Polícia Militar evita chacina de ‘meninos do tráfico’ na periferia de João Pessoa

Publicado em quinta-feira, Março 14, 2013 ·

Policiais da UPS do bairro atenderam a ocorrência
Policiais da UPS do bairro atenderam a ocorrência

Crianças e adolescentes recrutados por traficantes para atuar na disputa pelo controle das bocas de fumo por pouco não foram vítimas de uma chacina, nesta quarta-feira (13), no bairro de Mandacaru, em João Pessoa. Sem assistência das famílias, os meninos não frequentam a escola e acabam tendo como referência os seus aliciadores. Segundo a polícia, os alvos da matança seriam jovens da facção ‘Estados Unidos’ e os matadores membros da gang rival ‘Al-Qaeda’. Um jovem ainda foi atingido de raspão, os demais conseguiram escapar. Eles têm orgulho de dizer que pertencem a uma facção, expressam ódio pelos ‘rivais’ e descrevem as mortes que viram ou planejam, sem se importar com a realidade de que são apenas alvos.

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“Acreditamos que a impunidade é a razão que leva os traficantes a aliciarem as crianças. É muito fácil conseguir isso por conta ainda do abandono dos pais que, muitas vezes, também estão envolvidos no crime. Nas comunidades de risco, onde há um grande número de crianças, os traficantes aproveitam para fazer o recrutamento por conta da responsabilidade penal. Eles sabem que o adolescente só fica preso se cometer violência contra a pessoa, e traficar não é”, observou o capitão Antônio de Souza, coordenador da Unidade de Polícia Solidária (UPS) de Mandacaru. Por mais grave que seja o crime, segundo ele, um menor de 18 anos não passa mais de três anos recluso.

O capitão  afirmou que não há como saber quantos dos meninos e jovens do bairro estão envolvidos na criminalidade. “Os bandos são pequenos, mas um detalhe que chama a atenção é que eles são muito agressivos, o que dá para perceber até nas letras do rap que cantam. A maioria não frequenta a escola e os que vivem com familiares, não contam com o cuidado dos pais. Passam o dia sob tensão, com medo de outras facções”, disse.

Secretário sugere ação conjunta

O secretário da Segurança e da Defesa Social Cláudio Lima disse que, além da ação da polícia, é necessário que o Ministério Público e conselhos tutelares atuem em conjunto com outras secretarias municipais e estaduais para tentar reverter este quadro. “O que mais preocupa é que são crianças. Uma criança com 10 anos sem estar na escola é uma situação muito grave; e mais grave ainda é o envolvimento dela com a criminalidade. Infelizmente, não tem como a polícia dar proteção a tanta gente; não é uma situação que se resolve assim”, afirmou.

Preso ordenou execuções

Na madrugada de ontem, policiais de plantão da UPS de Mandacaru foram avisados de que iria acontecer uma chacina na noite da terça-feira envolvendo as facções Al-Qaeda e Estados Unidos. Por volta de 2h30 de ontem, enquanto o capitão Antônio de Souza realizava rondas, ouviu disparos e, com apoio da Força Tática, seguiu em direção ao local dos tiros. “Encontramos os adolescentes na rua se queixando de que quatro homens armados passaram em um veículo Corsa, prata, atirando contra eles. Um, de 13 anos, foi ferido nas nádegas sem gravidade”, relatou.

O carro, que foi localizado na Rua Rodrigues Alves, pertence a uma mulher, cujo marido está preso. “Foi ele quem ordenou a chacina”, informou o capitão. A recomendação do mandante da ação, conforme o capitão, era de que a esposa entregasse o veículo aos homens. “Ela não soube dar nomes, mas passou o carro para o grupo. Foi ouvida na Delegacia de Homicídios, autuada por posse ilegal de arma e está presa. O adolescente ferido prestou depoimento”. Na tentativa de fuga, os bandidos bateram o carro em um poste. No interior do automóvel havia várias cápsulas calibre 38.

Proteção

O presidente do Conselho Tutelar Região Norte, Elielton Lima ainda não havia sido informado sobre o caso de Mandacaru, mas garantiu que, caso seja necessário, os meninos ameaçados serão encaminhados ao Programa de Proteção à Vida. A reportagem não conseguiu falar com a Promotoria da Infância.

Depoimento choca

Questionado pela TV Correio, um garoto de 12 anos explicou a razão de estar no crime. “Os ‘bicho’ tentaram matar meu parceiro. Deram um ataque de 12, repeteco, mas ‘nós não abre’ pra eles. Mataram o pai do boy, mas não vai ficar assim. A gente vai torar a cabeça e comer a orelha com uma dose de cana”.

Avô chora

Seis adolescentes foram apreendidos na última terça-feira (12), em Cabedelo, com armas e drogas. No mesmo dia, o avô de um deles, um menino de 13 anos, esteve na delegacia. “Ele disse que não quer ir para casa. Forçado, não vou levar e ele fica por aí”, disse o avô.  Mas após o depoimento, o avô voltou, abraçou o neto, chorou e disse que a avó está rezando por ele.

 

 

Por Lucilene Meireles, Jornal Correio da PB

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