpula dos Povos, que também contou com as participações de Rui Falcão, presidente nacional do PT, Marcio Pochmann, professor de Economia da Unicamp, ex-presidente do IPEA, Márcio Macedo, deputado federal (PT/SE), presidente da Comissão Mista Permanente de Mudanças Climáticas do Congresso Nacional.
Stedile disse ver com total ceticismo os debates que aconteciam na Rio+20. Ele criticou a forma como os governos vêm travando o debate sobre o meio ambiente e também não poupou críticas ao governo brasileiro. Ele alertou para a ação predatória do capitalismo internacional, protagonizada por grandes corporações e bancos internacionais que controlam a produção e o fluxo de capitais especulativos que também atinge o Brasil.
De 1990 para cá, segundo Stedile, o Brasil vive sob a hegemonia do capital financeiro internacionalizado e que a política econômica adotada pelos governos Lula e Dilma, não foi suficiente para reverter essa subordinação.  Depois da crise de 2008, segundo ele, a situação se agravou: “houve uma avalanche do capital para transformar em patrimônio – terras, usinas hidroelétrica, pré-sal, petróleo, recursos naturais em geral; e agora querem privatizar as florestas, com os créditos de carbono, que nada mais são que a privatização do ar. Os recursos naturais estão sendo desnacionalizados no país e isso trará consequências gravíssimas para as futuras gerações e para a economia em geral. Os capitalistas sabem que os recursos naturais, depois que levados ao mercado, adquirem preços superiores ao seu valor original e geram lucro extraordinário, muito maior que o gerado nas fábricas.”

Para Stédile, o projeto que previa crescimento econômico com distribuição de renda adotado pelos governos Lula e Dilma Rousseff está esgotado. Ele reconheceu que iniciativas dos dois governos distribuíram renda com o aumento do salário mínimo, pagamento do Bolsa Família, aumento dos  empregos etc, mas que isso já não basta no novo cenário de crise econômica, pois para gerar crescimento seria preciso investir em produção para que ele seja multiplicador na sociedade.


O dirigente do MST disse ainda que a sociedade elegeu um governo interclassista, mas que não tem força de massa para impor mudanças estruturais. Ele citou algumas iniciativas urgentes para que o cenário na América Latina mude: a mudança na taxa de câmbio brasileira, a criação de uma moeda latino-americana para sair da esfera do dólar, o fortalecimento de instrumentos regionais como a Unasul e a Alba.

Stélide finalizou sua participação enfatizando que para discutir novo projeto para o Brasil e resolver os problemas estruturais da sociedade brasileira, é necessário a mobilização das massas, que devem ir para as ruas para disputar com a burguesia.

“Um véu nos aliena, que nos conduz a um processo de individualização”

Marcio Pochmann, professor de Economia da Unicamp, ex-presidente do IPEA,  iniciou sua exposição afirmando que esta é a crise mais profunda de todo o século XXI, porém não acredita na tese de que o capitalismo estaria na sua fase final por não conseguir seguir explorando a mais valia. Pelo contrário, ele acredita que o capitalismo se modifica, se dinamiza a partir de suas crises. Ele alerta: “estamos diante de uma situação muito difícil; as raízes dessa crise ainda não foram atacadas; a crise é mais ampla, extrapola a dimensão financeira.”

A superação da atual crise, segundo Pochmann, tem a ver com o que vai acontecer nos Estados Unidos, se estes aceitarão perder o poder atual, tendo em vista o fortalecimento de outros centros dinâmicos e o deslocamento dos centros de manufatura, especialmente para a Ásia.  Ele questiona se o deslocamento desses centros será aceito tranquilamente pela Europa e pelos Estados Unidos, cujo padrão atual de produção e consumo não insustentáveis.

O professor da Unicamp afirmou que no continente sul-americano, o Brasil soube aproveitar momentos de instabilidade internacional, de regorganização do capitalismo mundial, para se reposicionar. E o momento atual é especial para esse reposicionamento brasileiro.

Momento de crise é propicio para aparecimento de propostas para superação, mas segundo Pochmann, não existe um projeto claro para colocar o socialismo no século XXI e isso se deve a fatores como a profunda fragmentação existente tanto em relação à agenda temática específica, por exemplo, a luta das mulheres, dos afrodescendentes, dos ambientalistas, dos jovens etc.; à profunda  transformação na estrutura demográfica e laboral, com a mudança na centralidade do trabalho. Com o avanço do capitalismo, nasce uma nova classe trabalhadora, ligada aos serviços, e, portanto, introduzindo o conceito do trabalho imaterial. Os sindicatos passam a ser vistos como agentes do passado, e não como comprometidos com as transformações dos próximos anos.

Pochmann acrescentou a crescente tendência à individualização. Ele citou os exemplos da geração de 22 milhões de postos de trabalho durante os governos Lula e Dilma, que não se refletiu na taxa de sindicalização. Outro exemplo: o Prouni incluiu 1 milhão de novos estudantes no ensino superior, mas isso não se refletiu na ampliação do movimento estudantil.

Outra dificuldade citada pelo economista é a alienação das ciências sociais, resultado da superespecialização. “Temos um volume muito grande de informação, mas temos grande dificuldade de análise das mesmas”, disse Pochmann. Para ele, a visão cada vez mais fragmentada reflete na incapacidade de entender o todo e isso não ajuda a criar um novo padrão civilizatório, que pressupõe que a educação associada à condição humana é para a vida toda, que o ensino superior passa a ser o piso, e não o teto, que a jornada de trabalho não supere 12 horas por semana, e assim por diante.

Capacidade de recuperação da natureza está se esgotando

O deputado federal Márcio Macedo analisou a conjuntura sob a qual acontece a Rio +20 e alertou para a necessidade de mudança do modo de vida e do padrão de consumo atual dos países desenvolvidos. Os recursos naturais não são ilimitados e sua capacidade de recuperação está se esgotando, o que impõe à sociedade mundial a adoção de um modelo de apropriação ordenada desses recursos, caso contrário, vão deixar de existir.

O Brasil, segundo Márcio, precisa investir em tecnologia. Ele defendeu que parte da arrecadação do Pré-sal seja investida em energia limpa e em tecnologia.

Sobre a Rio +20, o deputado enfatizou que o mundo chega à conferência com o acúmulo de 40 anos, com a Europa e os Estados Unidos em crise, e países periféricos – os BRICS -, em ascensão. “Penso que esta Rio+20 é uma arena para discutir o tema da biodiversidade sob nova perspectiva. A arena da Rio +20 é importante para dizer que pode haver um reposicionamento, disse o deputado, que também afirmou que o Brasil está se adequando a um modelo de desenvolvimento, com inclusão social, com distribuição de renda.

O deputado disse ainda, que o debate sobre a biodiversidade vai se tornar econômico: “é o homem botando a mão no meio ambiente e transformando em bem material”. Sobre o debate sobre economia verde, ele afirmou que ele retrata a mesma desconfiança que havia na Rio 92 com o desenvolvimento sustentável. O conceito de economia verde, segundo ele, não está no documento final da Rio +20, porque  não há acordo, e  a proposta do Brasil é que a economia seja verde, inclusiva (colocar respeito direitos individuais e não intolerância, instrumentos democráticos, erradicaçao da pobreza etc.). “O conceito da economia verde deve estar no debate sobre desenvolvimento, unindo social com econômico.

Mas o deputado faz dois alertas: primeiro, quem vai pagar a conta da transição para outro patamar?  Os países que hoje estão vivendo o esgotamento de seus recursos naturais querem resolver seus problemas deixando aqui só as commodities; segundo, se a questão do desenvolvimento sustentável não for amplamente discutido, ele não ganhará força nas mesas governamentais.

Países em desenvolvimento e a sociedade em geral requerem o seu espaço na governança global

Para o presidente do PT, Rui Falcão, nos vinte anos que separam a Eco92 da Rio +20, muitas esperanças foram frustadas, devido, principalmente, à ação devastadora do neoliberalismo com a liberalização financeira, comercial e de investimentos, e esse modelo, que está em crise, jogou seus custos sobre os ombros dos trabalhadores e dos segmentos mais vulneráveis da população por meio de redução de salários, eliminação de direitos sociais e promoção do desemprego, que afeta particularmente a juventude.

Falcão disse achar difícil que resoluções da Rio +20 tenham destino diferente daquelas da Eco92, por enteder que desenvolvimento economicamente, socialmente e ambientalmente justo e sustentável não rima com capitalismo e, muito menos, com neoliberalismo.  Mas o contraponto a tudo isso, segundo ele, são as iniciativas adotadas por países da América Latina, dos BRICS e d outras parte do mundo, que buscam um modelo de desenvolvimento com outras bases e capaz de enfrentar a crise. Na América Latina, por exemplo, houve avanços em relação à Eco92 e para Falcão, isso se deve à atuação de movimentos sociais e de governos de esquerda que assumiram na região.

O PT, segundo Falcão, quer discutir questões como a necessidade de outro modelo de desenvolvimento no mundo e a incapacidade do atual sistema de governança global de lidar, de forma justa, com temas desta magnitude. Para ele, “é preciso adotar um novo paradigma de desenvolvimento no mundo que amplie a qualidade de vida dos setores populares, que amplie a capacidade produtiva e tecnológica de nossos países, que preserve os direitos das gerações futuras e o ambiente comum que todos compartilhamos, o Planeta Terra”. Mas este modelo, segundo Falcão, não se conquistará sob o neoliberalismo: “Devemos focar na busca da igualdade, entre as pessoas e entre as nações. Para que isto seja sustentável, é preciso pensar em mecanismos eficazes de divisão da riqueza, de padrões de consumo igualitários, sustentáveis, exigindo impor limites aos atuais padrões de consumo dos países desenvolvidos, bem como das elites nos países em desenvolvimento. Tudo isso combinado com a elevação dos padrões de consumo da maioria das populações do sul do planeta.”

Esta mudança, segundo Falcão, requer adoção de medidas imediatas sobre a contenção do aquecimento global e consequentemente a implementação de uma economia menos apoiada nas fontes fósseis de energia. Também deve ser considerada  a questão do financiamento e a transferência de tecnologias limpas.   Falando sobre participação social e governança global, Falcão enfatizou que o  PT quer discutir a democratização, o financiamento e a eficácia dos organismos internacionais. O multilateralismo, segundo ele, deve ser fortalecido e os países em desenvolvimento e a sociedade em geral requerem o seu espaço na governança global para assegurar que as organizações internacionais atendam às necessidades de todos.

Falcão defendeu também a adoção de novos indicadores de sustentabilidade internacional, que extrapolem a dimensão econômica e incluam os aspectos sociais e ambientais.

 

 

MST

Para Stédile, países ricos só pensam ‘em salvar os bancos, mas nunca em salvar as pessoas’

São Paulo – No meio de uma crise estrutural do capitalismo, que pode ter como consequência mais conflitos e problemas sociais, além do já evidente desequílibrio ambiental, os países que fazem parte do G-20 discutem a salvação de bancos, mas se esquecem de falar ‘vamos salvar as pessoas’, lamentou João Pedro Stédile, membro da coordenação nacional do Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), durante debate online promovido pela EBC sobre a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.

Para um dos líderes do MST, nações ricas, para sair de um momento de crise, utilizam-se da destruição da mão de obra e da matriz produtiva para, assim, encontrar um novo ciclo que satisfaça a eles mesmos. Stédile defende que a sociedade se organize e questione as consequências dessas crises capitalistas, mobilizando as massas e se organizando em torno de discussões sobre novos modelos de produção que coloquem em primeiro lugar o bem-estar da população.

“Essa reunião do G20 só discute isso: vamos salvar o bancos, mas ninguém fala ‘vamos salvar as pessoas’. É só como socorrer o banco tal, como salvar o euro, como controlar a China para não sei o que. Nós, dos movimentos socias e as forças pontuais, temos que colocar o tema do meio ambiente como parte da nossa agenda diária. Então, fazer esse debate nos nossos espaços. Nos cultos, nos sindicatos, nas igrejas, nas escolas e tranformar isso numa grande discussão”, destaco Stédile.

A respeito dos conceitos de economia verde que estão sendo discutidos e questionados atualmente, o líder do MST não é entusiasta dos novos modelos. Para ele, a economia verde é apenas um “rótulo”, muitas vezes usado até como jogo de marketing. Stédile afirma que muitas das grandes empresas, como Shell e Monsanto, não estão interessadas em saber ou, sequer, fazer parte de uma economia verde.

“Às vezes isso se torna um debate desnecessário. Espero que os ambientalistas não caiam nesse papo. É preciso fazer com que se identifique quais são exatamente as empresas e os governos que são responsáveis pelos desequílibrio ambientais e sociais”, ressalta.

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