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Consumidor enfrenta fila e preços altos na hora de consertar o carro

Os donos de automóveis que necessitam de conserto, tenham seguro ou não, encaram preços acima da inflação, aliada à filas e demora no serviço com a alta da demanda aliada à falta de profissionais no setor.

É o caso do garçom Carlos Augusto Rehbein, de 33 anos. Em novembro de 2013, ele levou seu carro para consertar em uma oficina na Zona Leste de São Paulo. Pagou um preço que considera salgado, cerca de R$ 1,3 mil, e à vista. Mesmo assim, o carro demorou um mês e meio para ser reparado.

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A assessora de comunicação Tatiane de Sá, de 29 anos, ficou insatisfeita com o preço do reparo após colidir com uma lotação na mesma região. Ela pagou R$ 1,8 mil de franquia para consertar o retrovisor e parte da lataria na lateral. “O custo do conserto foi ainda maior”, aponta.

Arquivo pessoal

A assessora de comunicação Tatiane de Sá, 29 anos: insatisfeita com preço do conserto em São Paulo

Em 2013, o aumento dos preços relativos a reparos de automóveis no Brasil, medido pela inflação oficial, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 7,03%, acima de 5,91%. É a terceira maior variação da chamada “inflação do carro”, perdendo apenas para os serviços de estacionamento e lubrificação e lavagem.

Além da necessidade de pagar salários mais altos em um mercado com falta de profissionais, principalmente pintores e funileiros, a inflação do setor e das peças, importadas e cotadas em dólar, também impulsionaram o reajuste de preços. Os profissionais ganham hoje R$ 80 a R$ 100 por hora.

Marcelo Sebastião, diretor de Auto da Porto Seguro, aponta que algumas regiões do País estão com valores “bem consideráveis”, sem revelar quais. “Há casos de exagero no pedido de mão de obra e reajustes por parte das oficinas. Há quem não queira sentar para negociar. Não é o nosso caso”.

Queda de braço 

Marcelo Pita, diretor de Seguros Patrimoniais e Massificados da seguradora Generali, afirma haver uma crise no setor de reparação. “Hoje, é um leilão de quem paga mais”.

Adão Lopes Sanches, proprietário da Belem Car, na Zona Leste de São Paulo, tem uma opinião diferente. “As seguradoras geralmente pedem preços irreais. Se eu concordar com eles, perco meus funcionários”. Em três anos, Sanches já perdeu metade de seus funcionários para o mercado, em uma disputa diante da falta de mão de obra especializada.

Para driblar conflitos, a Generali vem optando por ampliar parcerias com concessionárias e garantir vagas em reparadoras de qualidade. “As parcerias podem onerar custos e isso se reflete nos preços dos produtos”.

Já Sanches vem optando por realizar mais serviços particulares. Ele lembra que já teve parcerias com 20 seguradoras no passado, Hoje, é credenciado de apenas três.

Rede credenciada

Muitas vezes, para evitar negociações difíceis e evitar dores de cabeça, a seguradora induz o consumidor a realizar o serviço apenas em sua rede de oficinas recomendadas.

Na Tokio Marine, o cliente deve assinar um termo quando opta por uma oficina fora da rede referenciada. “A responsabilidade sempre é da seguradora. Mas os serviços podem atrasar, pode faltar qualidade. O trabalho é que a gente possa exigir isso da oficina”, explica o diretor de sinistros da seguradora, Alexandre de Souza Vieira.

Para atrair o cliente para sua rede de oficinas, a Porto Seguro oferece benefícios, como carro reserva e desconto na franquia.

Hoje, Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da Pro Teste, aponta que resta ao cliente tentar negociar que o serviço seja realizado em sua oficina de confiança ou naquela que cobre preço mais acessível enquanto o projeto de lei 2607/07, que prevê a escolha da oficina pelo segurado, não é aprovado pelo Senado.

O projeto de lei tramita em caráter conclusivo, e já recebeu emendas, como a de que o orçamento da oficina deve ser compatível com o preço cobrado pelo mercado.

Na visão do Procon, porém, com base no Código de Defesa do Consumidor o segurado pode optar por levar o veículo em oficinas credenciadas ou da sua confiança.

Marília Almeida/iG

Oficina no bairro Vila Carrão, na Zona Leste de São Paulo: demanda alta e falta de mão de obra

Crescimento

Os problemas  no setor ficaram mais visíveis com o crescimento da demanda para reparos de veículos no País, após o boom de produção de automóveis pelas montadoras no País, ainda que tenham fortalecido as oficinas na hora de acordos. Na oficina de Sanches, em São Paulo, são recebidos cerca de 150 carros por mês para reparo.

Na Mmackay Serviços Automotivos, no Rio de Janeiro, o problema não é a negociação com as seguradoras, mas a falta de funcionários para atendê-las. “A situação só piora. Consigo trabalhar com seguros apenas esporadicamente”, conta Mauro César Chagas, proprietário do estabelecimento.

No ano passado, ele reajustou seus preços em 8%. “É um setor complicado. Não há tabelamento de serviços. É na base de hora trabalhada. E, por falta de funcionários, já pago R$ 100 por hora”.

O empreendedor conta que, quanto mais específico o problema, e mais evoluído o carro, maior a demora. “Se tivermos o equipamento, o reparo é mais rápido. Se precisar de mão de obra especializada, demora mesmo”.

Maior rede

Neste cenário, para evitar atrasos nos serviços, as seguradoras buscam ampliar suas redes referenciadas, e até asseguram vagas nas mais cheias. “Negociamos um fluxo mensal de dez carros, por exemplo” diz Eduardo Dal Ri, diretor de auto da SulAmérica.

Hoje, o executivo conta que o prazo médio para reparação na rede da seguradora é de 7 a 15 dias. “A cada 15 dias fazemos um relatório sobre como está a demanda nas oficinas”.

Mesmo com as dificuldades de negociação existentes no setor, há quem tenha crescido a rede credenciada em 2013. No período, a Sulamérica aponta que sua rede de oficinas aumentou 25%.

Na Tokio Marine, a rede referenciada de oficinas cresceu de 250 para 750 estabelecimentos em 2013. Este ano, o objetivo é chegar a 1 mil.

Mais regras

A falta de profissionais no segmento de reparação pode causar demora no serviço e, em alguns casos, também ser motivo para serviços precários, por conta de profissionais pouco qualificados. Como recai nas oficinas a responsabilidade de contratar, elas podem optar por estes profissionais na falta de mão de obra especializada para atender a demanda de serviços.

Luiz Guarnieri/Futura Press

Congestionamento na Marginal Tietê: aumento da frota de carros resultou em mais trabalho nas oficinas

 

Para sanar estas questões, o Projeto de Lei 2917/1, que também tramita em caráter conclusivo no Senado, pretende regulamentar o setor de oficinas, assim como já aconteceu em São Paulo em dezembro de 2013.

Além das oficinas terem de seguir regras da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), mecânicos e profissionais de outras áreas deverão passar por treinamento em cursos de, no mínimo, 400 horas para aqueles sem experiência na atividade e de 40 horas para aqueles que comprovarem pelo menos dois anos de serviço na área.

A relações públicas Viviane Moreira de Souza, de 29 anos, já teve problemas com oficinas fora de redes referenciadas do seu seguro  em São Paulo. “Todas às vezes que eu tive que levar o carro para arrumar pequenas batidas em uma oficina independente ficou feio. Arrumou, mas não ficou perfeito. Além disso, há a desconfiança sobre se estão cobrando um preço justo e sem contar a demora e fila enorme naqueles que você vai por indicação.”

 

O diretor de Sinistros da seguradora Tokio Marine, Alexandre de Souza Vieira, acredita que o projeto no Senado será positivo para o setor. “O treinamento da mão de obra vai conseguir elevar a disponibilidade do serviço e as oficinas vão ganhar produtividade”.

Hoje, são cerca de 90 mil oficinas reparadoras no Brasil. O número já foi maior e chegou a 100 mil. O desafio é despertar o interesse de jovens pela profissão, com qualificação e salário adequados.

iG