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Balanço ambiental nos oceanos: a crônica da morte anunciada

“Sem dúvida, a irresponsabilidade, a acidificação dos mares, a mudança climática, as atividades contaminantes e a exploração mais do que intensa dos recursos marinhos têm convertido os oceanos em um dos ecossistemas mais ameaçados do planeta”.

Esse é um pequeno trecho de um documento de 20 páginas que a Unesco e a Organização Marítima Internacional apresentaram aos participantes da Rio+20, em junho de 2012. Além de reforçar que eles são responsáveis por 80% da produção pesqueira mundial, destinadas ao consumo humano, representa 15% da ingestão de proteína animal per capita a 4,2 bilhões de pessoas, sendo que a pesca e a aquicultura – criação comercial – davam trabalho total ou parcial a 180 milhões de pessoas, serviam de sustento a cerca de 500 milhões de pessoas.

Mas já existe no planeta cerca de 500 zonas hipóxicas ( ausência de oxigênio) nos oceanos, resultado da poluição de ingredientes químicos, da agricultura e pecuária, que provocam um fenômeno chamado de eutrofização – acúmulo desses nutrientes, como nitrogênio, fósforo, silício, que muitas vezes provocam o crescimento rápido de algas e bactérias tóxicas. Fato comum em grandes metrópoles cercadas por rios lamacentos e poluídos. O número de 2008 abrangia mais de 245 mil quilômetros quadrados, quase a mesma área desmatada da Amazônia.

Resíduos industriais, com metais pesados e efluentes orgânicos dos esgotos que jorram nos rios e depois acabam nos oceanos somam de 300 a 400 milhões de toneladas anualmente, em todo o mundo. Não são números de 2012. As zonas mortas, por exemplo, dobram de tamanho a cada ano. Enquanto a maior riqueza dos oceanos, o plâncton, também conhecido como microalgas, reduz a sua capacidade de se reproduzir 1% a cada ano.

A vida invisível
As microalgas captam gás carbônico para fazer a fotossíntese. Parte desses microrganismos produzem carapaças de carbonato de cálcio, assim como os corais produzem seus esqueletos.

São bilhões de toneladas de carbono que descem para o fundo dos oceanos e que ficam enterrados por milhares de anos, quando eles morrem. Uma integração que está sendo alterada nas últimas décadas, em função do aquecimento global. Se o plâncton, que também é responsável por metade da produção primária do planeta, é a base alimentar da vida marinha – deles se alimenta o zooplâncton, por exemplo, cuja figura mais conhecida é o krill, um pequeno camarão vive nas águas do oceano austral, e que alimenta muitas outras espécies -, não captar o CO2 da atmosfera e não enterrar no fundo dos oceanos, ele vai continuar na atmosfera.

Se o CO2 dissolvido nas águas dos oceanos não for incorporado nas conchas e estruturas de carbonato de cálcio, ele vai aumentar a acidez das águas, elas vão ficar mais corrosivas. O pH da água marinha pura é levemente alcalino, acima de 8 – pH 7 é neutro, abaixo, ácido. O pH é uma medida da concentração de íons hidrogênio. Cada unidade perdida no pH representa 10 vezes mais a concentração de íons hidrogênio. Então a água do oceano global está ficando mais quente e mais ácida, com menos produção primária de comida, que é a base de toda a cadeia de vida marinha.

E isso é uma péssima notícia. Não é um assunto fácil de abordar. Por isso, não aparece nas discussões sobre mudanças climáticas e aquecimento global. Talvez essa seja a maior gravidade.

100 vezes mais rápido
Em 2008, aconteceu o segundo Simpósio sobre Oceanos em um mundo com elevado CO2, onde participaram 220 cientistas, de 32 países, sob patrocínio da Unesco, dos Laboratórios Ambientais Marinhos, da Agência Internacional de Energia, do Museu Oceanográfico de Mônaco, entre outras entidades.

Entre as deliberações, os cientistas deixaram a sua preocupação, com a seguinte situação:

“- Anualmente os oceanos absorvem 25% do CO2 emitido para a atmosfera pelas atividades humanas. Quando o CO2 se dissolve na água do mar, forma o ácido carbônico, processo denominado acidificação oceânica, está tornando a água do mar mais corrosiva para conchas e esqueletos de numerosos organismos marinhos, afetando a reprodução e a sua fisiologia.

-Nas próximas décadas, a química dos oceanos tropicais não sustentará o crescimento de recifes de corais e grandes extensões dos oceanos polares se tornarão corrosivas aos organismos marinhos calcificados. Haverá um impacto na cadeia alimentar, na biodiversidade.

– A acidez dos oceanos aumentou 30% desde o início da Revolução Industrial. É um aumento 100 vezes mais rápido do que qualquer mudança na acidez vivenciada pelos organismos marinhos, pelo menos nos últimos 20 milhões de anos. A atual acidificação, induzida pelo homem, representa um evento raro na história geológica do nosso planeta. A partir de 1990, o pH dos oceanos – 8,13 – começou a cair – 8.08 em 2010”.

E o mais importante: embora as mudanças climáticas e os seus impactos impliquem em incertezas significativas, as alterações químicas, que ocorrem nos oceanos, em decorrência do aumento de CO2 atmosférico, são notadas agora e facilmente previsíveis para o futuro. A acidificação oceânica não é uma questão climática periférica. Ela é outro problema acarretado pelo CO2.

A acidificação oceânica poderá disparar uma reação em cadeia de impactos sobre a teia alimentar, afetarão a indústria pesqueira e de frutos do mar, que movimenta bilhões de dólares e ameaçará a segurança alimentar de milhões de pessoas, dentre as mais pobres do planeta. Peixes na fase larval, moluscos e crustáceos são particularmente vulneráveis a esses impactos.

Por último: a capacidade dos oceanos em absorver CO2 atmosférico está sendo alterada pela acidificação oceânica, o que dificultará a estabilização das concentrações de CO2 atmosférico. Este é um assunto novo, onde 62% dos artigos científicos começaram a ser publicados a partir de 2004.

O pesquisador Osmar Pinto Júnior, do Inpe, fez um trabalho com pesquisadores do MIT (EUA) sobre as tempestades que caem no sudeste brasileiro. Analisaram as tempestades mensais nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas. Nos próximos 60 anos todo o sudeste do Brasil sofrerá três vezes mais com tempestades e raios, devido às mudanças climáticas que o aquecimento global provoca nos oceanos. As tempestades acontecem na costa brasileira, quando existe a conjunção do fenômeno climático natural La Nina, que resfria as águas do oceano Pacífico, com um aumento da temperatura das águas do Atlântico. Quanto mais quente estiver o Atlântico, mais intensas são as tempestades. Mesmo com La Nina, deveria resfriar as águas, as temperaturas se mostraram cada vez mais altas, com aquecimento médio de 0,6 grau centígrado, simultâneo ao aumento de 0,8 grau na temperatura do planeta.

Desequilíbrio energético
Pinto Júnior faz questão de ressaltar: “estamos falando de uma realidade e não de uma projeção. O oceano Atlântico está ficando mais quente e a tendência é que a temperatura continue a subir, se não pararem as emissões de carbono. A probabilidade desse cenário se concretizar é de 99%, uma taxa de confiabilidade que não pode ser ignorada”.

James Hansen é um cientista reconhecido no mundo, do Instituto de Estudos Espaciais da Nasa, por seu depoimento sobre mudanças climáticas em 1988 no Congresso dos Estados Unidos. Ele defende o argumento sobre o desequilíbrio energético do planeta, ou seja, mais energia solar está sendo absorvida do que devolvida ao espaço em forma de calor. O desequilíbrio tem um número – de 0,5 a 1 watt/m2. Uma minúscula lâmpada de enfeite de Natal. A irradiação solar é cerca de 1.400 watts/m2.

Como são os oceanos que absorvem este calor, é justamente ali que ele está retido. Alguns cientistas dizem que o calor atmosférico demora 30 anos para se harmonizar nos oceanos. Hansen cita um estudo do cientista Sydney Levitus, da Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera (Noaa), dos Estados Unidos, que analisou as mudanças de temperatura nos últimos 50 anos, descobriu que o conteúdo de calor do oceano mundial aumentou cerca de 10watts/ano/m2.

“A taxa corrente de estocagem de calor oceânico é uma medida planetária crítica. Ela não só determina a quantidade adicional do aquecimento global em andamento, como também equivale à redução de forçantes climáticas necessárias para estabilizar o atual clima terrestre”, completou James Hansen. A forçante climática é uma perturbação imposta sobre o balanço de energia do planeta.

Tudo acaba lá
E aí chegamos à região Antártica, onde o oceano austral forma a maior corrente marítima do mundo. Onde se encontram três massas oceânicas – Pacífica, Atlântica e Índica. E aonde chegam todos os resíduos da atmosfera. Os testes atômicos das décadas de 50 e 60, do século passado. As queimadas na África, Índia e no continente sul-americano. O carbono das queimadas tem uma assinatura própria – isótopos diferentes. Chegam duas semanas depois das queimadas na América do Sul. Os pesquisadores chamam de Black Carbon. São aerossóis que interferem no balanço radioativo de energia. Caem sobre superfícies, normalmente refletoras de radiação. Acaba contribuindo para maior absorção de energia. 84% do Black Carbon da América do Sul é originário de queima de biomassa.

A Antártica contando o continente e o oceano congelado tem mais de 45 milhões de km2, somente o continente tem 13,8 milhões de km2. É maior que o Brasil. Tem um relevo alto, média de quase dois mil metros, com picos acima de quatro mil metros. A parte mais fria, no interior do continente, conhecida como Domo A registra temperaturas perto de 90 graus centígrados. Os registros do aquecimento global também estão presentes, como não poderia deixar de ser, num sistema que funciona integrado no planeta.

Como consequência do aumento de temperatura e concentrações de CO2 na superfície do oceano Austral, tem acumulado mais calor e gás carbônico do que a média dos oceanos globais. Esta é a região onde o plâncton se reproduz. Portanto menos microalgas, menos CO2 absorvido e o ciclo continua. Os cientistas calculam em 3 graus centígrados o aumento da temperatura na região Antártica. Também aumentam os ventos do oeste que trazem calor do Equador. Levam calor para dentro da região. A Península Antártica Ocidental é onde os cientistas registraram maiores alterações. Foi constatada retração no gelo marinho do mar de Bellingshausen. É na Península Antártica que se formam as massas de ar frio que vêm em direção ao continente sul-americano. A Península fica a pouco mais de três mil quilômetros da fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai.

Uma projeção dos cientistas sobre a Antártica: se as temperaturas continuarem aumentando na atmosfera e nos oceanos, a área de cobertura por gelo marinho poderá diminuir 30%. Claro que nas próximas décadas. O problema não são as previsões ou as projeções, mas o que já está acontecendo com o oceano global. Entupido de poluição, mais quente, mais ácido, interferindo diretamente no sistema mais complexo do clima terrestre – a interação entre atmosfera e oceano. A crônica da morte anunciada.

Carta Maior