Ramalho Leite – A renúncia explicada

Publicado em quarta-feira, Maio 18, 2011 ·

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Nem eleitor eu era quando o Janio Quadros foi eleito. Mas confesso que torci e  confiei em um futuro melhor para o Brasil com a ascensão do homem da vassoura. De repente ele larga tudo e em nome das  famosas “forças ocultas” renuncia à Presidência da República. Em um País onde tem político que se nega a ser padrinho em batizado para não ter que renunciar a satanás, o fato histórico e inédito teria que  mexer com o imaginário dos brasileiros.

Lendo o trabalho da jornalista Regina Echeverria sobre José Sarney encontrei pela primeira vez o que seria uma explicação para a renuncia de Janio, narrada pelo próprio ao seu neto, trinta anos depois, quando tentava recuperar a saúde em um hospital paulista. Diz Janio: “Tudo foi muito bem planejado e organizado. Mandei o João Goulart em missão oficial à China, no lugar mais longe possível. Assim, ele não estaria no Brasil para assumir ou fazer articulações políticas. Escrevi a carta renuncia em 19 de agosto e entreguei para o Ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta, no dia 22.Eu acreditava que não haveria ninguém para assumir a presidência.Pensei que os militares,os governadores e, principalmente, o povo, nunca  aceitariam a minha renúncia e exigiriam que eu ficasse no poder”. E conclui desiludido: “Os governadores não me apoiaram…O ministro da Justiça nunca deveria ter contado para o  Carlos Lacerda da minha intenção de renunciar…Carvalho Pinto me traiu terrivelmente….O povo brasileiro é muito passivo.Todo mundo ficou chocado, mas ninguém reagiu”.

Como tudo deu errado, o Brasil sofreu as conseqüências por longos anos até que se procedesse a primeira eleição direta com a ascensão do Collor de Mello. Este, trinta e um anos depois, teve sua renuncia não aceita pelo Congresso que, preferiu, cassar-lhe o  mandato presidencial.

Sarney, testemunha da história, conta que havia uma vontade quase unânime da classe política de ver Janio pelas costas. Mas todos foram igualmente surpreendidos com a renúncia. Alguns tentaram ouvir uma justificativa do próprio Janio. João Agripino que fora ministro de Minas e Energia viajou para São Paulo no mesmo avião com Sarney e outros políticos da UDN. Todos em busca da mesma coisa- “saber o porquê”.

Sarney chegou por volta de meia-noite à casa no Guarujá onde Janio se alojou.Tudo às escuras.Finalmente alguém atendeu mas despachou as visitas informando que “o presidente já se recolheu”. Sem melhores informações Sarney volta  a Brasília já tomando antiácidos para uma ulcera que o acompanharia por toda a vida.No mesmo avião retornava João Agripino, que “depois também veio a ter a sua ulcera”. João fora mais feliz e estivera com o presidente renunciante. O encontro é reproduzido por Sarney: “Ao receber o ex-ministro, levantou-se num gesto dramático. Agarrou-se a Agripino, abraçou-o compungidamente, colou o seu rosto no rosto do seu ex-ministro de Minas e Energia e chorou. Chorou muito.Afastou num soluço o seu rosto um pouco e disse:

-Pare, não me torture mais. João, em você, cangaceiro, tudo é bom. Até o cheiro”.

O livro “Sarney, a Biografia”, tem por cenário os bastidores da política brasileira nos últimos cinqüenta anos. Vale a pena conferir.

RAMALHO LEITE

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