Ramalho Leite – “Governo é prá sofrer…”

Publicado em quarta-feira, setembro 21, 2011 ·

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A Paraíba em um passado recente tinha o seu cenário político povoado por algumas figuras populares que freqüentavam   não somente as solenidade oficiais, como a própria sede do Governo, tornando suas presenças, às vezes incômodas, impostas ao ambiente.

Carbureto, made in Campina,  invenção dos gaudêncios, reinou no período de Ernani Satyro, convivendo em desarmonia com Caixa D’Água, o poeta de “minha mãe se abruma” e Mocidade, mais inteligente que todos, orador inflamado,  herdado de João Agripino que nutria por ele uma forte simpatia. Essa predileção  por Mocidade levou-o a permitir sua hospedagem nos fundos da residência oficial, no final do Cabo Branco. Além disso recebia uma pensão mensal paga pela Loteria do Estado.Mesmo assim, Mocidade era assíduo e contundente nas manifestações contra o Governo. Chamado pelo Governador, injuriado com o seu ingrato procedimento, apenas justificou:

-João, governo é prá sofrer mesmo!

E parlamentar governista também. Aplauso fácil se consegue na oposição. Mas há quem pense que ser  governo é só  auferir   vantagens. Colhe o bônus mas não aceita enfrentar o ônus de ser governista nas horas difíceis.

Quando era Lider do Governo enfrentei inúmeros movimentos populares que ecoavam na Assembleia, perturbando as sessões com a presença de manifestantes nem sempre bem comportados. A vaia era o instrumento menos agressivo utilizado. Da tribuna enfrentava a turba sem receio. Era minha obrigação como deputado governista sustentar as teses emanadas do governo. Certa feita, servidores públicos invadiram o plenário ultrapassando a barreira da segurança. Ficamos vulneráveis a qualquer manifestação mais violenta. Carlos Dunga me chamou a um canto de parede e me advertiu:

-Você como líder é o alvo desse pessoal. Tá armado?  Respondi que não.

Então, ele e Pedro Medeiros passaram a me dar segurança. Sob as vaias de professores em greve,olhei para as galerias e desafiei:

-Essas vaias não devem partir de professores. Os mestres são educados e passam boas lições aos seus alunos. Essa gente que grita e esperneia deve ter sido recrutada em redutos menos respeitáveis que a sala de aula.

A gritaria aumentou. Nem eu ou qualquer  membro da bancada governista mudamos de posição pressionados pelo histerismo da manifestação.

Hoje ainda há  parlamentares que se mantêm conscientes do seu papel. Sejam  governo ou oposição. Mas há também quem quebre  os compromissos  ao menor ruído contestatório das galerias. Estes falam  com um olho na plateia e outro na câmera de TV. Basta que o  apupo lhe alcance, ele muda o voto e sela compromisso com a torcida organizada. Conheci um, que dele se dizia: é fraco indo e voltando…

Ramalho Leite

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