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Ex-ministros, Orlando Silva e Andrea Matarazzo disputam vaga de vereador em SP

Eles foram ministros de Estado, desfrutaram das mordomias do poder em Brasília e voaram no avião presidencial para representar o país no exterior. Hoje, passam horas no trânsito de São Paulo para promover reuniões pequenas, algumas com menos de dez eleitores, de olho em uma vaga na Câmara Municipal.

Estrelas de primeiro escalão dos governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, Andrea Matarazzo (PSDB) e Orlando Silva (PC do B) são exceções no exército de 1.226 candidatos a vereador em São Paulo.

Em cada ato de campanha, os dois têm sido instados por eleitores a explicar por que afinal, depois de reinar na Esplanada dos Ministérios, agora querem ocupar um dos 55 gabinetes no viaduto Jacareí.

“É a pergunta que eu mais ouço”, diz Matarazzo, que renunciou às prévias do partido para abrir caminho ao amigo José Serra. “Meu projeto é ser prefeito, mas às vezes a gente tem que recuar…”

“Tem muita gente que se surpreende. ‘Mas vereador?’ E eu ainda sou chamado de ministro…”, comenta Silva, que deixou o governo Dilma Rousseff como um dos alvos da “faxina” do fim de 2011.

Os dois têm pouco em comum além do passado de glória na política e do fato de disputarem a primeira eleição.

Paulistano, empresário e herdeiro de uma das famílias mais tradicionais da cidade, Matarazzo cultiva imagem de sofisticação e concentra sua campanha em áreas nobres do centro expandido.

“Quem representa estes bairros na Câmara?”, perguntou na noite de quinta-feira, em minicomício no seu amplo comitê eleitoral da avenida Europa. Ele mesmo respondeu: “Ninguém!”

Os nove convidados, de regiões como Jardim Paulista, Alto de Pinheiros e Pacaembu, balançaram a cabeça em sinal de aprovação. Placas com a foto e o slogan do tucano, “Já temos em quem votar”, têm seu proliferado nas grades de casas vizinhas.

Entre as bandeiras do candidato, que já foi secretário dos tucanos Mario Covas, Serra e Geraldo Alckmin, estão o atendimento a cadeirantes, o embelezamento da cidade e a conservação das calçadas.

Com Gilberto Kassab (PSD), de quem também foi auxiliar na prefeitura, ele se irritou nesta semana após a decisão de disseminar luzes azuis nos túneis paulistanos.

“É horrível. Estão destruindo a cidade com essa cafonalha”, protestou. “Em todo lugar do mundo, os monumentos recebem luz âmbar. Estética é uma coisa importante.”

Acostumado a exercer cargos por convite, Matarazzo confessa o incômodo no novo papel de candidato. “Tenho muita vergonha de pedir votos. Fico constrangido. Não gosto de pedir nada.”

PERIFERIA

Nordestino e de origem pobre, Silva investe na identificação com os eleitores da periferia. Na última quinta-feira, ele começou seu périplo pela zona sul visitando uma vendedora de cachorro-quente recrutada pelo PC do B em campanhas passadas.

“Eu nasci em Salvador. Todo mundo aqui conhece um baiano, né?”, perguntou, em discurso para sete pessoas numa birosca da favela Pantanal, na zona sul.

Em seguida, contou a experiência de ser recusado por um táxi quando a mãe tentava levar para casa a primeira televisão da família. “Ali doeu pela primeira vez no meu coração uma coisa chamada preconceito”, disse.

O ex-ministro chegou à comunidade num Toyota Corolla prateado, mas percorreu as vielas num Gol vermelho, de modelo antigo, pilotado pelo presidente do partido em Cidade Ademar.

“Essa é uma vantagem que eu tenho. Sou negro, e tem poucos negros na política. Essas pessoas não têm nenhum problema que eu não tenha vivido”, comentou depois.

No santinho que distribui, ele se apresenta como “ministro de Lula” e exibe quatro fotos com o ex-presidente. Dilma, que o demitiu em meio a acusações de corrupção no ministério, aparece uma vez e sem destaque.

Numa reunião, ele disse ter sido vítima de “uma grande injustiça”, mas evitou fazer críticas à ex-chefe. “Lá em cima tem alguém que olha por todos nós e sabe o que todos nós fizemos”, disse.

A plateia demonstrou não ter memória do escândalo. “O marqueteiro diz para mim: ‘Orlando, não fala disso’. Mas eu não posso, porque isso feriu a minha alma”, justificou-se na saída.

A Comissão de Ética da Presidência arquivou processo contra Silva por falta de provas de participação em desvios no programa federal Segundo Tempo. Ele teve o sigilo bancário quebrado pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), e diz que provará inocência ao fim da investigação.

ESTEREÓTIPOS

Apesar de saber bem o eleitor que procuram, os dois candidatos demonstram preocupação com estereótipos.

Matarazzo diz ir quatro vezes por semana a bairros mais afastados. Enquanto a lei eleitoral permitia, ancorou uma atração aos sábados na rádio Capital AM. Nome do programa: “A cara do povo”.

Na contramão do rival, Silva busca um verniz de classe média para sua candidatura. À noite, pede votos em faculdades e teatros.

As campanhas dos dois candidatos a vereador, que recebem tratamento vip de seus partidos, prometem ser mais caras que as de alguns concorrentes à prefeitura.

Matarazzo, que tem cerca de 200 funcionários, pretende investir até R$ 5 milhões . Ele calcula precisar de 40 mil votos. Silva contratou 100 pessoas e fixou o teto de gastos em R$ 3,5 milhões. Recebeu a meta de obter 30 mil votos, mas pode se eleger com menos graças à votação de Netinho de Paula (PC do B).

Na terça-feira, os ex-ministros protagonizaram uma coincidência ao estrear na TV entre aspirantes a uma primeira chance na política. Depois de desfiar seus currículos, os dois recitaram a mesma frase para explicar por que estavam ali: “Quero colocar minha experiência a serviço de São Paulo!”

Folha