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“A imprensa vive uma crise de credibilidade”, diz Bruno Torturra, da Mídia Ninja

Nessa segunda-feira (7/10), IMPRENSA promove a segunda edição do seminário internacional mídia.JOR. Bruno Torturra, um dos líderes do Mídia Ninja (braço jornalístico do movimento Fora do Eixo), participou do painel “Os desafios da cobertura de conflitos: valor da notícia x liberdade de imprensa”.

 

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Crédito:Alf Ribeiro
Torturra defende que a rua é lugar de jornalista, tanto quanto dos manifestantes

 

 

Para o jornalista, a violência contra os profissionais da mídia durante os protestos de junho foi resultado da falta de reflexão por parte da polícia e dos manifestantes acerca do papel da imprensa em uma democracia, além de uma reação provocada pelo próprio jornalismo que, segundo a população, não representava o povo.

 

IMPRENSA – Como a cobertura da Mídia Ninja influenciou os demais meios de comunicação?

Bruno Torturra – Essa pergunta pode ser melhor respondida pelos outros veículos. Acho que provocou, de alguma forma, os veículos a estarem um pouco mais dentro das próprias manifestações. Teve uma questão estética, em que alguns veículos houve uma influência clara – de usar celulares, de entrar mais no meio das pessoas para transmitir ao vivo. E acho que gerou um debate muito forte sobre a própria mídia, em tempos de crise financeira, e sobre qual o papel do jornalista dentro de uma grande crise social e política de uma sociedade em rede.

 

Quais são os maiores desafios de cobrir uma manifestação?

Por elas não terem uma organização vertical é muito difícil você prever o que vai acontecer. Isso deixa o trabalho jornalístico ainda mais importante: você estar presente de fato, testemunhar e relatar como a coisa está se desenrolando. O desafio é você justamente não saber o que vai acontecer, você tem que estar preparado para tudo, para uma repressão policial violenta e um eventual descontrole dos manifestantes, eventos inesperados mesmo. Pessoalmente, não acho muito difícil cobrir, já que temos uma equipe muito ágil, com experiência em manifestações e equipamentos muito simples de usar.

 

Por que, na sua opinião, os jornalistas viraram alvo, tanto de manifestantes quanto da polícia?

É uma boa pergunta. Acho que isso tem dois lados. Um é a pouca reflexão por parte da polícia e dos manifestantes de entender que, se a gente de fato está em uma democracia, a imprensa é radicalmente fundamental para esse processo acontecer de maneira madura e saudável. Entender que a rua também é lugar do jornalista. Se os manifestantes estão lutando pelo direito de estar na rua, é injusto e ignorante expulsar [os repórteres].

 

Apesar de uma reação, para mim, totalmente inadequada, também tem o lado de algo que a mídia provocou nos manifestantes ao longo de muitos anos de uma erosão de credibilidade como representantes do povo. A imprensa vive uma crise de credibilidade, as pessoas identificam a mídia como parte do poder opressor. Existe uma autocrítica que a mídia precisa fazer. Mas expulsar os jornalistas e agredi-los não é justo.

 

Qual a importância que você vê em um evento como o mídia.JOR, que debate o jornalismo?

Hoje em dia, acho fundamental, pois se discute pouco o jornalismo. Tem um movimento importante começando esse processo de reflexão, de autoanálise do jornalismo. Mas, em tempos de crise financeira do jornalismo e do desabrochar de novas possibilidades tecnológicas, culturais e de redes para difusão de informação, é fundamental que o jornalista repense seu papel.

 

portalimprensa

Mídia Ninja: “tomar posição sem vestir o manto da falsa imparcialidade da grande mídia”

midiaA simultânea crise e consolidação dos veículos tradicionais também recebe no seu seio mídias agora reconhecidas como alternativas. Com modo de expor particular: o fato tal como ele se dá e “se dando”. O “ao vivo” sem pós-produção. O debate, então, é aberto obrigatoriamente sem aval da mesma grande mídia que está, hoje, enxugando suas redações e precarizando seus funcionários.

Desponta um grupo dentre estes que são conhecidos como meios alternativos de informação: o Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação). O grupo cedeu entrevista por e-mail à Carta Maior e nos contou sobre sua configuração e posição políticas.

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A iniciativa fala de dar poder aos novos protagonistas da realidade brasileira, mas também o posicionamento do mercado e Estado traz questionamentos que deverão seguir no horizonte dessa mídia que mesmo incipiente tem seu importante papel. Aprofundar e efetivar a liberdade de expressão para além do capital passa a ser hoje uma das principais pautas da expansão da democracia.

Carta Maior: Quando se iniciaram as atividades do grupo? Quantas pessoas participam do grupo e como são coordenadas suas atividades?

Mídia Ninja: O Ninja surge a partir de um acúmulo de mais de 15 anos de produção midialivrista no Brasil, de experiências que vão desde os fanzines e da blogosfera ao Fora do Eixo, rede que está em mais de 200 cidade no país e vem desenvolvendo tecnologias de comunicação e produção de conteúdo há 7 anos. Nesse processo aproximou de si outras redes, coletivos, jornalistas e midialivristas que, juntos, deram início a um projeto que ao mesmo tempo conseguiu que se fortalecesse um veiculo independente, como também catalisar uma rede de comunicação autônoma que usufrui dos frutos e ferramentas desenvolvidas durante esse histórico.

Hoje ele é uma rede descentralizada de comunicadores que buscam novas possibilidades de produção e distribuição de informação. São milhares de pessoas usando a lógica colaborativa de compartilhamento que emerge da sociedade em rede como premissa e ferramenta. A iniciativa veio à tona há meses atrás, durante a cobertura do Fórum Mundial de Mídia Livre na Tunísia. Desde então, o Ninja vem realizando coberturas por todo Brasil, apresentando pautas e abordagens omitidas na mídia tradicional.

CM: Qual, na opinião de vocês, é a função das narrativas independentes? De que maneira vocês quiseram retratar os atos e protestos dos últimos dois meses?

MN: A função das narrativas independentes é dar poder a cada vez mais gente para contar histórias a partir do ponto de vista do que estão vivendo. Mais do que uma ferramenta, é uma noção que ajuda a dimensionar a comunicação como serviço de utilidade pública.

Além de comunicadores, somos ativistas também. Quando fomos fazer a cobertura da vinda do Papa ao Brasil por exemplo, direcionamos o nosso olhar para entender quem era contra a visita de Francisco, não contra a religião, mas que protestava pela ausência de um Estado laico.

Logo, as nossas coberturas sempre explicitarão aquilo que de fato estamos vendo e vivendo. Nós também tomamos bombas em protesto, dois de nós já foram presos apenas por estar exercendo o direito à comunicação. Quando fazemos a cobertura de um protesto indígena ou quilombola, estamos de fato envolvido com aquela pauta, não se ganha legitimidade com quem está nas ruas apenas com discurso, a nossa prática de mídia precisa estar com a frequência modulada com o espaço-tempo da nossa geração.

CM: O que pensam do Marco Regulatório da Mídia? Como vocês veem o problema da mídia no Brasil?

MN: A ausência de regulação dificulta o exercício da liberdade de expressão da população, e favorece a existência de oligopólios que tanto comprometem a pluralidade nos conteúdos que são veiculados quanto a independência nas pautas.

Outro ponto: a falta de um marco regulatório não condiz com o contexto político, que apresenta o empoderamento de uma nova geração de protagonistas. As possibilidades que temos com a tecnologia disponível hoje em dia e as possibilidades de democratização da produção de conteúdo também não são contempladas.

É dever do estado também promover a diversidade de opiniões. Uma lei contribuiria necessariamente para a não criminalização dos movimentos sociais, por exemplo. Além de garantir a diversidade e o direito de manifestação e liberdade de expressão, distribuindo de forma mais equânime e democrática o recurso público ou o espectro eletromagnético.

Da forma que está hoje, a Globo recebe uma porcentagem gigantesca das verbas de publicidade do governo e uma emissora como a Jovem Pan ocupa uma faixa de espectro equivalente a de centenas de rádios comunitárias.

CM: De que maneira vocês se colocam no debate político hoje?

MN: A mídia livre é um ato político, e todo ato precede necessariamente de um debate. Tomar uma posição diante do que estamos cobrindo sem vestir o manto da falsa imparcialidade da grande mídia já é uma forma de se colocar.

 

cartamaior