Quase 40% das ligações do Disk 100 na PB denunciam negligência contra crianças

Publicado em segunda-feira, outubro 12, 2015 ·

Valter Campanato/Agência Brasil
Valter Campanato/Agência Brasil

Avessos às festividades do Dia das Crianças, comemorado na segunda-feira (12), os números apresentados através do levantamento do ‘Observatório da Criança e do Adolescente’, realizado pela Fundação Abrinq, mostram uma realidade lamentável. Em 2013, 326 pessoas com idades entre 0 e 19 anos foram assassinadas. Já o Disk 100, número dos Direitos Humanos, em 2014, teve 6,8 mil denúncias de abuso e violência contra crianças e adolescentes; 37% desse total corresponde a casos de negligência; 23%, violência física; 20%, violência psicológica; 14%, violência sexual; e 5%, por outros tipos de violência.
Os dados do Observatório mostram que houve uma pequena redução nos números de homicídios envolvendo menores de 18 anos entre 2012, com 353 casos, e 2013, com os 326 registros. Especialistas dividem opiniões sobre o futuro e se a situação vai ou não melhorar.

Já sobre o Disque 100, em 2014, foram 2,5 mil ligações sobre casos de negligência com crianças e adolescentes; 1,5 mil casos de violência física; 1,3 mil registros de violência psicológica; 988 casos de abuso sexual; e 364 casos de outras ocorrências.

A Casa Pequeno Davi informou que a Paraíba saltou da 17ª posição, no ano de 2000, entre os estados com maior violência registrada contra crianças e adolescentes, para a 6ª posição no Brasil em 2012. João Pessoa, que ocupava a 9ª colocação, em 2000, entre as capitais mais violentas contra as crianças e adolescentes, ocupa agora a 3ª posição. Além da Capital, os municípios de Bayeux, Santa Rita e Campina Grande ocupam, respectivamente, a 17ª, 32ª e 47ª posições entre as 100 cidades com maiores índices de violência contra menores de 18 anos.

Especialistas analisam

Esses dados foram analisados por Lorenzo Delaini, que faz parte da coordenação da Rede Margaridas Pró-Crianças e Adolescentes, que atua em João Pessoa, e por Carmem Lúcia Meireles, presidente do Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente, além de ser conselheira tutelar.

Segundo Lorenzo Delaini, os números mostram que a violência que atinge as crianças e adolescentes é inegável. “Sempre é difícil termos certeza dos números apresentados, pois algumas são trotes, mas sabemos que muitos casos não chegam ao conhecimento da sociedade. Infelizmente, a tendência é de crescimento desses casos, já que a resolução da violência é bem mais complexa do que as ações que estão sendo tomadas”, disse Lorenzo Delaini.

Para Lorenzo, as crianças e adolescentes são vítimas da falta de investimento em políticas públicas e da má administração dos recursos aplicados na educação. “Existe uma desigualdade social muito séria. São direitos a saúde, educação e cidadania violados. Muitas vezes a criança não tem o apoio sólido de uma família e acabam crescendo em um ambiente de violência estrutural, com envolvimento em drogas, álcool e abusos domésticos ou sexuais. A falta de políticas públicas e educação também resulta nesse contexto. Elas [crianças e adolescentes] são vítimas de uma sociedade consumista, na qual falta cultura de valores essenciais”, afirmou Lorenzo.

De acordo com Lorenzo Delaini, apenas um investimento a longo prazo e com bons recursos pode fazer com que a situação tenha uma melhora no estado. “Devemos investir em oportunidades de trabalho, em profissionalismo, na educação, em uma cultura de paz e de direitos humanos para que as coisas comessem a dar certo. É um investimento alto e de longo prazo, mas precisamos preservar o futuro das nossas crianças e garantir os diretos básicos de saúde, educação e paz familiar”, concluiu Lorenzo Delaini.

Já para Carmem Lúcia Meireles, as crianças e adolescentes são o elo mais frágil na sociedade atual e necessitam de cuidados e dedicação maior para não terem os seus direitos violados. “Crianças e adolescentes são um dos segmentos mais vulneráveis. Precisam de cuidados especiais e infelizmente têm muitos problemas. As desigualdades sociais, o desemprego para os jovens, o consumo de drogas e álcool, a falta de escolas e e creches estão deixando essas crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social”, pontuou Carmem.

Para Carmem Meireles, a sociedade deve assumir o seu papel e fortalecer a sua participação para conseguir ter voz e alcançar melhores condições as crianças e adolescentes da Paraíba. “A sociedade tem que saber escolher os seus governantes. Saber reivindicar as políticas públicas. Ela tem o grande poder de escolha, mas não tem essa conscientização. Temos que fortalecer a participação popular e o controle social das demandas. Não devemos tratar a violência com sensacionalismo. A sociedade precisa estar alerta e desconstruir isso”, afirmou Carmem Meireles.

Futuro

O quadro da violência, para Lorenzo Delaini, deve piorar nos próximos anos caso a sociedade não tome consciência da importância da preservação dos direitos da criança e do adolescente. “Eu acho que a tendência não é de melhora. Temos casos de violência doméstica e violência sexual escondidos dentro das famílias e isso nem sempre é descoberto e denunciado. Com a crise, isso se acentua ainda mais. É preciso que a sociedade tenha consciência e tome novos caminhos, com a adoção de uma escola em tempo integral, da profissionalização dos jovens e investir muito mais em uma cultura de paz e mediação de conflitos. Isso nós não temos hoje”, concluiu Lorenzo Delaini.

Com mais esperança de um futuro próximo promissor, Carmem Meireles disse que se a sociedade assumir o seu papel de mediação, as crianças e adolescentes estarão mais protegidas. “Sempre tenho uma esperança que tudo isso vai mudar. Estou nessa missão e não vou desistir. Acredito que todos podem e devem fazer mais para mudar essa realidade, garantindo um futuro melhor nossas crianças e nossos jovens”, concluiu Carmem.

PMJP diz que está investindo

A Prefeitura de João Pessoa (PMJP) informou que está reformando creches e passou a administrar 27 novas unidades que antes eram geridas pelo Estado. Segundo a PMJP, Com a construção e municipalização de creches, a gestão garantiu a oferta de quase 6.500 novas vagas.

A gestão municipal informou também que cinco novas escolas em tempo integral estão em construção na Capital.

 

 

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