Por que é tão caro um carro 0 Km no Brasil?

Publicado em quarta-feira, agosto 27, 2014 ·

carrosQuem não gostaria de ter um carro zero quilômetro na garagem? Praticamente um “fetiche” entre o consumidor brasileiro, o sonho do carro novo vêm sempre acompanhado da indagação célebre: “Por que o carro brasileiro é tão caro”? Essa é uma pergunta mais complexa do que imaginamos.

Claro que quando pensamos no preço do carro nacional, logo vem à cabeça a palavra Impostos. Se compararmos com países como Estados Unidos, Japão e Alemanha, os maiores produtores de veículos do mundo (junto com a China, a diferença é brutal: enquanto se paga em média em nosso país uma média de 30% de Impostos Nacionais Diretos ((IPI, ICMS e PIS/Cofins), nos Estados Unidos são cobrados apenas 5,7%, enquanto no Japão e Alemanha os veículos são taxados em 8% e 16%, respectivamente. Mas só esses dados não explicam por completo o preço de nosso sonho sobre rodas. Dois dos aspectos que mais impactam infraestrutura pública e encargos sociais. Enquanto em países desenvolvidos como Europa e Estados Unidos a Indústria encontra todo o tipo de investimento público para melhorar e estimular a produção, que vai desde rede de transporte diversificada, passando por preços e fornecimento de energia constante e acessível até chegar em isenção de impostos e facilitação de incentivos para expansão industrial, no Brasil temos total carência desses requisitos. Um exemplo básico é o formato de escoamento da produção. Enquanto na Europa a produção é transportada através de ferrovias, que podem carregar centenas de modelos de uma vez só, no Brasil, a totalidade da produção é distribuída através de caminhões cegonhas, que comportam no máximo 12 modelos, e muitas vezes voltam vazios, onerando ainda mais a cadeia de produção. Outro gasto que é colocado na ponta do lápis pelas marcas é o “custo operário”. Nos Estados Unidos, cerca de 60% dos salários são encargos sociais, e no Brasil essa barreira ultrapassa os 100%. Só esses argumentos, chamados pelo setor de CUSTO BRASIL, já seria suficiente para explicar como um modelo como o Audi A1 custa 94% mais em nosso país do que na Europa, ou como um modelo como o Honda Fit, além de ter uma diferença de mais de 50% do seu valor, é menos equipado e seguro em nosso país. Será?

Não à toa, a Indústria Automotiva Nacional tem um poder que pressiona constantemente o Governo, que por sua vez acaba se tornando um servo leal. Para se ter uma ideia do poder do setor no Brasil, o automóvel corresponde por 21% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial e 5% do PIB total. De acordo com a ANFAVEA, entre 2002 e 2011, o setor cresceu 145%. Em 2012, as indústrias automotivas lucraram US$ 121,3 bilhões e geraram 31,4 bilhões de dólares em tributos, mesmo com a redução do IPI. Outro dado interessante diz justamente a relação Governo – Setor Automotivo: cada vez mais o governo cria barreiras que evitam a modernização dos produtos, e os incentivos dados para a instalação de novas fábricas e marcas em nosso país é branda e ultrapassada. Prova maior é que, enquanto no Brasil só passou a ser obrigatório o uso de airbags e freios ABS nos modelos produzidos em território nacional, na Europa já era exigido desde o final da década de 90. Estamos no mínimo, 20 anos atrasados perante o Mundo, mesmo sendo a quinta maior potencia produtora do setor. O INOVAR AUTO, programa federal que estimula a instalação e nacionalização do setor automotivo no Brasil é leve e falho. Ele sobretaxa em 65% modelos importados, em detrimento de uma contrapartida em descontos tributários para marcas que pretendem se instalar no Brasil, sob a alegação de uma maior geração de empregos e manutenção dos já existentes. Contudo, não obriga aos fabricantes que a tecnologia seja a mesma que a do exterior, nem estimula o uso e desenvolvimento de modelos mais seguros, modernos e ecologicamente eficientes. A desculpa dada para a criação do programa foi a crescente investida das marcas e produtos chineses em nosso país, com produtos semelhantes por preços mais competitivos. Porém, não foi divulgado que a parcela que essas marcas estavam ocupando no Brasil não chegava a 5%, e nem que as mesmas já pagavam um imposto de importação que acrescentava 35% do valor do produto, fora os impostos regionais. Outro fator que coloca uma dúvida sobre o programa é que países do MERCOSUL estão livre desta taxação, e a maioria da industrial automotiva nacional já usava os países (principalmente a Argentina) como fonte produtora e exportadora de veículos.

Gráfico demonstrativo

Pra finalizar esse efeito Custo Brasil, temos o consumidor, que tem uma visão extremamente particular do setor, se comparar com outros mercados. Enquanto o Europeu exige consumo e o americano exige segurança, o brasileiro apenas se preocupa com conforto. Ele prefere e exige mais itens como ar-condicionado e direção hidráulica em detrimento de airbags ou ABS. O brasileiro não questiona o produto quanto a sua qualidade, apenas ao conteúdo oferecido. Resultado? Temos um mercado com mais de mil “modelos” diferentes, que na prática são variações do mesmo carro, apenas com opcionais diferentes, e que acabam virando a justificativa na variação de preços destes produtos. Soma-se a cultura do carro “pelado, mas zero quilômetro” ser melhor do que um modelo seminovo equipado, e tem-se um mercado único, só comparado com outros países emergentes como Índia e África do Sul, aonde a Indústrial automotiva local é bem mais recente que a nossa, e não se poderia exigir um conhecimento mais aprofundado da área. Os chineses, mesmo tendo afama de produzir produtos baratos e descartáveis, são mais exigentes quanto à qualidade, consumo, segurança e garantia de seus modelos. E estamos falando de um país bem mais importante que o nosso em âmbito comercial, e que tem uma industrialização mais nova que a nossa. Na prática, o Brasileiro se preocupa mais se a parcela cabe no bolso e que o carro é novo, mesmo se tratando de um bem tão caro e dispendioso para manter.

Por último, mas não menos importante, temos o excesso protecionismo do setor de produção de veículos novos, que acabam criando um efeito artificial e viciante. Assim que o Governo recua da isenção de impostos, o setor pressiona o Governo, sob a alegação da manutenção dos empregos gerados e dos custos, e o Governo Federal recua e volta a isentar o setor. Outros setores como o da revenda dos veículos ou o de autopeças não tem o mesmo estímulo, criando uma cultura de comprar novo sempre. Lojistas de carros usados sofrem para manter seus negócios com margens de lucros aceitáveis, e o próprio consumidor, estimulado a financiar modelos por muito tempo, fica preso, demora em comprar um novo modelo e muitas vezes não consegue o valor necessário para um novo financiamento, ou tem o crédito negado, pelo recuo da oferta de financiamento e as altas taxas cobradas que refletem em parcelas maiores e menores intervalos de tempo. Um ciclo viciado e perverso, que começa a mostrar a sua face mais escura: até Julho, o setor teve um recuo de 26% nas vendas de modelos novos, enquanto o setor de seminovos tem registrado altas de 14%. Tá mais fácil ter um novo carro usado do que comprar outro carro 0 km. Por isso, quando pensar no preço do carro no Brasil, saiba que a culpa não é só da Indústria que tem um bom motivo para aumentar suas margens de lucros ou do Governo que taxa de forma excessiva as fabricantes. Todos nós temos uma parcela de culpa, infelizmente.

 

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