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“O poder na imprensa ainda é masculino”, diz Miriam Leitão, recordista do Mulher IMPRENSA

Crédito:Flávio R. Guarnieri
Crédito:Flávio R. Guarnieri

Não é novidade que Miriam Leitão é uma das profissionais de imprensa mais premiadas do país. E, nesse sentido, o ano de 2012 foi emblemático para ela. Completando 40 anos de carreira, a jornalista se presenteou com algumas reportagens especiais que, nas palavras dela, “acabaram sendo premiadas”. Mas, enfatiza: “Não faço matérias para prêmio, mas para buscar o melhor jornalismo que sou capaz de fazer”.

Entre os prêmios, destacam-se nada menos que dois Jabutis (melhor livro-reportagem e melhor livro do ano), por “Saga brasileira: a longa luta de um povo por sua moeda”, e o 34º Prêmio Vladimir Herzog, por matéria da Globo News sobre a morte do ex-deputado federal Rubens Paiva, durante a ditadura militar. Mas, tiveram outros, muitos outros…

 

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No Troféu Mulher IMPRENSA do ano passado, tornou-se a mais premiada da história do prêmio. Nesse ano, levou seu oitavo troféu, o sexto na categoria comentarista/colunista de TV. Tudo isso, sem fazer campanha. “Não sou contra quem pede voto. Mas, gosto de saber que o voto veio espontaneamente.”

 

Na entrevista abaixo, a comentarista de economia da TV Globo, Rádio CBN e apresentadora da Globo News,  fala sobre as conquistas, liberdade de expressão no Brasil e defende que os espaços de poder do jornalismo ainda são predominantemente masculinos. “O machismo não morreu porque tem mais mulher na imprensa”.

 

IMPRENSA – Você tem ideia de quantos prêmios já recebeu?

MIRIAM LEITÃO – Na verdade, eu me surpreendo quando vejo essas contabilidades de prêmio feitas pelos jornalistas. Nunca tinha feito isso, até porque nunca faço meu trabalho para ganhar prêmio.

 

Você não acha relevante contabilizar?

Não acho. Se contabilizo, estou desprezando a pessoa que, como acontece no Troféu Mulher Imprensa, teve a gentileza enorme de entrar no site e votar no meu nome. Além disso, não me candidato, nem faço campanha. Gosto de saber que o voto veio espontaneamente. Não estou em uma corrida por prêmio, mas por fazer o melhor jornalismo que eu puder fazer.

 

O Jabuti foi um dos maiores reconhecimentos da sua carreira?

Sim. Já estava muito feliz, emocionada, chorando, quando ganhei o Jabuti por livro-reportagem. Quando chegou lá, ainda ganhei o livro do ano. Do ponto de vista da literatura, realmente, é o maior prêmio.

 

E o Prêmio Vladimir Herzog?

Foi emocionante. Minha geração foi marcada pela morte dele. Quando cheguei ao TUCA para receber o prêmio, levei a minha neta mais nova, que tem um ano, para passear no palco antes de começar a festa. Na hora, ela começou a correr no palco do TUCA, e eu me lembrei de que o TUCA foi incendiado pela ditadura. Então, estava ali recebendo o prêmio Vladimir Herzog, com os filhos do Rubens Paiva, no TUCA reconstruído, e minha neta correndo no palco. Chorei muito.

 

Como você vê o país hoje em termos de liberdade de expressão?

Como vivemos a ditadura, dou valor à liberdade que tenho hoje. Dentro das organizações Globo, várias vezes, dei opiniões que divergem do editorial. Ao mesmo tempo, recentemente, jornalistas foram mortos e ameaçados no país, sobretudo, por ameaçarem poderes locais. Liberdade de expressão é algo que você tem que ampliar e construir sempre.

 

Em relação ao partido governista, você vê algum problema em relação a isso?

De vez em quando, algumas pessoas do partido levantam bandeiras que parecem normais da democracia, mas que são de cerceamento de liberdade. Mas, a tentativa que houve no governo Lula, até hoje, foi rejeitada, e a presidente Dilma não tem se mostrado interessada nisso. Isso é valioso em um continente que está perdendo a guerra para pressões governamentais.

 

As mulheres ainda precisam quebrar muitas barreiras no jornalismo?

Sou da opinião – e, infelizmente, não tenho tido motivos para mudá-la –, de que o machismo não morreu porque tem mulher na imprensa. Os espaços de poder ainda são muito masculinos, os conselhos editoriais são predominantemente masculinos. Às vezes, vejo mulheres dizendo que esta questão de gênero não se discute mais nas redações. Não se discute porque as pessoas têm uma visão míope.

 

Gostaria de dizer mais alguma coisa?

Sim. Gostaria de dizer a cada pessoa que votou no meu nome que eu vou continuar trabalhando, enquanto eu puder, para merecer um voto de confiança.

 

 

Guilherme Sardas