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Jornal publica esboço de ordem feito por promotor para prender Cristina Kirchner

cristina-kirchnerUma nova denúncia tumultua ainda mais a já complicada investigação da morte do procurador Alberto Nisman, responsável por apurar o caso do ataque terrorista à associação judaica AMIA, em 1994.

O jornal “Clarín” afirmou no domingo (1º) que no apartamento de Nisman foram encontrados no lixo rascunhos de uma ordem de prisão contra a presidente Cristina Kirchner. A promotora encarregada da causa da morte Nisman, Viviana Fein, negou a existência desse material em um comunicado divulgado pelo Ministério Público. O chefe de gabinete da presidência, Jorge Capitanich, foi ainda mais longe e, além de desmentir a reportagem do “Clarín” rasgou páginas do jornal numa coletiva de imprensa nesta segunda-feira, classificando a notícia como “lixo”.

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Então, nesta terça, o “Clarín” publicou fotocópias do rascunho do pedido de prisão, desmentindo Capitanich e Fein. A procuradora reconheceu que houve “um erro”, admitindo que esses papéis existem e que eles são parte de sua investigação. Ela também declarou que não recebe pressão do poder Executivo durante a apuração. “Foi um erro de interpretação”, justificou. Fein alegou que ditou a nota desmentindo o “Clarín” por telefone à sua assessoria de imprensa e que houve um “erro de terminologia, de interpretação”.

Já Capitanich voltou a dizer publicamente que a denúncia do “Clarín” é “lixo puro e sistemático”.

Atentados
Os atentados na Argentina contra a embaixada de Israel – ocorrido em 1992 e que deixou 29 mortos – e a associação judia AMIA – de 1994, com 85 mortos – continuam sem esclarecimento e o caso se complicou com a morte do promotor encarregado, Alberto Nisman.

A morte de Nisman aconteceu no mesmo dia em que ele deveria comparecer ao Congresso para explicar sua denúncia contra a presidente Cristina Kirchner, a quem acusou de acobertar participação do Irã no caso relacionado com a AMIA.

Nesse contexto, o pedido de prisão contra a presidente, achado no lixo, pode ser visto como um indício de que ele estava sob pressão antes de ser assassinado, já que, se realmente entrasse com essa solicitação, deixaria a líder do país vizinho numa situação muito difícil.

O procurador argentino Alberto Nisman, que denunciou a presidente Cristina Kirchner de acobertar o envolvimento de terroristas iranianos em atentado a centro judaico em 1994. (Foto: Reuters/Marcos Brindicci/File)O procurador argentino Alberto Nisman, que denunciou a presidente Cristina Kirchner de acobertar o envolvimento de terroristas iranianos em atentado a centro judaico em 1994. (Foto: Reuters/Marcos Brindicci/File)

G1

Kirchner quer mudar capital de Buenos Aires para cidade pacata e histórica

cristina-kirchnerCom apenas 230 mil habitantes, a pacata Santiago del Estero, no norte da Argentina, aparece pouco no noticiário do país. Mas, nas últimas semanas, Santiago del Estero virou o assunto principal na imprensa argentina.

A presidente Cristina Kirchner lançou a ideia de transferir a capital do país para a cidade, onde, devido à cultura local e às altas temperaturas normalmente registradas no verão, ainda se cultiva a tradicional “siesta” – o cochilo após o almoço herdado dos colonizadores espanhóis.

A principal justificativa para a mudança, segundo Kirchner, é a localização geográfica de Santiago del Estero.

“Com visão estratégica, deveríamos pensar em um desenho territorial diferente porque o mundo mudou”, afirmou a presidente argentina durante visita à cidade no final de agosto.

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Segundo Kirchner, a transferência de Buenos Aires para Santiago del Estero aproximaria a Argentina de novos mercados de exportação, como a região asiática.

“Como dirigentes devemos nos adiantar [aos fatos]. Hoje, nosso comércio está cada vez mais orientado ao Oriente. Do mundo desenvolvido, só chegam crises e problemas. Enquanto do outro lado [países asiáticos] cada vez compram mais nossos produtos”, afirmou.

‘Saída para o Pacífico’
Conhecida como “mãe das cidades”, por ser a mais antiga do país, Santiago del Estero – ou apenas Santiago, como é chamada pelos argentinos – foi fundada em 1563 e se localiza a cerca de 1,2 mil km de Buenos Aires.

Historiadores lembram que a cidade de Santiago del Estero foi disputada pelos incas, pelos espanhóis e pelo Chile, nos séculos 15 e 16.

Também está a 400 km da fronteira com o Chile, país banhado pelo Oceano Pacífico e que, como o Peru, é visto como “porta de entrada” para a Ásia.

Já Buenos Aires se localiza às margens do Rio da Prata, próxima do Uruguai e do Brasil.

“Também temos de pensar como região, como Mercosul, Unasul, América do Sul”, completou Cristina.

Críticas
A proposta de Kirchner gerou polêmica e dividiu a opinião pública argentina. “Deve ser uma brincadeira”, disse o senador opositor e cineasta Fernando Pino Solanas. “Se o governo quer uma saída para o Pacífico, que realize uma política externa adequada”, afirmou a senadora Laura Alonso, também da oposição.

No entanto, nem mesmo Kirchner demonstra confiança na viabilidade de sua proposta.

Na terça-feira, em pronunciamento na TV, a presidente exaltou a capital Buenos Aires e anunciou que a cidade abrigará o prédio “mais alto da América Latina”, ainda a ser construído.

Santiago del Estero é a cidade mais importante da província de mesmo nome, governada por Claudia Ledesma Abdala, e considerada uma das mais pobres do país. As indústrias são raras e as principais fontes de receita da região são a agricultura, o comércio, o funcionalismo público e o turismo.

Abdala – os sobrenomes de origem árabe são comuns na região – sucedeu seu marido, o senador kirchnerista Gerardo Zamora, como governadora de Santiago del Estero após a Justiça ter impedido a candidatura dele.

Atualmente, Zamora é presidente do Senado argentino e terceiro na linha sucessória à Presidência, após Kirchner e o vice-presidente, Amado Boudou.

G1

 

Analista afirma que os Kirchner preferem conflito como forma de governo

Na avaliação de Maria Esperanza, Néstor e Cristina garantiram com o enfrentamento a principal conquista desde 2003 (Foto: Casa Rosada)

Agentes e presidentes da ditadura, Poder Judiciário, produtores rurais, Grupo Clarín: a lista de gente incomodada com os Kirchner cresce sem parar de 2003 até hoje, e não se resume a quatro ou cinco nomes. Se no começo a busca pelo conflito foi intuitiva, hoje é racional, avalia a analista política Maria Esperanza Casullo, professora de las universidades de Rio Negro e Di Tella, em Buenos Aires.

“O maior problema da democracia argentina de 1983 para cá foi a fraqueza do poder político, a debilidade em construir autonomia em relação ao poder econômico”, afirma, em entrevista à RBA. “Este, para mim, é um dos maiores avanços dos dez anos de kirchnerismo. Conseguiu-se construir uma maior autonomia do poder político, Executivo e também do Legislativo, com respeito aos grupos empresariais.”

A conversa foi realizada em meio à tormenta entre governo, Judiciário e Clarín em torno da Lei de Meios. O maior grupo midiático do país conseguiu em 6 de dezembro a extensão da liminar que venceria no dia seguinte, e que o desobriga de cumprir com os mecanismos de desconcentração do controle das emissoras de rádio e televisão. Uma semana depois, vitória da Casa Rosada, com decisão judicial pela constitucionalidade da legislação. Mas, após três dias, nova sentença pró-Clarín, que recuperou a validade da liminar que o ampara.

Para a analista, nada que chegue a atrapalhar Cristina Fernández de Kirchner, já que ajuda a mostrar que o governo não ostenta o poder desmedido de que lhe acusam alguns meios de comunicação. “A sociedade argentina é antihegemônica, não gosta em geral de uma acumulação de poder”, argumenta. “A este governo convém ter um mecanismo de construção de poder mais amena frente à sociedade, e não passar a impressão de que tem um poder tão frontal.”

Confira a seguir trechos da entrevista concedida à RBA.

Como se analisa o conflito entre governo, Judiciário e Clarín?

De 1983 até aqui se avançou muito na construção do Poder Legislativo, no Executivo, mas o poder que não está sujeito à luz do público é o Judiciário. E as relações do Poder Judiciário com os sucessivos governos e, mais que nada, com grupos empresariais sempre existiram, mas ninguém falava disso. É a primeira vez que se tematiza essa relação. Um dos juízes que está no caso Clarín foi recusado porque foi a férias pagas de 15 dias a um hotel luxuoso pagas pelo Clarín.

A Justiça na Argentina é um poder que vem há muitos anos em um sistema muito corporativo, é um poder que não gosta de ser apertado pelo governo de turno. Não gosta de ser pressionado. E tem diversos laços com grupos empresariais. É isso que atuou neste caso.

Há também um erro do governo em avançar do conflito com o Clarín ao conflito com a Justiça. Embora também seja difícil pensar em não antagonizar-se com eles porque se tem um juiz que vai de férias pago pelo Clarín, como fazer? Além disso, é um governo que tende a ser muito frontal.

A senhora escreveu que este é um governo que gosta do conflito. Não só não foge como o procura. Esta foi uma postura intuitiva ou racional?

Em algum momento foi intuitivo. Em outro momento foi racional. O maior problema da democracia argentina de 1983 para cá foi a fraqueza do poder político, a debilidade em construir autonomia em relação ao poder econômico. Raúl Alfonsín tentou fazer isso na década de 1980 com um governo relativamente de esquerda. Os atores econômicos e empresariais perderam rapidamente a confiança no governo, houve uma crise inflacionária. Durante o menemismo houve estabilidade, mas, bom, não houve autonomia do governo em relação aos setores econômicos. Foi uma paz social ao custo de que o governo se rendesse a todas as políticas do setor empresarial.

Este, para mim, é um dos maiores avanços dos dez anos de kirchnerismo. Conseguiu-se construir uma maior autonomia do poder político, Executivo e também do Legislativo, com respeito aos grupos empresariais. Não se pode esquecer que Clarín não é apenas um meio de comunicação. É um dos grupos empresariais mais importantes da Argentina. Tem o principal distribuidor de sinal de TV a cabo, controla Papel Prensa, foi sócio de Goldman Sachs e fez operações muito complexas no mercado financeiro. Não é só um enfrentamento com um diário.

Nesta série de enfrentamentos o governo aprendeu que uma das principais cartas é administrar o fator-surpresa. Este governo não tem vazamento de informações. Anuncia a estatização de YPF e até o dia anterior ninguém sabia. A outra é que todos os atores econômicos e sociais do país sabem que se você enfrentar o governo, o governo vai para cima. Então é muito complicado que os diferentes atores assumam os custos deste acirramento. É muito provável que enfrentando o governo se saia destruído. Então, esta dureza é muito racional.

Para o governo, quais os limites deste conflito? Em qual contexto isso deixa de funcionar?

Os limites são dois. Os primeiros são os que são colocados pelas instituições que na Argentina funcionam. Não estou definitivamente de acordo com essa ideia de que há um atropelo institucional. Em 2008 o Senado votou contra o governo a Resolução 120 [que aumentava os impostos sobre as agroexportações. Aí há um limite. O outro limite é social. Ou seja, quando a sociedade se cansa da escalada de conflito ou vê que se passou uma fronteira tolerável do que é construir o poder.

A pergunta vital no caso da Lei de Meios é se a Corte Suprema vai dizer se é constitucional ou não. O melhor cenário para o governo é que a Corte Suprema diga que é. Se isso ocorre, obviamente estamos pensando em um processo de dois, três, cinco anos em que o Clarín vai fazer recursos de absolutamente tudo que possa. Mas, se a Corte diz que é constitucional, todo o resto é secundário.

Agora, se a Corte diz que é inconstitucional, seria o primeiro exemplo de que tenho memória de 1983 para cá de que o Judiciário diz para deixar para trás uma lei consolidada. Todos os grupos, salvo o Clarín, já manifestaram por escrito o cumprimento da lei. Isso seria um limite muito claro e uma situação de crise institucional inédito.[bb]

A outra questão é que há um cansaço social muito grande que não sei como se expressaria. Provavelmente uma derrota nas eleições legislativas no ano que vem.

Atente para o fato de que não estou citando os partidos de oposição. Eles hoje não têm condições de colocar limites ao governo. São os outros poderes, ou a sociedade.

Depois do fracasso nas eleições presidenciais do ano passado, esperava-se um novo discurso e uma nova liderança. Mas são os mesmos de sempre.

Faz meses que venho publicando artigos sobre isso. Não é que eu tenha a bola de cristal, mas é evidente que a oposição vem fechada no microclima do Clarín, falando dos temas que interessam ao Clarín e que não interessam à sociedade. A oposição precisa encontrar um discurso econômico, que expresse claramente uma alternativa econômica ao governo. O tema central é o econômico. Clarín é secundário aos temas reais do país, que são outros, são o crescimento, o emprego, os impactos da crise internacional, a inflação. É articular um discurso que fale diretamente à sociedade e que seja menos “governocêntrico”, ou seja, que deixe de comentar o tempo inteiro o que está fazendo o governo. Não falam à sociedade. Este é o grande desafio que tem a oposição daqui até 2015.

Parece que Maurício Macri e Hermes Binner querem fazer um discurso de que o kirchnerismo teve seu lugar, teve dez anos, e agora é um governo que já foi, passou. Que é preciso pensar como se segue adiante, pensando os problemas de agora. E deixar de discutir se o kirchnerismo é satânico ou não. Se os Kirchner vão para casa amanhã, o país já mudou, não poderá voltar aos anos 1990. Em algum sentido é parecido ao que vimos na última campanha do PT no Brasil: a dúvida entre criticar um governo e dizer que se pode fazer melhor que um governo bem avaliado. Isso é o que não conseguem articular.

O interessante da Argentina é que, ainda que existam figuras relativamente novas, como Binner, acabam tragadas. Centrados em um discurso sobre temas institucionais, sobre ameaças à República. São discursos que não têm ressonância na sociedade porque a sociedade não entende que haja ameaças à República. A sociedade está preocupada com a inflação, com a manutenção dos salários em um contexto de crise econômica. A sociedade fica nervosa com os trens, que são lentos, com as tarifas de eletricidade. O povo votou em Cristina em 2011. Então, dizer que este é um governo totalitário é o mesmo que chamá-los de estúpidos. Este é o grande desafio.[bb]

Note-se que as principais figuras políticas não se meteram no conflito com o Clarín. Os que criticam são figuras marginais. Se eu fosse Binner, Macri ou qualquer político com pretensões de chegar ao poder central estaria feliz e agradecido com que o kirchnerismo rompa o grupo monopólico. O presidente que governe depois deste conflito vai governar com um fator de pressão menos. O Clarín é um fator de pressão impressionante. Antes de votar qualquer lei, apareciam no Congresso assessores de Clarín escolhendo a pauta de votação e oferecendo recompensas e ameaças.

Os panelaços de novembro, como interpretá-los? O que estava expressado aí?

Foram algo muito interessante do ponto de vista da sociologia política. Expressam diferentes coisas. Para mim expressa sobretudo que há um grupo social na Argentina que é profundamente antikirchnerista e que não tem representação política. Se este pessoal tivesse alguém que falasse com eles, seguramente não teriam saído de casa.[bb]

Isso me faz lembrar o que foi o final do menemismo na década de 1990. Quando apareceu o Frepaso, a figura de Chacho Álvarez, que era um pouco a voz que representava os setores de classe média urbanos, ele falava por esses setores. Este pessoal hoje não tem quem fale por eles.

Ao mesmo tempo o panelaço manifesta um rechaço a certas medidas do governo, especialmente de caráter econômico, sobretudo do dólar, que na Argentina é uma questão muito profunda. A poupança, uma questão simbólica, o dólar é um horizonte de desejo muito forte para a classe alta, a classe média e a classe média-baixa. A mim chamou atenção que não houvesse mais manifestações frente à decisão do governo de controlar o mercado do dólar. Nem tanto pelo impacto econômico, mas porque os argentinos economizam em dólares há pelo menos 40 anos. É o que permite viajar ao exterior, sentir-se parte do mundo.[bb]

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Lei de Meios deve ampliar chances de Cristina Kirchner emplacar sucessor

Atual vice-presidente, Amado Boudou, não é visto como potencial sucessor de Cristina Kirchner, por enquanto (Foto:Pablo Busti/RBA)

Mesmo após um ano conturbado, com considerável perda de aprovação popular, a presidenta da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, segue com uma oposição incapaz de fazer sombra ao governo. Vitoriosa em 2011 com um dos resultados mais expressivos da história democrática do país, a titular da Casa Rosada vê do outro lado do front as mesmas figuras que não conseguiram lhe impor dificuldades em outros momentos.

“A impossibilidade de que Cristina Kirchner tenha um novo mandato provoca uma interrogação bastante complexa dentro das próprias filas do peronismo e nas filas da coalizão que apoia o governo”, afirma o analista Edgardo Mocca, professor titular da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires.

Em entrevista à RBA, ele avalia que a oposição fica muito atrelada a uma agenda montada pelos grupos conservadores da mídia argentina, em um discurso que não chega à população. São “pré-caprilistas”, afirma, em referência a Henrique Capriles, adversário de Hugo Chávez este ano na disputa pela presidência da Venezuela, finalmente impondo alguma dificuldade ao líder sul-americano. Com este quatro interno, é de se esperar turbulências dentro do Partido Justicialista, de Cristina, à medida que se aproxime a disputa sucessória, em 2015.

A conversa foi feita na véspera do 7D, data-chave na aplicação da Lei de Meios Audiovisuais, sancionada em 2009 e que visa a promover a diversificação dos meios de comunicação. “Obviamente este não é um caminho de rosas, nem um futuro simples”, avalia Mocca, que comemora a tentativa da Casa Rosada de tocar em uma questão fundamental da democracia argentina, que é a subordinação da política ao poder econômico.

Confira a seguir trechos da conversa.

Que avanços podemos esperar desde que se conclua este processo da Lei de Meios, com a divisão do espectro em três pedaços iguais?

Este é um processo que tem algum grau de execução, embora ainda falte muito para concluir. Há um algo chave que é a presença forte de vozes públicas não estatais, ou seja, comunitárias, sindicais, juvenis, femininas, agrárias, dos povos originários, de universidades. Este é um futuro que obviamente não é imediato, não é mágico, não é vertiginoso. Mas é a criação de um horizonte para um sistema de comunicação social na Argentina que estabeleça um poder de emissão e de produção de conteúdo por parte de setores que até agora não estavam presentes.

Por outro lado, o fato de que se tenha um setor privado com total competitividade e melhor manejo das licenças vai facilitar uma melhor circulação da palavra. Há promissórios horizontes em termos de ocupação, de permitir que todo um setor dos trabalhadores vinculado direta ou indiretamente ao setor de comunicação tenha melhores condições. E aí não é só uma conquista, mas também um desafio. Porque não será simples empoderar setores sociais para que exerçam com plenitude estes direitos que se incorporam. Há bloqueios de ordem empresarial, de iniciativa, de organização, de capacitação no terreno da comunicação que seguramente vai levar a um processo intenso, longo e muito exigente.

Politicamente seria um problema para o governo esperar a decisão definitiva, em vez de jogar tanta força no 7D?

Não. É evidente que a data, em grande medida pela orientação adotada pelo governo, adquire um caráter muito forte. Mas estamos próximos de uma decisão definitiva. Seria realmente preocupante que demorasse uma sentença definitiva do juiz Horácio Alfonso porque estão dadas todas as condições. É uma lei que já tem um nível de conversação, um grau de mobilização social e uma discussão parlamentar. Estamos às vésperas de uma decisão judicial a favor da constitucionalidade da lei. Terminou-se, eu diria, a etapa do direito cautelar, ou seja, a ideia de que um recurso justo e democrático, como é a liminar, possa se converter em um circuito de sistemática obstrução da lei.

A forma como se trataram estes temas em termos de justiça cria condições para avanço no sentido de ir colocando normas sobre as liminares. Elas devem estar cada vez mais concentradas na garantia de direitos individuais, e não podem dar lugar a uma indústria profissional de obstrução deliberada de decisões do Estado.

Como o senhor analisa a argumentação do Clarín de que está havendo denegação de justiça?

É um argumento fraudulento. Esta lei foi aprovada há três anos. O Clarín demorou nove meses, uma vez que obteve a liminar, em produzir o passo seguinte, que é a apresentação de sua posição. Seguramente da parte do governo também houve algumas improcedências, mas está muito claro que o grupo Clarín tentou ganhar tempo. Se uma lei que prevê um processo de adequação que será levado a cabo em um ano, e já se passaram três anos apenas nos meandros do Judiciário, estamos falando praticamente de uma legislação. Isso significa, na prática, que o Judiciário reinterpretou uma decisão do Congresso argentino ao passar de um para três anos o prazo estipulado para o desinvestimento.

A denegação de justiça neste caso é para a sociedade argentina porque está retardando um prazo que a lei fixou claramente de 2009 para 2010. Estamos nas vésperas de 2013 e ainda não se pôde executar. A denegação é para todos os que demandamos uma comunicação democrática, não monopólica.

Abriu-se uma frente de debate sobre a democratização do Judiciário após as decisões favoráveis ao Clarín.

Todo mundo sabe que na Justiça argentina funcionam muitas redes de interesses com os setores mais concentrados da economia. Para olhá-lo desde outra perspectiva, perguntaria quantos argentinos que se veem afetados por determinada lei conseguem retardar em três anos a aplicação da mesma. Se eu tentar alguma coisa parecida acho que será difícil.

O Grupo Clarín está dando provas, ao longo de sua história, de que aprovou leis com nome e sobrenome.  Isso, que parece tão confuso e tão inexplicável, é simplesmente a revelação de um estado de coisas na democracia argentina que obviamente é uma pendência. Toda a questão judicial, que vem da ditadura, segue aí. Uma parte dos juízes postergou o quanto pôde o julgamento dos responsáveis pelo terrorismo de Estado. De modo que falar do Poder Judiciário argentino como uma espécie de lugar celestial, de competência, igualdade e imparcialidade, é forçado. É tentar mostrar um Poder Executivo avançando sobre o Poder Judiciário, quando se trata justamente de o Executivo defender a aplicação de uma lei votada.

O Poder Judiciário não tem funções legislativas, não pode debater as leis. Mas abriu nos últimos meses uma instância em que parece que estamos discutindo a lei. Mas a lei já se aprovou, já se sancionou. Há uma pendência sobre a transparência e o Poder Judiciário na Argentina. Isso não se resolverá por decreto. É evidente que a democracia deve ser defendida. Tudo o que se possa fazer em matéria de legislação, de reformas favoráveis à democracia está sempre colocado entre parênteses se não se tem um Judiciário livre das amarras econômicas. Há quem entenda o Judiciário como um lugar de enlace com os setores privilegiados da sociedade.

De maneira geral, como se avalia este primeiro ano do segundo mandato?

Foi um ano bastante complexo. E que tem a ver com temas conjunturais. A Argentina está vivendo, como todo mundo, o contexto de uma situação crítica, que vem de muitos dos países centrais e tem grande implicação sobre o funcionamento de nossa economia. Tivemos uma interrupção do crescimento, dificuldades para defender a balança comercial.

E o governo sofreu uma pressão muito forte do ponto de vista econômico-financeiro. É um país em que as manobras especulativas produziram situações muito graves de instabilidade em muitos momentos da história. Isso é cíclico. A Argentina se saiu até agora de forma muito inteligente. Não sem custo porque algumas medidas que se tem de tomar em defesa das divisas argentinas, como a retenção dos dólares, produz insatisfação em uma parte dos assalariados, os melhores remunerados.

A outra questão problemática da agenda do governo são as dificuldades de autosucessão. A impossibilidade de que Cristina Kirchner tenha um novo mandato provoca uma interrogação bastante complexa dentro das próprias filas do peronismo e nas filas da coalizão que apoia o governo. Está colocada a incógnita de como poderia continuar-se a aplicação de um projeto político diferente a tudo que veio antes em uma situação de centralidade na figura da presidenta. Não havendo possibilidade de nova reeleição, facilita-se o surgimento de dissidências internas dentro do Justicialismo que vão dar a pauta da política imediata.

E a oposição?

Não acredito na iminência de uma força claramente opositora e alternativa. Não há liderança, estrutura ou projeto que  possa projetar uma mudança do partido que tem o governo. A grande questão para os que apoiam Cristina é encontrar uma fórmula sucessória que evite uma forte disputa interna. Há gente que aceita a liderança de Cristina, mas que não aceita que Cristina escolha seu sucessor.

O modelo Lula-Dilma não é de aplicação fácil na Argentina. Os setores mais tradicionais do peronismo medem os tempos para uma discussão sobre a sucessão que tem muito a ver com os tempos políticos. A candidatura de algum governador mais independente frente à conduta de Cristina não seria uma sucessão natural, uma mera continuidade. Seria uma interrogação sobre o projeto político em curso.

Algumas medidas foram tomadas com claro grau de improviso, provocando mal-estar na população, de modo que se formou um ano complicado. Não um ano catastrófico, como pinta a direita, manipulando pesquisas. Porque as sondagens, ainda que mostrem uma queda na aprovação popular da presidenta, em qualquer cenário em que Cristina seja candidata segue sendo amplamente majoritária sua votação. É um problema de erosão, produto de um ano muito complexo, de uma dificuldade sucessória e de falhas de gestão. Foi um ano em que houve um problema muito grave na linha de trem urbano, foi o ano máximo da colocação em cena da Lei de Meios, o que recrudesce o conflito. Um governo que não tivesse nenhum ônus com tudo isso não existiria.

Quando se olha hoje para a oposição, que se manifesta especialmente pelo Clarín, nota-se que são os mesmos que em 2011 sofreram uma imensa derrota. Por quê?

O problema de liderança é um problema de projetos, não de caras. Então, estruturalmente há um problema aqui que a índole do governo, de 2003 para cá, é o tipo de política pública que se desenvolveu, que cria uma dificultade para fazer uma oposição orgânica e um projeto orgânico alternativo que não seja, de alguma maneira, uma volta ao paradigma neoliberal. É muito difícil fazer uma oposição de esquerda a um governo que produziu profundas mudanças na distribuição de renda, no exercício da soberania, na integração regional.

Um projeto político não pode ser julgado por uma intenção, mas pelos resultados concretos da política. Voltar ao imaginário neoliberal, em um momento em que o mundo está com uma profunda interrogação sobre a continuidade deste tipo de esquemas, que são espaços profundamente antipolíticos e antidemocráticos porque colocam na mão da tecnocracia, da burocracia financeira, temas centrais para a democracia.

Outro grande problema é o que chamo de matriz midiático-cêntrica da oposição. A oposição não consegue uma matriz de desenvolvimento político, programático, social, que não dependa do livreto elaborado pelos grandes meios de comunicação. E este ano, depois de uma derrota, como você disse, imensa, a verdade é que esta matriz midiático-cêntrica estava esgotada. Mas a verdade é que estranhamente ela se mantém e se aprofunda. Praticamente não há líder que possa criar recursos próprios.

De manhã sai um assunto na capa do La Nación ou do Clarín, e à tarde os principais cabeças da oposição saem a interpretar esta capa. Qual o problema? Que este discurso, dos setores oligopólicos da comunicação, é o discurso dos setores mais recalcitrantes, é um discurso que tem dificuldade para apelar a uma grande massa, a gente que votou em Cristina e vê problemas, mas que entende que muitas coisas estão bem.

A oposição argentina é pré-caprilista, não aprendeu ainda a escolha da oposição venezuelana, que construiu uma candidatura que finalmente perdeu, mas que desafiou seriamente o governo de Hugo Chávez ao dizer que há coisas boas, bem feitas, mas que há muitas coisas que não gostam e que precisam ser superadas.

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