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Estudiosos veem na exumação de Jango a chance para esclarecer um episódio obscuro de nossa história

Jango (direita) durante encontro em Brasília com o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, em 1962 (Foto: Flickr Kemon01)
Jango (direita) durante encontro em Brasília com o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, em 1962 (Foto: Flickr Kemon01)

Em 2006, o ex-agente do serviço de inteligência do governo uruguaio Mario Neira Barreiro revelou que havia espionado o ex-presidente João Goulart em seu exílio no Uruguai e que tinha participado de um complô para trocar os remédios de Jango por uma substância mortal.  O relato foi passado a João Vicente Goulart, filho do ex-presidente. Um ano depois, a família de João Goulart solicitou ao Ministério Público Federal (MPF) o pedido de novas investigações.

É para esclarecer essa controvérsia sobre a morte de Jango que peritos estrangeiros e da Polícia Federal vão examinar os restos mortais do ex-presidente, que estava enterrado em São Borja, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Jango morreu em 6 de dezembro de 1976 em sua fazenda em Mercedes, na Argentina. Ele sofria de problemas cardíacos e teria tido um infarto. No entanto, a causa nunca foi confirmada e nenhuma autópsia foi realizada na época.

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“As circunstâncias que ele foi enterrado são muito complexas e cheias de mistérios. Na época, a ordem dos militares foi de não abrir o caixão e enterrar rapidamente. Eu coloco sob suspeita esse comportamento da ditadura de não ter feito exame para diagnosticar o motivo da morte”, diz o cineasta Silvio Tendler que lançou o filme “Jango”, ainda ditadura militar, em 1984.

Para Tendler, todo esse processo de descoberta da verdade é um marco na história do País. Segundo ele, muitas coisas ainda são obscuras e precisam de uma explicação.

Em suas pesquisas para a elaboração do documentário, o cineasta entrevistou a família e funcionários de Jango no período em que ele esteve exilado. Segundo ele, o ex-presidente estava sendo ameaçado de morte diariamente.

“Um dos funcionários de Jango da fazenda em Mercedes, na Argentina me relatou que, cada vez que Jango dava partida na ignição do carro para sair, todos na casa saiam de perto e se abaixavam com medo de uma bomba explodir”.

Um dos vários biógrafos de Jango, o historiador Jorge Ferreira lembra que João Goulart foi o único ex-presidente do País a morrer no exílio e sem reconhecimento.

“A homenagem é a reafirmação do processo democrático no Brasil”, afirma Ferreira.

“Sua história tem que ser respeitada e valorizada. Goulart tinha como características fundamentais o nacionalismo, o estatismo, o desenvolvimentismo, a intervenção do estado na economia e nas relações entre patrões e assalariados, a manutenção e a ampliação dos benefícios sociais aos trabalhadores, a reforma agrária e a liderança política partidária de grande expressão. Creio que muitas dessas tradições inventadas pelos trabalhistas ainda estão presentes entre as esquerdas brasileiras”, analisa o historiador.

Fonte:
Portal Brasil

Operação Condor: Documentos mostram que Jango era monitorado

 

Deposto pelo golpe militar em 1964, o ex-presidente João Goulart, o Jango, exilou-se com a família no Uruguai e, depois, na Argentina. No entanto, mesmo depois de retirado da Presidência da República, continuou sendo alvo do regime militar.

Fotos e documentos exclusivos do Arquivo Nacional, obtidos pela TV Brasil, mostram que João Goulart era vigiado pelos militares, inclusive em momentos privados, como durante a festa de aniversário em que comemorou 55 anos.

Para o neto de Jango, Christopher Goulart, o avô sabia que era vigiado, porém isso não o incomodava. “Ele não se importava muito, não era uma coisa que o incomodava”.

Um documento do Serviço Nacional de Informação (SNI) mostra que as correspondências do ex-presidente eram constantemente lidas e analisadas pelos militares. No próprio documento, datado de 1966, um agente militar revelou que as cartas de Jango eram obtidas de forma clandestina. Em outro documento, o Centro de Informações do Exterior (Ciex) traz informações sobre uma viagem de Jango para a Argentina. A partir dos detalhes da viagem, os militares classificaram que Jango estava se preparando para retornar ao Brasil.

Para o historiador e coordenador do curso de história da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Enrique Padrós, João Goulart foi vítima da Operação Condor, ação conjunta de seis países sul-americanos, inclusive o Brasil, para reprimir opositores às ditaduras militares da região. A operação foi criada oficialmente em 1975, mas começou antes, como mostra a reportagem da TV Brasil. “Ele foi sistematicamente vigiado, foi sistematicamente atingido, com essa coisa de infiltrarem pessoas ou, talvez, infiltrarem mecanismos para obter informações”, completa.

Em 6 de dezembro de 1976, Jango morreu na cidade argentina de Mercedes, onde também viveu durante o exílio. A certidão de óbito diz que o ex-presidente foi vítima de um ataque cardíaco. A família, no entanto, suspeita das circunstâncias da morte de Jango, pelo fato de que o ex-presidente estava se organizando para voltar ao Brasil com o intuito de atuar contra o regime militar. “É claro que é muito suspeita [a morte de Jango]. É óbvio que é muito suspeita e, enquanto for suspeita, tem que se investigar”, defende Christopher Goulart.

Depoimentos do ex-espião do serviço de inteligência da polícia uruguaia Mário Neira alimentam a teoria de assassinato. Preso em Porto Alegre há mais de dez anos por crimes como contrabando de armas, Neira disse que uma operação foi montada para envenenar Jango. A decisão, segundo ele, foi tomada em uma reunião com representantes do governo uruguaio, do Serviço de Inteligência Americano (CIA) e o delegado Sérgio Fleury, então chefe do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de São Paulo. “Foi uma operação muito prolongada e a gente não sabia que teria como objetivo a morte do presidente João Goulart”, relatou.

Segundo Neira, os remédios de Goulart, que sofria de problemas do coração, foram trocados por comprimidos com uma substância que acelerava os batimentos cardíacos e provocava uma parada cardíaca. “Os remédios vieram da França e foram recebidos na gerência do Hotel Liberty. Foi um araponga que foi colocado neste hotel, porque os remédios ficavam em uma caixa-forte, uma caixinha mesmo de segurança. Em cada frasco, foi colocado um comprimido, apenas um comprimido com o composto que tinha uma ação que provocaria uma parada cardíaca. Acho que ele tomou coincidentemente naquela noite [o veneno], porque todo o relato da dona Maria Tereza [mulher de Jango] fala dos sintomas que encaixam com o que acontece quando a pressão sobe, baixa constrição dos vasos.”

Com base no depoimento de Neira, a família de João Goulart pediu uma investigação ao Ministério Público Federal (MPF). Mas o processo foi arquivado pela Justiça sob o argumento de que o crime prescreveu.

Com a impossibilidade de investigação no Brasil, o procurador federal Ivan Marx recorreu à Justiça argentina. “Fui até Paso de Los Libres [próxima à cidade de Mercedes], na Justiça Federal argentina competente, e solicitei uma investigação sobre a morte do João Goulart. Existe a Lei de Anistia e todo esse problema que hoje estamos tentando processar no Brasil, mas, diante de todas as dificuldades, achei importante provocar a Justiça argentina, pois o fato ocorreu lá. Eles têm uma competência territorial para investigar os fatos”, explicou.

O historiador Enrique Padrós defende esclarecimentos sobre a morte de Jango. “É muito grave um país como o Brasil, até hoje, não ter certeza de como faleceu o único presidente que morreu fora, exilado.”

A TV Brasil iniciou segunda-feira (15) a exibição da série jornalística, com quatro reportagens, sobre a Operação Condor. Até o dia 19, o Repórter Brasil Noite vai exibir uma reportagem, sempre às 21h, com reprise no Repórter Brasil Manhã, às 8h. Depoimentos completos, fotos e documentos estão disponíveis no portal da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), no endereço www.ebc.com.br/operacaocondor.

Fonte: Agência Brasil