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Em tempos de Marcha pela Família, atriz Bete Mendes relembra tortura: ‘a pior perversidade da raça humana’

“Não dá para ter raiva de quem me torturou. A gente é tão humilhado, seviciado, vilipendiado que o que se quer é sobreviver e bem”, diz Bete Mendes
“Não dá para ter raiva de quem me torturou. A gente é tão humilhado, seviciado, vilipendiado que o que se quer é sobreviver e bem”, diz Bete Mendes

Presa e torturada em 1970, a atriz Bete Mendes encontrou o coronel Brilhante Ustra numa viagem ao Uruguai em 1985. Ela era deputada federal, e ele atuava na embaixada em Montevidéu. Na volta, ela denunciou Ustra ao presidente Sarney. Aos 64, a atriz diz não temer retrocessos, mas pede atenção aos movimentos contra a democracia. Em depoimento publicado domingo, no diário paulistano Folha de S.Paulo, a atriz afirma que superou o trauma com tratamento psicológico e se afirma socialista.

Leia abaixo as declarações de Bete Mendes.

Fui presa duas vezes. Na primeira, não fui torturada fisicamente. Na segunda, foi total. Fui torturada [em 1970] e denunciei [o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra]. Isso me marcou profundamente. Não desejo isso para ninguém – nem por meus inimigos. A tortura física é a pior perversidade da raça humana; a psicológica, idem.

Não dá para ter raiva (de quem me torturou). A gente é tão humilhado, seviciado, vilipendiado que o que se quer é sobreviver e bem. Estou muito feliz, sobrevivi e bem. E não quero mais falar desse assunto.

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Superei isso com tratamento psicológico e com trabalho. Agradeço à família, à classe artística, aos amigos que foram meu alicerce.

Carlos Zara me convidou para fazer a novela “O Meu Pé de Laranja Lima”, e isso me salvou. Continuei o trabalho artístico, fui fundadora do PT, fui deputada federal duas vezes e secretária da Cultura de São Paulo.

Comecei a fazer teatro e cantar com seis anos de idade. Com oito já participava de manifestações de alunos. Era do grêmio do colégio, depois fui para o diretório da faculdade. Em bibliotecas públicas ou pegando livros emprestados lia tudo: Rousseau, Marx, Mao, Lênin, Gorki, Aristóteles. Depois, adotei o codinome de Rosa em homenagem a Rosa Luxemburgo.

Var Palmares

Na adolescência escrevi textos de peças de teatro. Quando fui presa, eles levaram esses textos. Achavam que eles eram prova de crime, que depunham contra mim. Nunca mais os recuperei. Era coisa tão pouca, boba, pessoal.

Quando fecharam as portas à democracia, me senti usurpada, revoltada, aprisionada. Achei que a única saída era entrar numa organização revolucionária contra a ditadura militar. Entrei na VAR-Palmares. Fizemos aquela opção. Foi certa, errada? É difícil julgar hoje.

A minha visão era a revolução socialista: tirar poder dos militares, dos opressores, do capitalismo selvagem. Deixar a gente governar para o bem de todos, com todos participando.

Eu tinha 18, 19 anos e achava que podia fazer tudo. Não tinha consciência do risco imenso que estava correndo. Era atriz de uma novela que explodia no Brasil, “Beto Rockfeller”, estudava ciências sociais na Universidade de São Paulo e participava de uma organização clandestina revolucionária. Aí deu zebra.

O medo era a pior coisa que a gente sentia na época. Historicamente tem que se reconhecer que nós entramos numa ditadura muito mais pesada do que foi dito no passado. Isso vai sendo desdito atualmente pela Comissão da Verdade.

Hoje não tenho medo de retrocesso, mas é preciso prestar atenção em manifestações como de movimentos nazistas em vários países e no Brasil. Por exemplo? O coronel Brilhante Ustra faz parte desse movimento. Ele tem um site. Há jovens fazendo movimento nazista.

Democracia

É um receio. É preciso ser cauteloso em relação a movimentos que podem ser prejudiciais ao avanço democrático. Mas impedir jamais, porque a gente legitima a manifestação de todos, de opiniões diversas. É preciso cuidar da democracia para que esses movimentos não cresçam.

Sou política como qualquer cidadão. Sou cidadã, atriz, socialista. O socialismo se constrói todo dia. Não temos o modelo socialista do passado, mas a gente constrói um novo. Quero continuar trabalhando como atriz e viajar mais. Poder viver essa democracia até morrer. Sonho político? Que o trabalho escravo acabe no Brasil.

Problema de audição? Tenho. É que eu fui torturada. (Fica com os olhos marejados).

 

Pragmatismo Político

 

Ato relembra dois anos do assassinato de casal extrativista no Pará

 

José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva (na foto) foram executados com tiros na cabeça; ato vai ocorrer neste sábado (25) próximo ao local onde foram mortos

 

 

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Há exatamente dois anos, em 23 de maio de 2011, o casal de extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva foi executado com tiros na cabela em uma emboscada, em Nova Ipixuna, na região leste do Pará (PA). Lideranças do Projeto Assentamento Agroextrativista (PAE) Praia Alta Piranheiras, a cerca de 580km de Belém, os dois sofriam constantes ameaças e intimidações por denunciarem a ação de madeireiros na região.

Para relembrar a memória do casal, entidades em defesa do meio ambiente e dos direitos humanos, movimentos sociais e familiares das vítimas convocam um ato no assentamento, para este sábado (25), em continuidade à luta dos dois extrativistas e pelo fim da impunidade dos mandantes da morte.

Até hoje, os apontados pelo crime permanecem impunes. Os acusados foram absolvidos na Justiça e, posteriormente, receberam lotes da reforma agrária concedidos pelo Incra.

Segundo as entidades organizadoras, o objetivo é dar prosseguimento à luta e à memória dos dois extrativistas, pela defesa dos povos e da preservação das florestas, pela reforma agrária e contra a aquisição irregular de terras por latifundiários na região e a produção de carvão vegetal e o desmatamento na porção leste do Pará.

O ato vai ocorrer no PAE Praia Alta Piranheiras, em Nova Ipixuna (PA), e deve começar às 9h, com uma cerimônia religiosa em homenagem a José Cláudio e Maria do Espírito Santo, nas proximidades do local onde casal foi assassinado. Posteriormente, está marcado um almoço com celebração na antiga casa dos dois extrativistas, previsto para se encerrar às 15h.

A manifestação é convocada por familiares das vítimas, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará (Fetagri-PA), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nova Ipixuna e Associação dos assentados do PAE Praia Alta Piranheira.

(Foto: Reprodução)

<Serviço>
Ato em memória de José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva
Sábado, 25 de maio de 2013, das 9h às 15h
Local: PAE Praia Alta Piranheiras, em Nova Ipixuna, no Pará

Fonte: Repórter Brasil

Aos 60 anos, Zico relembra dramas e alegrias e descarta cargo no Fla

Foto: Mauro Pimentel / Terra
Foto: Mauro Pimentel / Terra

3 de março de 1953. Para alguns, uma data normal. Mas para a maior torcida do Brasil, é como se fosse praticamente uma dia santo. Nascia na casa 7 da Rua Lucinda Barbosa, em Quintino, zona norte do Rio, Arthur Antunes Coimbra, caçula da família Antunes. Apelidado por uma prima de Zico, cresceu nas ruas de bairro, onde começou a bater bola, e depois ganhou o mundo, se tornando o maior ídolo da história do Flamengo e um dos principais jogadores da história da Seleção Brasileira.

 

Ao longo de pouco mais de 20 anos de carreira, Zico encantou os torcedores com seu futebol vistoso e objetivo. Em 970 jogos como profissional, fez 699 gols. A maior parte deles com a camisa 10 do rubro-negro carioca. No Flamengo, Zico marcou 508 gols em 731 jogos. É, de longe, o principal artilheiro da história do clube.

 

Zico projeta futuro e programas de televisão; assistaClique no link para iniciar o vídeo
Zico projeta futuro e programas de televisão; assista

Mais do que ser artilheiro, Zico liderou o Flamengo nas grandes conquistas dos 117 anos de existência do clube. Ele estava à frente dos títulos do Mundial Interclubes (1981) e Libertadores (1981). Dos seis campeonatos brasileiros obtidos pela equipe, Zico participou de quatro (1980, 1982, 1983 e 1987). Ganhou ainda seis campeonatos estaduais pelo time rubro-negro carioca.

 

Na Seleção Nrasileira, Zico fez 52 gols. Trata-se do 4º maior artilheiro com a camisa canarinho. Faltaram, no entanto, as grandes conquistas. Zico disputou três Copas do Mundo (1978, 1982 e 1986), e a melhor posição obtida foi o terceiro lugar em sua Copa de estreia. Em 82, o Brasil era franco favorito, mas sucumbiu à Itália de Paolo Rossi. Em 86, Zico tinha operado o joelho meses antes, e foi para a Copa sem condições clínicas ideais. Acabou eliminado pela França, em um jogo em que perdeu um pênalti no tempo normal.

 

Na Copa de 1998, Zico fez parte da comissão técnica da Seleção Brasileira treinada por Zagallo Foto: AFP
Na Copa de 1998, Zico fez parte da comissão técnica da Seleção Brasileira treinada por Zagallo
Foto: AFP

Em entrevista ao Terra, Zico relembra os pontos mais marcantes de sua carreira e fala do futuro. Diz que só volta a treinar algum time se receber uma boa proposta, em algum grande centro. Sobre o Flamengo, ressalta que sua passagem frustrada em 2010, como coordenador de futebol na gestão Patricia Amorim o ensinou que assumir qualquer cargo não cabe mais dentro de sua biografia no clube. Até mesmo a ideia de assumir a presidência é prontamente descartada por Zico.

 

“Não fui feliz em 2010, mas fiquei conhecendo e tendo a certeza de que não devo ter cargo oficial nenhum no Flamengo. Não participo de mais nada no Flamengo. A não ser usando minha imagem”, afirma.

 

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Leia abaixo os principais trechos da entrevista com Zico:

 

Terra – Você cresceu numa família de boleiros, na qual três dos seus irmãos mais velhos jogaram de forma profissional. Você sempre pensou ser jogador? Chegou a imaginar fazendo outra coisa que não fosse o futebol?
Zico – Quando eu era criança, não sabia o que ia fazer. Meus irmão jogavam, e tinha aquela coisa de você ver que joga bem também, é muito solicitado. E lógico que pensei em querer jogar. Mas naquela época a gente ia para o futebol sem as aspirações de que um garoto vai hoje. Era uma coisa mais de lazer, de coração. Tanto que eu estava acertado para ir para o América, e houve um convite para o Flamengo. Era meu time de coração, e optei pelo Flamengo.

 

Terra – Então seu destino estava traçado para o América? Quando houve a mudança que colocou o Flamengo no seu rumo?
Zico –
 Cheguei a jogar uma partida na escolinha do América, lá no Andaraí. Tinha 12 para 13 anos. Na semana que ia começar a treinar lá, o Celso Garcia (radialista, morto em 2008) tinha ido me ver jogar futsal no River (clube situado na Abolição, zona norte do Rio). Ele gostou, foi na minha casa, e pediu ao meu pai para me encaminhar para o Flamengo. Preferi o Flamengo.

 

Terra – Seu irmão, Edu, jogava no América. Você iria para lá por influência dele?
Zico –
O América era pelo Edu. Eu não saía do América, vivia vendo os treinos, participando, brincando com os jogadores. Aprendi a bater pênalti e falta lá nos treinos. Batia para os goleiros profissionais. Tanto lá quanto no Fluminense, onde meu outro irmão, o Antunes, jogava. Brincava muito com o Carlos Alberto Torres quando o Antunes era do Fluminense. Já gostava de bater na bola. Nas peladas de rua, eu já batia. Quando fui para cima, desenvolvi mais ainda. Talvez se meus irmãos não tivessem ido para o futebol, eu não teria tido tanta motivação. Meu pai era muito rigoroso quanto aos estudos. Só deixou o Antunes ir quando ele prometeu que não ia parar de estudar. Depois aconteceu com o Edu, com o Nando. Todo mundo cumpriu, e eu não ia ser diferente.

Zico é clicado ao lado do rei do futebol Pelé, em evento em 1996 Foto: AFP
Zico é clicado ao lado do rei do futebol Pelé, em evento em 1996
Foto: AFP

 

Terra – Mas fora o futebol, havia alguma outra atividade que você fazia que poderia levar a outro caminho?
Zico –
O futebol foi o caminho natural. A única profissão que eu poderia ir seria para o piano. Estudei um ano de piano. Minha mãe gostava de piano. Nenhum filho quis saber antes. Então, ela colocou o caçula para aprender. Estudei, aprendi, toquei na televisão, inclusive no programa do Ted Boy Marino com a Célia Biar, na Globo. Era um quadro em que alguém de outra profissão fazia outra coisa. O Edu e o Antunes, que jogavam, foram lá cantar. Cantaram Tristeza, do Zé Keti. Devia ter uns 11 anos.

O futebol foi o caminho natural. A única profissão que eu poderia ir seria para o piano

Zico Ao falar qual profissão poderia seguir fora o futebol

 

Terra – Mas você gostava de tocar piano? Era um bom pianista?
Zico –
 Aprendia por música, e não conhecia realmente as músicas que tocava. Tocava realmente só lendo partituras, aquelas serenatas antigas. Não saber o que está tocando não dá muita motivação. Talvez se aprendesse com músicas da época, pudesse me motivar mais, né? Aí larguei, comecei a deixar de ir às aulas para jogar bola na rua.

 

Terra – E nas peladas, quando você era garoto, você já sobrava tecnicamente em relação aos outros jogadores?
Zico –
 Jogava com os garotos maiores. Tinha 12 anos, e disputava contra os de 14, 15. Para os meninos de 12, realmente ficava muita disparidade, mesmo eu sendo franzino. Era uma diferença grande.

 

Terra – No Flamengo, quando você chegou, essa diferença persistiu?
Zico –
Não. Trilhei o caminho certo lá. Inclusive, no dia que eu fui, até cheguei no dia errado. Com 14, fui no time de juvenil, que era 17. Me colocaram lá para treinar, e não foi a mesma coisa. No dia seguinte foi que voltei. Fiz o teste na sexta-feira, fui aprovado e chamado para um jogo no domingo, na Gávea. Ganhamos de 4 a 3 e fiz dois gols já. Entrei de cara para jogar. Ainda dei sorte que, naquele dia, os profissionais jogavam à tarde, e muitos estavam lá vendo o jogo. Muitos ficaram impressionados.

 

Terra – Como foi a chegada ao time profissional?
Zico –
Estreei em 1971 no profissional. 70 foi o último ano de escolinha e parte de 71 no juvenil. Joguei o Campeonato Brasileiro inteiro. Acabei indo para a Seleção Olímpica, e não fui à Olimpíada.

Zico se queixa da imprensa por mágoa após ser diretor do FlaClique no link para iniciar o vídeo
Zico se queixa da imprensa por mágoa após ser diretor do Fla

 

Terra – Foi uma grande frustração não ter sido convocado para a Olimpíada de 72?
Zico –
 Foi uma tristeza grande, foi a única hora que eu quis parar de jogar futebol. Quando terminou 71, eu tinha feito o gol da classificação, a gente tinha sido campeão do Pré-Olímpico lá na Colômbia. Daí, entramos de férias. Tinha mudado tudo no Flamengo. O Solich (Fleitas Solich, paraguaio que treinava o time) saiu, veio o Zagallo, que me chamou e me disse que eu era muito jovem, e achava que não ia contar comigo. Se eu quisesse continuar treinando lá, não teria problema. Só que como eu não participava do grupo, a gente não treinava. Ia para a Gávea, mudava de roupa, e se precisassem, chamavam. Se não, ia embora para casa. E nisso, o Antuninho, que era técnico da Seleção, foi à Gávea falar comigo, para que jogasse e treinasse e tivesse condições de ser convocado. Voltei para o juvenil, todos ficaram felizes. Fui artilheiro de novo, fomos campeões e o cara não me convocou.

 

Terra – Você chegou a abandonar o Flamengo quando não foi convocado?
Zico –
No dia da convocação, fui embora para casa e não voltei mais, falei que ia parar de jogar, falei com meu pai. Meus irmãos vieram conversar comigo. Fiquei uns dez dias sem ir ao Flamengo.

Era um time com qualidade técnica maravilhosa, de todos. Era um time altamente solidário, altamente profissional

Zico Ao lembrar o vitorioso time do Flamengo da década de 80

 

Terra – Foi o único momento em que pensou em abdicar de jogar futebol? Nem na grave contusão do joelho?
Zico –
Não. Quando machuquei o joelho, eu só queria que o médico me desse um percentual de chances para que eu voltasse a jogar. Se ele me dissesse que não tinha como jogar mais, aí tudo bem. Mas se ele desse uma chance, ia tentar. Não queria parar por causa de uma contusão.

 

Terra – Sobre aquela equipe do Flamengo que fez história, gostaria de saber quando deu o estalo de que vocês estavam formando uma equipe que iria marcar época no futebol?
Zico –
Acho que quando  ganhamos o Brasileiro de 1980, deu para ter uma noção de que se a gente se mantivesse naquela linha, iríamos alcançar os títulos que o Flamengo ambicionava, que era a Libertadores e o Mundial. O Mundial não é o mais complicado, o mais difícil é a Libertadores. Talvez o Brasileiro seja mais difícil ainda, porque havia 10, 12 equipes que poderiam ser campeãs. Era muito time bom, era só clássico.

 

Terra – Quais os grandes times que você enfrentou?
Zico –
Acho que Atlético-MG e Grêmio, né? O Grêmio também era uma paulada, era um timaço, forte. O Atlético-MG tinha Luisinho, Cerezo, Reinaldo, Éder, João Leite… O Grêmio tinha Paulo Roberto, De León, Leão, Renato, Paulo Isidoro, Batista, Baltazar… Era muita fera. Corinthians tinha Sócrates, Casagrande, Zenon, Wladimir. São Paulo tinha Valdir Peres, Oscar, Daryo Pereira, Renato, Serginho, Zé Sérgio, Mário Sérgio.

 

Terra – Além da qualidade técnica, o que diferenciava aquele time do Flamengo?
Zico –
Era um time com qualidade técnica maravilhosa, de todos. Era um time altamente solidário, altamente profissional. Era um time que ambicionava vitória. A gente queria jogar, estar dentro do campo. A gente queria estar juntos, seja nos treinos, seja nos jogos. Então, a gente formou um grupo muito forte. Alguns jogadores que desvirtuavam daquela filosofia, não davam certo. E eram bons, podiam ser bons, mas tinham que entrar naquela filosofia. A gente se divertia, brincava no momento que tinha que fazer isso, mas na hora do sério, era sério. Acho que essa era a grande diferença, de ter jogadores que eram bons, se cuidando, dentro e fora do campo. E sabíamos que éramos o alvo também. Todo mundo queria bater na gente. Se não estivéssemos bem preparados…

No último sábado, Zico inaugurou uma estátua em tamanho real na Gávea Foto: Daniel Ramalho / Terra
No último sábado, Zico inaugurou uma estátua em tamanho real na Gávea
Foto: Daniel Ramalho / Terra

 

Terra – Qual foi o título mais marcante?
Zico –
O Estadual de 1978, com o gol do Rondinelli, foi marcante. Ali nossa geração estava com aquele ponto de interrogação. Ganhamos 74, alguns jogaram, mas depois, não conseguimos nem chegar em final. Aquele título deu a segurança para todos nós de que realmente tínhamos valor. Esse foi um título muito importante, de muita recordação, da forma como ele aconteceu. Um ano antes, tínhamos perdido da mesma forma para o Vasco, nos pênaltis.

 

O da Libertadores, da mesma forma, que foi a questão da violência que a gente sofreu, das dificuldades das viagens, contra tudo e contra todos, e a gente foi superando todo mundo. Acho que aquela foi a vitória da arte contra a violência. E o de 87, a Copa União, que a gente enfrentou uma série de dificuldades. Muitos criticavam, diziam que a base já estava envelhecida, que não ia dar mais caldo.

 

Terra – Aquele título teve um sabor de resposta, de volta por cima, após a Copa de 1986, na qual você foi muito criticado?
Zico –
Não tinha isso, acho que era questão de que, com os anos passando e os problemas acontecendo, eu vinha de uma cirurgia realmente grande, e aquela incógnita de voltar a jogar bem era normal que acontecesse. Nunca um jogador tinha feito a cirurgia que eu fiz. Então, aquele título teve um sabor especial por isso. Depois daquele jogo contra o Santa Cruz (última rodada da fase de classificação da Copa União), quando eu fiz os três gols, eu fui comemorar o terceiro gol e arrebentei os pontos do joelho. Aquilo ali fez com que meu joelho inchasse no segundo tempo nos quatro jogos seguintes. Depois da final, tive que operar de novo para tirar os pontos. O médico tinha me dito que se eu tirasse os meniscos, a possibilidade de parar seria grande. Então, ele ia dar ponto, suturar, mas eu tinha que tomar cuidado de não jogar o peso do corpo todo para a perna esquerda. Então, não comemorava mais saltando, não fazia exercício de salto. Procurei evitar uma série de coisas. E naquele gol, a empolgação foi tanta que caí em cima do joelho.

Zico opina sobre gestão da ex-presidente Patrícia AmorimClique no link para iniciar o vídeo
Zico opina sobre gestão da ex-presidente Patrícia Amorim

 

Terra – Quando você teve o joelho machucado, após a entrada do zagueiro Marcio Nunes, do Bangu, o que passou pela sua cabeça naquele momento? Sentia dor, decepção, você sentiu que era realmente muito grave?
Zico –
Eu senti que era grave, porque quando todo mundo veio falar comigo, preocupados porque tinham visto as marcas na minha canela, o médico veio querendo saber se eu tinha quebrado a perna. Eu disse que o problema era no joelho que tinha rompido porque quando ele me atingiu, a perna rodou e o joelho torceu. A dor foi mais no joelho, e eu fiquei com a perna dormente porque as travas da chuteira dele romperam minha caneleira, e ficaram as marcas nas minhas canelas. E eu jogava de caneleira. Foi muito forte.

 

Terra – Se não fosse esse problema, você teria jogado mais tempo no Brasil?
Zico –
 Eu poderia jogar até 40 anos tranquilamente, aqui no Brasil. Não teria, talvez, ido para o Japão. Talvez não tivesse sido secretário de esportes. Deus escreve certo por linhas tortas. Aqui, pelo que sempre pude fazer, pelo que me cuidei, teria condições de jogar. O que poderia acontecer eram problemas de contusão, que acabaram me fazendo parar de jogar. Depois da contusão no joelho foi que eu tive os piores problemas musculares. Minha musculatura ficou um pouco desequilibrada. Passei a ter problema de panturrilha, que não tinha. Também adutor, posterior de coxa. Isso tudo foi afetado. Foi quando resolvi parar. Sempre gostei muito de treinar, ir a campo, mas jogava três jogos e machucava. Já estava de saco cheio daquilo.

Cheguei a jogar uma partida na escolinha do América, lá no Andaraí. Tinha 12 para 13 anos

Zico Ao comentar o início no futebol

 

Terra – A ida para o Japão acabou se transformando em um marco na sua carreira. Você tinha noção do que iria encontrar lá?
Zico –
Eu pude jogar tranquilamente lá porque não tinha responsabilidade e nem pressão de jogar. Jogava por jogar. Minha ida para lá, pensei que fosse fazer mais as coisas fora do campo. Aí me disseram que iria jogar. Era segunda divisão, e só subiríamos se chegássemos em 1º ou 2º lugar. Aos poucos, fui moldando até mesmo os japoneses. Muitos que jogaram não queriam ficar no campo, queriam voltar para a fábrica. Metade do time continuou trabalhando, metade quis ser profissional. Deu para jogar, pude mostrar mais para os que viraram profissionais. Fui treinador, preparador de goleiros, roupeiro, massagista, fiz de tudo um pouco. Orientei tudo. Só tinha uniforme para o jogo. Cada um levava o seu, a gente que lavava a nossa roupa. Aí comecei a organizar tudo, a fazer com quê a gente começasse a pensar como era profissionalmente.

Zico em ação na sua tradicional pelada de fim de ano, o Jogo das Estrelas Foto: Bruno Santos / Terra
Zico em ação na sua tradicional pelada de fim de ano, o Jogo das Estrelas
Foto: Bruno Santos / Terra

 

Acabamos em 2º lugar, eu fui o artilheiro da competição, e tudo se transformou. Veio o profissionalismo, e o Kashima já ficou entre os quatro finalistas no primeiro campeonato. Daí, Kashima passou a ser referência. Vieram título e títulos, e as outras equipes copiavam o que a gente fazia. O Japão cresceu, e hoje é o que é na Ásia.

 

Terra – Como você avalia sua passagem pela política? Se arrepende de ter sido secretário de Esportes no Governo Collor?
Zico –
 De maneira nenhuma, não me arrependo. Assumi e assumiria novamente aquele cargo. Como presidente de sindicato, sempre participei dos movimentos dos atletas. Achava que poderia fazer alguma coisa, e acho que fiz. Deixei um projeto de lei pronto para o desenvolvimento do esporte brasileiro. A partir dali, quando foi aprovado, o esporte deu outra guinada. O futebol não precisava de tantas modificações, acho que precisava era de uma modificação na cúpula, nas eleições das entidades, na criação das ligas. Então, isso tudo foi rediscutido, colocado em prática, e o esporte deu uma guinada. O Collor me deu toda a liberdade. Quando criei o projeto, a gente discutiu duas horas. Todo o projeto ele conhecia a fundo, porque ele tinha sido presidente de clube. Não tive nenhum problema, ele me deixou à vontade, com carta branca para fazer.

Zico revela qual o seu maior orgulho em 60 anos de vidaClique no link para iniciar o vídeo
Zico revela qual o seu maior orgulho em 60 anos de vida

 

Só que quando o projeto ficou pronto, que encaminhamos para ele, para ser levado ao Congresso, batia um pouco de frente com o curral do Norte e Nordeste, com as federações, com aquela coisa, porque diminuía o poder das federações. E muita gente lá o apoiou. Então, aquele negócio ficou engavetado, um, dois meses. Então, pedi para falar com o presidente. E começaram a não deixar que eu falasse diretamente com o Collor. Engavetaram e não tinham falado com ele. Quando fui falar com ele, uns 20 dias para conseguir audiência, coisa que conseguia toda semana, Já fui com a demissão. Ele ficou assustado. Expliquei que estava tudo engavetado. Dei dez dias, e tudo foi agilizado. Mas não tinha mais volta, já tinha decidido sair. Ele me deu respaldo o tempo todo. Não tenho nenhum problema, nenhuma tristeza, de dizer que fui secretário dele. Ele foi um bom presidente na minha área, deixou fazer meu trabalho.

 

Terra – Do que você mais se orgulha de ter construído, no campo profissional?
Zico –
 O respeito da minha classe, os profissionais da minha área. Sou sempre citado pela maioria deles. É o maior legado que você pode deixar. Ter o respeito da geração que jogou contigo, das gerações que vieram depois, que te tem como exemplo, referência, estou sempre sendo citado. É uma coisa espontânea, que vem de dentro dos caras mesmo. Isso mostra que a forma que eu me dediquei, os dias que me entreguei à profissão, valeram a pena.

Zico ao lado da ex-presidente do Flamengo, Patrícia Amorim. Ele fez parte da recente vida política do time rubro-negro Foto: Luiz Roberto Lima / Futura Press
Zico ao lado da ex-presidente do Flamengo, Patrícia Amorim. Ele fez parte da recente vida política do time rubro-negro
Foto: Luiz Roberto Lima / Futura Press

 

Terra – O que você teria feito diferente?
Zico –
Depois que se sabe o resultado, é fácil. As atitudes que eu tomei em cada momento, sempre fiz achando que era o melhor. Não teve nada que aconteceu que eu pudesse me arrepender bastante. Houve desilusões com algumas pessoas, mas isso é normal, em qualquer área acontece.

 

Terra – Falando em desilusões, houve sua passagem recente como dirigente do Flamengo, que logo foi abortada. Você se arrepende de ter aceitado o cargo?
Zico –
Não, porque eu conheci a Patricia ainda atleta do Flamengo. Ajudei muito os atletas da natação, a gente passava rifas para eles, para ajudá-los. E quando se vê um atleta, não importa a modalidade, na presidência, você torce para que dê certo, porque eu sou um ex-atleta. Acho que é importante um atleta comandar alguma coisa, um clube, uma entidade, é legal. Por isso, achei que poderia dar uma ajuda.

 

Não fui feliz, mas por exemplo, fiquei conhecendo e tendo a certeza de que não devo ter cargo oficial nenhum no Flamengo. Não participo de mais nada no Flamengo. A não ser usando minha imagem.

 

Terra – Assumir a presidência, você não tem esse desejo?
Zico –
Não, não, nada de cargo.

 

Terra – Você ficou desiludido na época, você se afastou do clube…
Zico –
Pela forma como aconteceu. Foi permitido que eu fosse chamado de desonesto, que eu estava me beneficiando com o Flamengo, com a parceria com o CFZ, que meus filhos estavam ganhando dinheiro em transações de jogadores. Poxa, a gente tem uma história, tem um nome. Você não pode ser acusado assim pela imprensa. O que me deixou mais chateado foi a imprensa, porque o cara deu uma entrevista coletiva lá no Flamengo, e todo mundo colocou o que ele falou. E na hora que eu coloquei na justiça para ele dizer o que tinha falado lá, ele desmentiu tudo e disse que a imprensa deturpou. E não teve ninguém da imprensa que contestou isso dele. Isso que me deixou mais irritado. Tem gente que tem interesse ainda, porque enquanto ele tiver cargo, ele vai ter voz. Depois que ele não tiver cargo, ninguém vai atrás. Tem gente que usufrui do cargo que ele tem para pegar algumas notícias em primeira mão.

Zico conta seus projetos na política como diretor de futebolClique no link para iniciar o vídeo
Zico conta seus projetos na política como diretor de futebol

 

Terra – Na Seleção, faltou conquistar uma Copa do Mundo?
Zico –
Acho que não. Eu queria ter ganho, mas o que vou fazer? Muitos aí queriam ter ganho, mas se Deus não quis, o que vou fazer? Eu joguei para ganhar. Não é algo que me incomode. Ganhar ou perder faz parte da competição. Se eu não jogar, é outra coisa. Imagina eu, com minha história, não ter sido convocado para uma Copa do Mundo, tudo bem. Agora, eu tive todas as chances. Não deu, não foi possível, paciência. O que vai se fazer disso? Vou deixar de seguir meu caminho por causa disso? Não, especialmente porque não faltou dedicação e empenho para que eu vencesse.

 

Terra – Pelo favoritismo do time, a Copa de 1982 acabou sendo uma grande decepção. Foi a maior da sua carreira?
Zico –
 Era um time que todos gostavam de ver jogar. É lógico que a possibilidade de vir vitória era muito grande. Só que numa Copa do Mundo, os jogos mata-mata são diferentes. Muitas vezes se são jogados campeonatos seguidos, a possibilidade de um time não ser campeão era baixa. Mas jogar mata-mata num dia em que as coisas não dão certo, você pode ser eliminado. E foi o que aconteceu. Naquele dia, a gente não jogou bem, a Itália aproveitou melhor as chances e venceu o jogo.

O Estadual de 1978, com o gol do Rondinelli, foi marcante. Ali nossa geração estava com aquele ponto de interrogação

Zico Ao lembrar qual título foi mais marcante

 

Terra – E em 86, teve o sacrifício pela contusão, a ida em condições clínicas longe do ideal. Teria feito diferente?
Zico –
Eu deveria ter seguido a “luzinha” que batia na minha cabeça, que pediu duas vezes para não ir. Mas é o tal negócio, você está envolvido, e jogar uma Copa é o que todo jogador quer. Eu via que, com todo o esforço que estava fazendo, se eu jogasse, o meu rendimento não caía. Mas era um jogador de risco. Era aquele negócio de jogar com uma bomba-relógio no joelho, e ela poder explodir. Eu tinha uma lesão, não é que era uma coisa simples. Eu não tinha o ligamento cruzado. Então, tinha que ter uma musculatura forte para não desequilibrar. E aí, aconteceu ainda o que aconteceu.

 

Acordar seis horas da manhã, sair na ponta do pé para não acordar seu companheiro, fazer três horas de musculação no dia do jogo. Poxa, não era fácil…Ter que fazer aquilo todo dia, não era brincadeira.

 

Terra – E o pênalti perdido acabou ficando marcado. Foi a decisão correta ir lá e bater?
Zico –
O pênalti é uma jogada de gol. É como um frango, um escorregão, uma falha. E o Brasil não perdeu por causa do pênalti. O jogo foi empate. Depois teve a disputa. Essas coisas estão escritas, sei lá…

 

Terra – Como será o Zico após os 60 anos. Mais afastado do futebol profissional? Você não pensa em voltar a ser treinador?
Zico –
Sou comentarista, tenho meu programa, o projeto da escola Zico 10, que está no Brasil inteiro. Só aqui no Rio estamos com 12 mil crianças. São 40 mil crianças em 25 estados. Para a criança estar no núcleo, tem que estar estudando, com notas boas, com frequência. Pretendo me dedicar a isso, fazendo visitas a cidades que têm núcleos. Tenho sido requisitado para muitas palestras. Pretendo ficar por aqui. Se surgir alguma coisa, muito boa, em um grande centro, para poder me motivar a voltar a trabalhar, quem sabe… Não quero mais aquele tipo de situação que foi nos últimos anos.

 

Terra – Em algum momento de sua carreira, pensou em sair do Flamengo, fazer carreira em outro lugar?
Zico –
Nunca pensei em sair do Flamengo. Nem para a Udinese. O Milan veio antes, mas fez uma proposta para a imprensa, e outra para mim e para o Flamengo. E naquela época tinha o passe, você ficava preso. Você ia embora se o clube quisesse. Era diferente. Nunca tive nenhum problema de renovação de contrato com o Flamengo, se era muito, se era pouco. A gente chegava a um acordo, e ficava todo mundo feliz.

Frustração com a Seleção quase fez Zico parar de jogar; vejaClique no link para iniciar o vídeo
Frustração com a Seleção quase fez Zico parar de jogar; veja

 

Terra – O que o Flamengo significa para você?
Zico –
 O Flamengo sempre foi a minha segunda casa. Depois da minha casa, era o lugar que eu mais me sentia feliz. Meu time de coração, que aprendi a gostar graças ao amor do meu pai ao Flamengo. Ele era um torcedor apaixonado. Cada filho que nascia, ele dava um uniforme completo. Ter o prazer de poder participar das maiores conquistas do Flamengo num período foi a coisa mais importante da minha vida. Quando perguntam sobre o que queria que acontecesse na minha vida, eu só respondo que queria jogar com a camisa 10 do Dida. Meu ídolo e ídolo da minha família. E Deus foi generoso comigo porque me deu logo essa camisa quando comecei a carreira. Dignifiquei e honrei a camisa do Flamengo como jogador e como torcedor.

 

 

Terra

Hulk relembra origem pobre e diz que se sentiu rico pela 1ª vez com R$ 500

Quando assinou o primeiro contrato profissional com o Vitória, em 2005, Hulk ligou para a mãe, em Campina Grande, e disse: “Vamos ficar ricos!” No contrato, um salário de R$ 500. Esse foi o ponto de partida de uma trajetória vitoriosa no futebol. Depois de uma curta e inexpressiva atuação no clube baiano, Hulk foi tentar a sorte do outro lado do mundo, se destacando em alguns clubes do Japão. Chamou a atenção do Porto e foi contratado em 2008, onde ficou por quatro anos e ganhou 11 títulos. No ano passado, Hulk trocou Portugal pela Rússia, protagonizando a maior transação do mercado futebolístico da temporada. O Zenit pagou uma quantia estimada em € 60 milhões pelo jogador, algo em torno de R$ 150 milhões.

Hulk e Iran - jogador do Zenit com esposa (Foto: Amanda Araújo / Revista Pitanga)Hulk ao lado da esposa Iran: amor que nasceu no
Japão (Foto: Amanda Araújo / Revista Pitanga)

Apesar do sucesso lá fora, foi a atuação de Hulk na Seleção Brasileira que tornou o seu futebol conhecido pelos brasileiros. De olho na próxima Copa do Mundo, o jogador não quer deixar escapar a chance de se manter entre os titulares. Com a saída do técnico Mano Menezes e a chegada de Luiz Felipe Scolari ao comando da seleção, Hulk afirma que vai trabalhar como nunca para ser visto pelo novo treinador e, assim, ter a chance de realizar o sonho de ser campeão mundial com a seleção.

No início do mês, dois dias antes de retornar ao Zenit, Hulk recebeu a Revista Pitanga para uma entrevista exclusiva. O apartamento do jogador em João Pessoa ainda tinha sabor de férias e enquanto o jogador tentava instalar o Playstation3 na TV e atendia alguns garotos do prédio para fotos e autógrafos, Iran, sua mulher, nos fez companhia.

Nascida em Boa Ventura, no Sertão paraibano, ela contou como os dois só se conheceram no Japão, aproximados pela Paraíba:

Outro dia uma moça beijou o Hulk na minha frente, na boca. O que eu podia fazer? Cair na risada, é claro”
Iran, esposa do paraibano Hulk

– Na saída de um restaurante brasileiro, uma amiga que estava comigo passou por ele perguntou se ele não era o ‘Hulk Paraíba’ que ela tinha visto no Orkut. Eu não estava nem prestando atenção na conversa, mas quando ouvi o nome Paraíba, me interessei. Ele pediu meu telefone, mas eu não dei. No Japão, jogador de futebol não tem a melhor fama do mundo. Então ele me deu o número dele e dias depois eu decidi ligar – contou aos risos.

Oito anos mais velha que o marido, Iran diz que não sente ciúmes, lida bem com o assédio da mulherada e conta que os dois são muito parceiros.

– Outro dia uma moça (uma fã, que o abordou no meio da rua) beijou o Hulk na minha frente, na boca. O que eu podia fazer? Cair na risada, é claro – conta aos risos.

O casal está junto há sete anos. E ela é mãe dos dois filhos do jogador, Tiago e Ian. Após esta conversa rápida e o fim da “operação vídeo game”, se deu início à conversa com Hulk.

Pitanga – O que você está achando das férias na Paraíba e o que tem feito todos esses dias?

Hulk: Estou achando chato porque vai acabar. (risos) Estou curtindo tudo. Fico muito tempo
longe e quando chego encontro duas cidades maravilhosas (ele passa as férias entre Campina Grande e João Pessoa), muita coisa boa para aproveitar, festas, praias e a família, claro. São seis irmãs e 14 sobrinhos. Quando estou aqui procuro ver os amigos. Infelizmente tenho pouco tempo e os meus amigos são muitos. É complicado, mas eu procuro ver todos, dá atenção a cada um e matar um pouco a saudade.

Hulk no show de Garota Safada (Foto: Krystine Carneiro / G1 PB)Hulk durante as férias: diversão e tempo para
reencontrar todos os seus amigos de Paraíba
(Foto: Krystine Carneiro / G1 PB)

O assédio dos fãs incomoda? Dá pra curtir uma praia com tranquilidade?

O assédio existe em qualquer parte do mundo. Mas procuro atender da melhor maneira possível. Eu jamais negaria uma foto, um autógrafo, não quero ser chato ou arrogante, nem que digam que não sei atender um fã. Eu comecei do zero e construí uma historia bonita, sou querido e bem recebido por onde passo e me sinto feliz com isso. Eu sinto demais o carinho das pessoas aqui. É bom saber que elas estão aprovando o modo como a gente carrega o nome da Paraíba. Quanto à praia, quando estou na água é mais tranquilo (risos).

O que dá mais saudade do Brasil quando está fora?

O clima e a família. Quando eu parar de jogar, o Brasil é o país que eu quero morar com minha mulher e meus filhos, mas, por enquanto, é o país que eu gosto de tirar férias. Quando estou aqui eu brinco muito, me divirto, mas tem uma hora que dá saudade de acordar cedo, treinar… Eu sinto falta da rotina.

Você tem uma vida aparentemente tranquila, nunca esteve envolvido em nenhum escândalo. Você se preocupa com isso? Toma alguma precaução?

Acho importante saber chegar e sair em qualquer lugar que eu entro. Saí de casa cedo e meus pais sempre trabalharam muito, mas eles me deram uma boa educação. Tive a felicidade de conhecer minha esposa, que me ensinou muita coisa e que me deu as coisas mais importantes que eu tenho na vida, que são meus dois filhos. Depois deles, tudo mudou. Comecei a ter mais responsabilidade. Antes de fazer qualquer coisa, penso primeiro na minha na família. Faço tudo para não magoá-los.

Você se tornou um grande jogador atuando no exterior. Como é voltar ao Brasil fazendo parte da seleção brasileira?

Minha vitória não foi fácil. Tive que fazer história fora do país para depois ser reconhecido aqui. Fui para o Japão muito cedo, depois para Europa, onde tudo começou a correr bem. O reconhecimento veio através da Seleção. Eu estava no Porto quando ocupei o meu espaço na Seleção e hoje sou respeitado por isso. Foi difícil, minha vitória ganhou gosto de mel.

Hulk com a medalha de prata olímpica (Foto: Amanda Araújo / Revista Pitanga)Hulk exibe a medalha de prata olímpica que conquistou com a Seleção nos Jogos de Londres
(Foto: Amanda Araújo / Revista Pitanga)

A sua transferência para o Zenit rendeu uma das negociações mais caras do futebol mundial. Como você se sente vindo de uma família humilde?

A gente quer mostrar que valeu a pena. Fico grato pelo meu trabalho ser bem visto, ser reconhecido. Fico feliz por entrar para a história do futebol. Sou o jogador que fez mais gols no
estádio do Dragão (novo estádio do Porto, inaugurado em 2003), por exemplo, e fico feliz por isso por conseguir tudo isso.

Você imaginou que um dia seria uma estrela do futebol?

Nunca imaginei. Desde criança eu queria ser jogador de futebol. Eu tinha dois ídolos, o Romário e o Ronaldo, e eles me inspiraram muito. Depois que cheguei no Vitória e assinei o meu primeiro contrato com 16 anos, eu vi que a minha profissão seria atleta profissional. Ali eu estava fazendo o que eu gostava e estava realizando um sonho. Assinei o contrato com o Vitória para ganhar R$ 500 por mês. Lembro que na época eu liguei pra minha mãe e disse: “Mãe, a gente vai ficar rico”. Eu nunca tinha visto tanto dinheiro. Depois de um ano o salário dobrou. E depois veio o Japão e as coisas melhoraram. Agradeço primeiro a Deus e depois ao futebol, que me deu tudo que eu tenho hoje.

hulk brasil treino (Foto: Mowa Press)Hulk: promessa de treino forte para continuar na
Seleção de Felipão até a Copa do Mundo
(Foto: Mowa Press)

Profissionalmente, já chegou aonde gostaria?

Eu gosto de correr atrás dos meus objetivos. Eu tinha o sonho de jogar na Seleção. Realizei esse sonho. Outro sonho é disputar a Copa do Mundo e eu vou trabalhar em cima desse objetivo para o mundial no Brasil e, se Deus quiser, ser campeão com a seleção.

A posição de atacante é a mais cobiçada de toda a Seleção. Você sente alguma pressão?

Quando se trata de Seleção, nenhuma posição é fácil de chegar. São muitos jogadores bons e poucas vagas. É pedir para continuar bem, pra não sofrer nenhuma lesão e ser lembrado na hora das convocações.

E esse apelido, Hulk, de onde vem?

Eu tenho desde os três anos. O meu pai conta que eu gostava de imitar o Hulk, que eu dizia que era forte, que queria levantar o bujão de gás da casa. Daí ele disse: ‘então o seu apelido vai ser Hulk’. E ficou até hoje. Se alguém me chama de Givanildo (Vieira de Souza) é capaz de eu nem olhar pra trás. (risos) Muita gente acha que é por causa do futebol, mas eu não sou muito alto e também não era tão forte quando comecei a jogar.

hulk, arte - zenit e seleção brasileira (Foto: Amanda Araújo / Revista Pitanga / Arte: William Araújo)O incrível Hulk: ao contrário dos que muito pensam, o apelido não nasceu nos tempos de jogador
(Foto: Amanda Araújo / Revista Pitanga / Arte: William Araújo)

Por falar na infância, que memória você tem dessa época?

Principalmente de quando eu jogava futebol com os amigos no Parque da Criança, em Campina Grande, e nenhum de nós tinha condição de pagar um transporte. Então a gente saia do Zé Pinheiro (bairro pobre da cidade) para o Parque do Povo (área pública onde é realizada o Maior São João do Mundo) ou para o Ginásio Meninão a pé apenas para jogar futebol. Ninguém tinha dinheiro pra comprar o lanche e o treinador era quem comprava. Essas dificuldades ficaram como aprendizado.

 

 

Globoesporte.com

Ato na Praça da Sé relembra 20 anos do Massacre do Carandiru

 

Para relembrar o Massacre do Carandiru, que completa 20 anos nesta terça (2), movimentos sociais e a Pastoral Carcerária vão fazer um ato na Praça da Sé, a partir das 15h, no centro da capital paulista.

O primeiro ato, ecumênico, terá início na Catedral da Sé. Cerca de uma hora depois, na Praça da Sé, acontece um ato político-cultural.

No dia 2 de outubro de 1992, policiais invadiram o presídio do Carandiru durante uma rebelião e mataram, com uso de metralhadoras, fuzis e pistolas, ao menos 111 presidiários. Até hoje, ninguém foi responsabilizado pelos crimes.

“O ato não é apenas um resgate da memória dos 20 anos do Carandiru, uma situação clara de que não esquecemos e não esqueceremos jamais do que aconteceu, mas é também uma denúncia pública sobre todas essas políticas de massacre das populações periféricas, pretas e pobres, que ainda acontece nos dias de hoje”, disse Rodolfo Valente, advogado da Pastoral Carcerária em São Paulo e integrante da Rede 2 de Outubro.

A denúncia, segundo Valente, não é só do Massacre do Carandiru. “É também uma denúncia ao massacre dos Crimes de Maio, ao Massacre de Eldorado do Carajás”, disse.

Nos ataques comandados pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) de 2006, que ficaram conhecidos como Crimes de Maio e que ocorreram entre os dias 12 e 20 de maio daquele ano, 493 pessoas foram mortas, entre elas, 43 agentes públicos. Um estudo feito pela organização não governamental (ONG) Justiça Global, divulgado no ano passado, apontou que, em 71 desses casos, houve fortes indícios do envolvimento de policiais que integram grupos de extermínio.

Já em Eldorado dos Carajás, no Pará, a ação da Polícia Militar causou a morte de 21 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Dezenove sem-terra morreram no local e dois a caminho do hospital. As mortes ocorreram durante o confronto com a polícia no quilômetro 96 da Rodovia PA-150, na chamada Curva do S.

No sábado (6), os movimentos sociais também pretendem fazer uma caminhada cultural, marcada para ocorrer no Parque da Juventude, onde antes estava instalado o Complexo Penitenciário do Carandiru.

A TV Brasil conta a história do massacre no especial Carandiru, as Marcas da Intolerância, do Programa Caminhos da Reportagem, que será apresentado na quinta-feira (4), às 22 horas.

Fonte: Agência Brasil
Focando a Notícia

Danilo relembra Libertadores; Timão bate Náutico e deixa zona da degola

Meia hora antes do início do duelo entre Corinthians e Náutico, o sistema de som do Pacaembu tocava um dos grandes sucessos do samba nacional: “O show tem que continuar”. É por isso que mais de 23 mil pagantes foram ao estádio para fazer o Timão reagir no Campeonato Brasileiro. Neste sábado, o Timão fez 2 a 1 no Timbu, dois gols de Danilo, venceu pela primeira vez desde a conquista da Taça Libertadores e saiu da zona de rebaixamento, pelo menos até este domingo. O “show” continua, agora pela competição nacional.

Nome fundamental na Libertadores, Danilo voltou a mostrar caráter decisivo. Os dois belos gols do meia fizeram o Pacaembu explodir e reviver o clima de dez dias atrás, nos 2 a 0 sobre o Boca Juniors. O resultado fez o Timão “começar” o Brasileiro. Depois de nove rodadas, são oito pontos somados, mesmo número de Figueirense, Santos e Bahia – todos perdem no saldo de gols. Os corintianos têm de torcer contra os dois últimos, além do Coritiba, para não voltar à zona da degola ao fim da rodada.

O Náutico, por outro lado, permanece com 10 pontos, na zona intermediária da tabela. A equipe treinada por Alexandre Gallo até saiu na frente, gol de Elicarlos, mas sofreu o empate no minuto seguinte e se perdeu. O Timbu deixou de ser o algoz corintiano: nos cinco confrontos diretos antes deste sábado, eram cinco vitórias pernambucanas.

Na próxima rodada, o Timão visita o Flamengo na quarta-feira, às 21h50m (horário de Brasília), no Engenhão. No mesmo dia, o Náutico recebe a Ponte Preta, nos Aflitos, às 20h30m.

Danilo, Corinthians x Náutico (Foto: Rodrigo Coca / Agência Estado)Danilo tem nove gols na temporada: todos marcados no Pacaembu (Foto: Rodrigo Coca / Agência Estado)

Timbu assusta, Timão se impõe

A volta de Emerson Sheik incendiou o Corinthians e fez o time voltar a apresentar aquele clima da Taça Libertadores. Um time compacto, com sete, oito jogadores atacando e levando perigo ao Náutico. Não à toa, o nome do atacante foi, de longe, o mais festejado pela torcida quando a escalação foi anunciada. Ele logo caiu pelo lado esquerdo e travou boa disputa com a defesa adversária.

Os corintianos entenderam que era hora de voltar à realidade, tanto que fizeram enormes filas por ingressos para o jogo. A festa e o futebol exibido pela equipe de Tite deixavam claro que o gol seria questão de tempo: Danilo exigiu grande defesa de Felipe em um chute dentro da área, Romarinho abriu a defesa com jogadas em diagonal, tentou um arremate e Felipe, aquele goleiro ex-Santos, quase soltou a bola no meio da área.

O problema é que o Náutico tem um histórico de complicar a vida do Timão, tanto que havia vencido todos os últimos cinco confrontos antes deste sábado. Aos 20 minutos, um mortal contra-ataque confirmou essa sina. Elicarlos, livre de marcação, pôde tabelar com Araújo e finalizar em curva, sem chances para Cassio. O bom volante do Náutico tinha espaço no meio-campo, já que Ralf e Paulinho estavam muito avançados.

A resposta foi imediata, nem deu tempo de o Corinthians sentir o gol. Assim como na Libertadores, o torcedor não precisou sofrer tanto. Aos 22, Paulinho justificou o esforço do Corinthians em mantê-lo no elenco: lançamento preciso, perfeito, no peito de Danilo. O meia só precisou colocar sua categoria em prática para tirar a bola do alcance de Felipe: 1 a 1, explosão no Pacaembu.

O Náutico sentiu demais e parou de atacar. O Timão abria espaços ao trocar passes com paciência, de um lado a outro, e ficou muito tempo dentro da congestionada área dos pernambucanos. Pela direita, Romarinho e Welder mostraram entrosamento surpreendente – o lateral quase fez um golaço ao tentar encobrir Felipe. Apenas Alex destoou. Próximo de deixar o Corinthians – tem proposta do Qatar -, o meia se enrolou em alguns lances e parecia “travado” em campo.

O rei do Pacaembu

Parecia repetição daquela semifinal da Libertadores contra o Santos. O Corinthians martelando, precisando de um gol, e Danilo salvando logo no início do segundo tempo. Logo aos quatro minutos, um endiabrado Emerson iniciou a jogada e lançou na área. A bola bateu na trave duas vezes, num corte contra a própria meta do zagueiro e em conclusão de Paulinho no rebote, antes de sobrar para o predestinado Danilo, do lado direito da área. O camisa 20 se ajeitou num salto de lado e bateu de primeira, com categoria, cruzado, como fez contra o Peixe, sem chances para Felipe: 2 a 1 Timão.

O Pacaembu ficou ainda mais festivo com um dos jogadores mais importantes do time. São nove gols para Danilo na temporada, todos marcados dentro do caldeirão alvinegro. Merecidamente, teve seu nome gritado por mais de um minuto pelos torcedores corintianos.

Os comandados de Tite deram uma relaxada em campo, e o Náutico criou perigo. Araújo, principalmente. Com cinco gols no Brasileirão, o artilheiro do Timbu deixou o lado esquerdo do campo e ficou mais centralizado na área. Em um cruzamento de Kim, faltaram poucos centímetros para o atacante alcançar a bola. Depois, teve um chute travado por Welder. E ainda viu um gol de calcanhar anulado por impedimento.

O Corinthians se posicionou para os contra-ataques. Sem a bola, Emerson ficou na linha do meio-campo esperando uma oportunidade para arrancar em direção ao gol. Na metade do jogo, Tite sacou Romarinho e promoveu a volta de Edenílson, fora do time há mais de dois meses por causa de uma lesão. O Timão se fechou ainda mais, “espremendo” os atacantes do Náutico entre os zagueiros e volantes.

Sob o comando de Araújo, o Náutico se abriu, mas centralizou demais o jogo e facilitou a atuação dos zagueiros. Breitner, ex-Santos, entrou para dar mais dinâmica ao meio-campo. O time da casa manteve a postura, e Emerson quase fez o terceiro no único contra-ataque que teve. O Timbu chegou a acertar o travessão já nos acréscimos, mas ficou nisso. O Timão conseguiu “esquecer” a conquista da América para se concentrar no Brasileiro. O Timbu deixou de ser algoz, e agora precisa de atenção para não correr riscos na competição.

Globoesporte.com

Bernard relembra ‘melhor R49’, Galo vence Grêmio no Olímpico e vira líder

Enquanto o Grêmio ficou no meio do caminho entre o passado e o futuro, o Atlético-MG se decidiu pela segunda opção. Alheio às vaias da torcida ao eterno desafeto Ronaldinho e à expectativa pela estreia de Zé Roberto e promoção do goleiro Marcelo Grohe, o time de Cuca apostou no talento de Bernard, 1m62cm e apenas 19 anos. Saiu de seus pés a jogada decisiva da partida – chapéu duplo na zaga que resultou no gol de Jô. O 1 a 0 na noite deste domingo dá aos mineiros a liderança do Brasileirão, com 16 pontos, batendo o Vasco no saldo de gols.

A derrota em casa custa caro ao Grêmio, que deixa a zona de classificação à Libertadores e se aloja na quinta colocação, com 12 pontos. Foi o primeiro revés do time de Vanderlei Luxemburgo no Olímpico neste Brasileirão, em quatro partidas. Até então, sequer havia sofrido gols em Porto Alegre.

Centro das atenções mesmo antes de a bola rolar, Ronaldinho seguiu alvo dos repórteres ao fim do jogo. Antes, porém, foi saudado por todos os companheiros no centro do campo. Parecia conquista de título. Poderia soar como provocação aos gremistas, o que ficou ainda mais evidenciado quando Ronaldinho fez menção em ir em direção ao vestiário do clube gaúcho. Depois, deu meia volta, recebeu mais uma onda de vaias e xingamentos. Aos microfones, declarou:

– Sempre é bom vencer aqui. Da outra vez (pelo Flamengo), perdi. Agora ganhei.

Ao Grêmio, coube reclamar da arbitragem de Paulo Cesar de Oliveira, que foi cercado pelos jogadores após a partida.

– Ele é muito arrogante – atestou o atacante Kleber.

Tanto Grêmio quanto Atlético-MG têm semana livre de treinos, seja para juntar os cacos da derrota ou saborear a nova liderança. O clube gaúcho enfrenta, no próximo domingo, às 16h, o Santos, na Vila Belmiro. Nos mesmos dia e horário, o Galo defende o topo da tabela contra a Portuguesa, no Independência.

Ferida nem perto de fechar

A torcida apenas blefou. Adotou uma tática passivo-agressiva e não hostilizou Ronaldinho nos arredores do Olímpico, com gritos, faixas e cartazes, como fizera aos montes no último 30 de outubro, quando o Grêmio derrotou o Flamengo por 4 a 2. Optou por fazê-lo apenas no campo. Assim que pisou na grama em que nasceu para o futebol, às 18h26m, foi soterrado de vaias. Não havia um, dentre os 34.550 gremistas, que se furtara de apupá-lo na provável última vez do jogador no estádio, que será entregue a construtora OAS em março, devido à parceria na construção da Arena.

ronaldinho gaucho atlético-mg kleber grÊmio (Foto: Vinícius Costa / Agência Estado)Ronaldinho não foi poupado das vaias no Olímpico (Foto: Vinícius Costa / Agência Estado)

O arsenal azul não se baseava apenas na voz. Primeiro, a torcida tentou emplacar uma grande faixa na arquibancada inferior. Como os dizeres eram ofensivos à mãe do jogador, Miguelina, a Brigada Militar a retirou de pronto. A cada escanteio que Ronaldinho ia cobrar, brotavam as famosas faixas brancas com a inscrição “pilantra”.

No entanto, o camisa 49 estava pouco criativo. Foi tocar pela primeira vez na bola apenas aos 11 minutos. Tudo bem para o Grêmio? Nem tanto. A equipe de Vanderlei Luxemburgo, que tinha a estreia de Zé Roberto como a principal atração, até começou melhor, com mais volume. Mas fustigava pouco o gol de Giovanni. O novo camisa 10 fazia jus às suas funções. Dos pés de Zé, saíram as bolas mais redondas e conscientes no ataque tricolor.

Bernard “encarna” fase áurea de R49

Zé estava bem, mas não foi genial. Tampouco essa honra sobrou para seu colega na Copa de 2006. Coube a Bernard, com seus 1m62m, ofuscar as principais atrações. Na antiga casa de R49, o baixinho viveu seus segundos de craque. Com dois chapéusconsecutivos, lembrou Ronaldinho em seus áureos tempos. Aquele garoto leve que, em 1999, havia feito mesmo drible e no mesmo estádio, sobre Dunga no Gre-Nal decisivo do Gauchão. Ou ainda o mirrado reserva da Seleção, que entrou no segundo tempo para desmembrar a defesa da Venezuela na Copa América, sob o comando de Luxa.

Agora, a vítima foi a zaga do Grêmio deste mesmo Luxa. Com a diferença que Bernard não finalizou. Criticado pela torcida do Galo por pecar nesse fundamento, o meia ofereceu a bola a Jô. O ex-colorado completou, de primeira. Em sua primeira partida como titular após o adeus de Victor, Marcelo Grohe precisou buscar a bola na rede já aos 25 minutos da etapa inicial – o primeiro gol sofrido pelo Grêmio no Olímpico neste Brasileirão.

Zé Roberto contra o Atlético-MG (Foto: Lucas Uebel/Divulgação, Grêmio)Zé Roberto estreou contra o Atlético-MG
(Foto: Lucas Uebel/Divulgação, Grêmio)

O iminente revés em casa, diante do maior público do Olímpico neste Brasileiro, pouco mudou a atuação do Grêmio. O time assustou apenas duas vezes em finalizações aéreas de Marcelo Moreno. Ambas pararam em Giovanni. O lance de destaque demorou. Aos 42 minutos, Kleber também se reservou o direito de ter lampejos, passou por três atleticanos na área e cruzou para trás. Zé Roberto completou, mas o pé de Leonardo Silva impediu o empate.

Bernard pode ter sido genial, mas Ronaldinho é Ronaldinho. De longe, foi o jogador mais assediado pelos repórteres. Blindado por dezenas de microfones, recebeu a seguinte pergunta, encharcada de ironia, na saída para o vestiário:

– E esse carinho?

– Carinho? Só você está vendo carinho aqui – respondeu, com seu sorriso de praxe.

Grêmio implode volantes, mas não dá certo

Para o segundo tempo, Luxemburgo sacou Edilson e Léo Gago para as entradas de Tony e Rondinelly. A etapa final surgiu promissora. Aos cinco minutos, Zé Roberto arriscou de fora da área, com perigo. Kleber, aos dez, invadiu a área e finalizou nas pernas de Giovanni.

Mas o Grêmio pouco evoluiu a partir de então. E o Atlético-MG seguiu assustando. Ronaldinho cobrou falta com veneno, mas Marcelo Grohe conseguiu evitar o 2 a 0. Aos 22, num contragolpe puxado pelo camisa 49, Jô ficou cara a cara com Grohe. O goleiro novamente defendeu, agora com os pés, e teve seu nome entoado nas arquibancadas.

Nervosa, a torcida cobrava dos jogadores do Grêmio até casos de fair play. Tanto que, pouco antes da chance de ouro despediçada por Jô, ela fez pressão para que o time não colocasse a bola para fora. O zagueiro Leonardo Silva acabou levantando, dispensando o atendimento médico.

Pico é expulso em seu retorno

Aos 29 minutos, Luxemburgo se lançou completamente ao ataque. Tirou Fernando, que levou seu quinto cartão amarelo em seis jogos, e pôs em campo André Lima. Assim, o Grêmio ficou com apenas um volante (Souza), dois meias (Zé Roberto e Rondinelly) e três atacantes (além de André Lima, Kleber e Moreno).

Não faltou disposição e sobrou até destempero emocional. Mesmo sem ter levado amarelo, o reestreante Anderson Pico, oriundo da base e com contrato renovado, foi expulso aos 37 minutos por atingir o adversário no rosto.

O tempo passou e confirmou que a inspiração no Olímpico estava toda depositada em apenas um jogador. E foi congelada aos 25 minutos do primeiro. Esqueçam o “novato” Zé Roberto ou o odiado Ronaldinho. O duplo chapéu de Bernard é a melhor lembrança da noite que passado e futuro disputaram a atenção. Melhor para o segundo.

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