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Aprovada em concurso é barrada por ser ‘gordinha’; protestou no Facebook

concursoAprovada em um concurso público da rede estadual de ensino, uma professora de Bariri, no interior de São Paulo, pode não assumir o cargo por ter sido considerada obesa. Professora de inglês e português, Mariana Cristina Justulin, 27 anos, já leciona para alunos da educação infantil e médio em três escolas municipais da cidade, mas foi considerada inapta pelos peritos do Departamento de Perícias Médicas do Estado (DPME) que a classificaram como obesa nível 3, com Índice de Massa Corporal (IMC) de 43.

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A professora conta que se submeteu aos exames de saúde exigidos pelo edital e que todos os resultados deram normais. Foram cerca de R$ 1 mil em despesas. No momento da avaliação clínica, também exigida no processo seletivo e que foi feita em Bauru (SP), ela foi informada pelo médico que estava apta para desempenhar a função de professora da educação básica. Porém, quando o resultado foi publicado no Diário Oficial, veio a surpresa. Mariana havia sido considerada inapta pelos peritos.

Para reprová-la o DPME se baseou no IMC, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a principal referência para classificação das diferentes faixas de peso. O cálculo leva em consideração o peso e a altura da pessoa. O índice considerado como “peso ideal” varia entre 18,5 e 24,9. Mariana questiona o veto já que o critério adotado não é especificado no edital que diz apenas que o candidato deve “gozar de boa saúde”.

“Eu não tenho nenhum problema de saúde. Eles não olham a capacidade intelectual da pessoa. Não preciso correr em sala de aula, não sou nenhuma atleta. Ano passado eu trabalhei como professor eventual no Estado. Então para ser eventual eu servi, mas para ser efetivada não?”, questiona.

A professora revela que se sentiu discriminada. Mariana postou um desabafo em sua página pessoal do Facebook e a mensagem foi compartilhada por centenas de pessoas. Ela recebeu inúmeras mensagens de apoio.

“A confiabilidade e seriedade de um concurso podem ser verificadas pela coerência da apresentação de critérios de exclusão em seu edital. Se o IMC é um fator desclassificatório, por que não há no edital nenhuma menção sobre isso? Caso soubesse dessa condição, não teria estudado e gastado tanto dinheiro, a fim de provar o que já sei: possuo saúde e capacidade. Deixo claro que lutarei até o fim para conquistar definitivamente esse cargo, que obtive com muito esforço e dedicação. Sou professora, tenho mérito e competência para exercer meu ofício. Em épocas de luta contra o bullying, o próprio governo, com critérios fúteis e leis obsoletas, exerce sobre cidadãos uma espécie de discriminação e coerção muito mais agressivas das praticadas pela sociedade”, desabafou na rede social.

“Método vago”, classifica nutricionista
Para a nutricionista Marina Palaro Massucato, usar o IMC para avaliar a saúde de uma pessoa consiste em um método vago. “O IMC avalia se uma pessoa está obesa e isso não significa, necessariamente, que ela tenha problemas de saúde. Quem tem obesidade está mais propenso a ter problemas cardíacos e diabetes, por exemplo, mas ela não têm. Se os exames deram todos normais, podemos dizer que ela tem boa saúde”, explica. Ela também recrimina a atitude do Estado. “Foi um ato extremamente preconceituoso e poderíamos até considerar bullying. E isso curiosamente partiu do Estado, que é tão contrário ao bullying”, avalia.

Mariana recorreu da decisão com um pedido de reconsideração da perícia e aguarda ser convocada para novos exames. Caso o recurso seja negado, ela pode ainda recorrer diretamente ao secretário de Gestão Pública do Estado, Waldemir Aparício Caputo. Paralelamente ao pedido, a professora avalia ingressar na Justiça contra o Estado com uma ação por danos morais.

O que diz o DPME
Em nota, o DPME informou que no momento da contratação de efetivo é feito um prognóstico de toda a carreira pública, considerada, em média, de 30 anos. “É obrigação da administração pública zelar pelo interesse coletivo e provisionar futuros custos que caberia ao Estado arcar, como licenças médicas e afastamentos. O que não significa, entretanto, que o candidato não tenha condições de exercer sua profissão”, diz a nota.

“Ao abrir um concurso, o Estado é o mais interessado em que as pessoas preencham as vagas oferecidas; já que o processo gera custos. Todavia, que sejam preenchidas dentro do que a lei determina. A perícia médica é uma etapa posterior, na qual os norteadores não se baseiam somente na obesidade mórbida, mas sim em toda doença considerada grave”, explica o departamento.

O DPME justifica ainda que a obesidade, por si só, não é considerada um fator impeditivo para o ingresso na carreira pública. “Já a obesidade mórbida (IMC maior que 40/classificação OMS), é considerada doença grave e requer avaliação mais detalhada. Com tal classificação de doença grave, há um choque junto ao artigo 47, inciso 7 do referido Estatuto, que determina que o candidato deve ‘gozar de boa saúde’”, justifica o departamento na nota.

180 Graus

Gordinha saudável desafia reinado do IMC

DivulgaçãoBabi está com ótima saúde mesmo com o IMC elevado
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Babi está com ótima saúde mesmo com o IMC elevado

Durante anos, a fórmula que divide o peso pela altura ao quadrado, chamada de Índice de Massa Corporal (IMC), reinou absoluta na matemática dadieta .

Quando o resultado da conta superava o algarismo 25, o sinal claro era de que a saúde exigia o emagrecimento ( calcule seu IMC aqui).

Recentemente, as gordinhas saudáveis entraram para equação. Trazidas pela onda plus size, elas provocaram reviravolta na medicina. A última sacudida no reinado do IMC foi provocada por ampla pesquisa, publicada este mês no Journal of the American Medical Association (Jama), uma das publicações científicas mais respeitadas no meio médico.

 

Os pesquisadores revisaram 97 estudos (envolvendo 2,9 milhões de pessoas) e constataram que os inseridos na categoria sobrepeso – com IMC entre 25 e 30 – apresentavam risco de morte 6% menor do que os catalogados como magros no IMC (entre 18,5 e 24).

 

A controvérsia sobre a fórmula do peso saudável é exemplificada por pessoas como Babi Monteiro, 38 anos. Os 83 quilos que ela mantém em1,65 metro de altura indicam que, sim, ela não é aprovada pela métrica do IMC (o dela é 30). Mas os check-ups anuais evidenciam que no corpo curvilíneo de Bebi não há colesterol alto , pressão desequilibrada , diabetes ou qualquer outra ameaça ao bom funcionamento do organismo.

 

Paradoxo

Pelos especialistas do mundo todo, esta condição de quilos a mais sem problemas que impõem risco à saúde vem sendo chamada de “paradoxo da obesidade”.

“Quando o médico hipervaloriza o sobrepeso, sem avaliar outras condições do paciente, como diabetes e colesterol (nominadas de comorbidades), ele pode indicar o emagrecimento de forma precipitada, sem justificativa de saúde”, avalia o endocrinologista Almino Ramos, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica Metabólica.

Há pelo menos 5 anos, Ramos e um colegiado de médicos do País divulgam as falhas nos indicativos de saúde creditados ao IMC. Estas controvérsias sobre o alcance da fórmula, inclusive, têm sido usadas nas discussões travadas entre a Sociedade, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Ministério da Saúde.

Na pauta, a defesa dos cirurgiões bariátricos é de que a matemática peso/altura deixe de figurar como o único critério para legitimar cirurgia de redução de estômago.

“Embasados em pesquisas, nós defendemos que o diabetes, por exemplo, tenha peso semelhante ao IMC em favor da indicação cirúrgica”, avalia o presidente.

Já a diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso), Cintia Cercato, pondera que os novos dados não são suficientes “para jogar o IMC na lata do lixo”.

“Já sabemos que o índice não é o melhor método para medir risco à saúde. É uma ferramenta válida, mas não completa. O mais importante é ver a distribuição da gordura. Se estiver concentrada na região da cintura, há risco maior de problemas cardiovasculares, risco este que independe do IMC do paciente”, completa Cintia.

Epidemia de desculpas

Antes de comemorar as novas descobertas com banquetes açúcarados e gordurosos, os especialistas ressaltam que a obesidade não perdeu o status de um dos problemas de saúde mais graves da atualidade.

 

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Gaby Amarantos diz que é muito mais saudável agora do que na época que se matava pelo jeans 38

 

No Brasil, o progresso excessivo de obesos, enquadrados no índice de massa corporal superior a 30, deixou o governo federal alarmado. Em 2018, 11% da população estava nesta categoria, parcela ampliada para 16% em 2011.

O próprio estudo dos EUA – que absolveu o sobrepeso como marcador de risco de morte – apontou que quando o IMC chega na casa dos30 amortalidade é quase duas vezes maior comparada às taxas inferiores.

A Organização Mundial de Saúde endossa que há associação evidente entre obesidade e doenças crônicas, como câncer e problemas cardíacos. Crianças com esta circunferência abdominal tendem a ter corações típicos de idosos, evidenciou o documentário brasileiro “ Muito Além do Peso ”, que catalogou relatos de meninos e meninas de todas as regiões do País.

 

O que está em discussão é o fato do nome “gordinho” ter virado sinônimo de “negligente com o autocuidado”.

“A gorda é vista como relaxada e preguiçosa. E isso não corresponde à realidade. Não dá para generalizar”, propaga Renata Poskus Vaz, organizadora do Fashion Week Plus Size, evento que reúne e exibe modelos que, assim como ela, usam tamanho GG, mas não são sedentárias e esbanjam saúde.

Saúde plus size

Neste contexto, há um movimento de mulheres e médicos que pedem o fim da ditadura do peso ideal, mantido no posto pela máxima de que ele, só ele, é capaz de proteger a saúde.

A musa do embate, a cantora Gaby Amarantos, já declarou ao iG ser muito mais saudável agora, vestindo calça 42, do que na época em que provocava vômito após comer (transtorno chamado debulimia ) para entrar no jeans 38.

 

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Babi Monteiro faz aula de dança do ventre, ama seu corpo e não tem indicação médica para emagrecer

 

Em nome do corpo magro, já detectou o Centro de Referência de Tratamento de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), as mulheres – especialmente – não abandonam o cigarro com receio de engordar.

Os casos de anorexia, distúrbio caracterizado pelo jejum quase absoluto, também estão em ascensão e uma pesquisa inglesa concluiu que, mesmo após os 70 anos, sete em cada dez idosas fazem dietas, muitas delas incluindo rotinas bulímicas e uso de purgantes .

Modelos

Para Babi Monteiro, da mesma forma que uma modelo anoréxica não pode servir de exemplo para ninguém, uma obesa mórbida, ameaçada pela gordura excessiva, não é um estilo de vida a ser incentivado.

“Não faço apologia da gordura, mas questiono o que é beleza e o que fazer em nome dela. Eu faço aula de dança do ventre diariamente, tenho disposição a mil, alimentação saudável, rica em ômega 3, mas também com espaço para o chocolate e os bolos”, diz Babi.

“Estou com a saúde em dia e vou me matar para emagrecer por qual motivo?”, questiona ela que é modelo plus size, formada em direito e consultora de moda. Babi é a prova de que por trás do manequim 44 também bate um coração… “um coração bem saudável, obrigada”, completa ela.

 

 

Fernanda Aranda , iG