Paraíba tem apenas 26 médicos oncologistas

Publicado em domingo, abril 7, 2013 ·

criançaDados da última Demografia Médica no Brasil, organizada pelo Conselho Federal de Medicina, revelam que a Paraíba só conta hoje com 26 médicos especializados no tratamento do câncer. O número representa apenas 0,4% do total de médicos em atuação no Estado (5.259). Segundo o presidente do Sindicato dos Médicos da Paraíba (Sinmed-PB), Tarcísio Campos, a carência de médicos na oncologia clínica e cirúrgica é fruto das características da própria especialidade.

“É preciso ter uma vocação para lidar com esse tipo de paciente, que tem uma doença muito grave. Embora estejam sendo resolvidos muitos casos que antes não se resolviam, ainda assim há outros em que o médico não pode fazer muita coisa, a não ser amenizar a dor e prolongar a sobrevida”, ressaltou. Por outro lado, observa Tarcísio Campos, os que trabalham na área estão concentrados em João Pessoa e Campina Grande, por fatores estruturais.

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“Essa especialidade precisa de uma estrutura muito grande. Hoje, o tratamento é muito caro, então, ou você tem isso feito pelos hospitais universitários, ou pelos filantrópicos. A própria iniciativa privada tenta evitar o preenchimento por pacientes oncológicos. O Governo Federal que assume a maioria desses tratamentos, inclusive com a doação de medicamentos gratuitos”, lembra, ressaltando que, por isso, a demanda é muito grande nos hospitais públicos que têm o serviço.

Laureano superlotado

Devido a essa grande demanda, o presidente do Sinmed critica o fato de que, até hoje, o Governo do Estado ainda não investiu na construção de um centro de tratamento oncológico para atender a todos os municípios. “Hoje está tudo drenado para o Laureano, que está sobrecarregado. Já era para termos um centro bancado pelo Estado, pactuado com os municípios e com verbas federais. Aí se teriam mais profissionais, mas também seria preciso investir na atração de outros. Quando ele vê a remuneração e as condições de trabalho, claro que ele vai procurar em grandes centros, como São Paulo, Recife e Minas Gerais”, problematizou Tarcísio Campos.

Exames para prevenir

Na Paraíba, semelhante ao que ocorre no País, o câncer de próstata é o que mais faz vítimas. Segundo o Sistema de Informações Sobre Mortalidade da SES, de 2001 a 2013, foram 2.479 óbitos, superando qualquer outro tipo da doença, como estômago (2.451) e pulmão (2.442). Por esse motivo, o oncologista paraibano Joni Oliveira ressalta a importância da prevenção, através de exames periódicos.

“O câncer de próstata tem a influência genética em primeiro lugar. Naquela família que tem antecedentes, todos os homens têm que fazer prevenção após os 40 anos. O câncer vai se desenvolvendo lentamente e não dá sintoma inicial. Muitas vezes, a pessoa é surpreendida e já está numa situação mais grave sem antes ter tido nenhuma queixa”, observou.

Imunidade é segredo

O oncologista paraibano Joni Oliveira ressalta que, embora o câncer possa atingir qualquer pessoa, a manutenção da imunidade ajuda a prevenir a doença. “Quando uma pessoa tem a imunidade boa e passa por alterações leves, é mais difícil de se desenvolverem células carcinogênicas. Quando a imunidade está baixa, é uma janela aberta. Vão se somando o fator hereditariedade, imunidade baixa e hábitos como o fumo, o álcool e a alimentação… O câncer acaba se desenvolvendo”, explicou. A ação do álcool, por exemplo, faz com que ele seja encarado pelo organismo como uma ameaça.

Higiene para evitar contaminação

O oncologista Joni Oliveira explica que, entre as mulheres, é o câncer de mama que faz mais vítimas na Paraíba, embora a neoplasia mais recorrente em ambos os sexos seja a de pele. Dados da SES revelam que foram 1.884 óbitos por tumores nos seios, o quarto tipo mais fatal, ficando atrás apenas da próstata, estômago e pulmão. Apesar disso, ressalta o oncologista Joni Oliveira, é preciso atentar também para o câncer do colo do útero. “Na Região Nordeste, o colo uterino ainda tem incidência grande, talvez maior que o de mama. Primeiro pela falta de higiene das pessoas com poder aquisitivo mais baixo. Depois pela promiscuidade. Somados, vem o HPV (vírus responsável pelo ‘despertar’ da doença)”, afirmou. Nos últimos 12 anos, foram 473 mortes.

2 meses peregrinando

Já fazia dois meses que a dona de casa Ana Cleide dos Santos Ramos, 42, peregrinava no Napoleão Laureano, na Capital. A última quarta-feira foi mais um dia de tentativa de retirar de sua barriga uma quantidade exorbitante de líquidos provocados pelo câncer que continuava ativo em seu fígado. Não bastasse ter que enfrentar a doença – que já lhe tinha passado pela mama esquerda e pela coluna –, ainda esperava por uma resposta do setor administrativo do hospital, sobre a realização do exame que identificaria a posição exata em que colocaria um dreno. “Já vim aqui outras vezes, mas eles não conseguiram tirar o líquido de jeito nenhum”, contou.

Ana Cleide havia chegado cedo. Antes das 8h30, estava com o marido, no grande vão de espera, que reúne histórias de pacientes de diversas partes do Estado. Ela própria não vinha de perto: é moradora do município de Condado, a mais de 350 km de João Pessoa. Estava lá porque, na tarde anterior, um médico lhe tinha garantido a realização do procedimento. “Mas, quando cheguei aqui, a atendente disse que não tinha nada marcado nem organizado. Me mandou esperar”, lamentou. A espera era o que mais lhe consumia. “Hoje mesmo eu disse a meu marido: ‘Tô muito nervosa’”.

As horas passavam e já era perto do meio-dia. O casal mudava de cadeiras, via o tempo passar, mas tentava não perder a esperança. “Não posso desanimar. Eu só peço três coisas a Deus: força, coragem e fé”, disse. O esposo, Severino de Sousa Ramos, também não queria mostrar fraqueza. “Disse para ela que estou deixando ela ficar boa, para lhe dar uma pisa, para nunca mais ficar doente”, prometeu em tom de brincadeira, arrancando risos daquela com quem é casado há oito anos. Em troca, uma declaração despretensiosa.

“Graças a Deus tenho ele do meu lado”. De fato, Severino largou o ganha-pão como pedreiro desde outubro, quando apareceu o terceiro câncer da mulher, para se dedicar integralmente a ela. Estavam vivendo de economias. Na Capital, conseguiram um teto numa casa de freiras. Desde então, a vida mudou. A alimentação também. “A gente nunca pensa, não é? Agora estou me alimentando direito”, concluiu.

Máquina em manutenção

O Hospital Napoleão Laureano, referência estadual no tratamento do câncer, conta hoje com três modernos aceleradores lineares, equipamentos utilizados para a radioterapia, uma das formas de enfrentamento à doença. Hoje, de acordo com o diretor do hospital, João Simões, são cerca de 240 pacientes que se submetem ao procedimento todos os dias, a maioria em 28 sessões, de cerca de oito minutos diários. A tecnologia é avançada, mas também tem sido responsável pela interrupção do tratamento de vários doentes, como a secretária Maria do Socorro Davino.

Aos 54 anos, ela não imaginava que teria que passar por episódios mais angustiantes do que a própria descoberta do câncer de mama e a retirada do seio, no ano passado. Depois da quimioterapia, deu início, em 31 de janeiro, à radioterapia no Laureano. Eram para ser 28 sessões, um dia após o outro, a última terminando no começo do mês passado. Apesar disso, até a última quarta-feira, ela ainda se encontrava à espera da última sessão.

“Foram várias interrupções tanto por máquina quebrada, quanto por feriados. A máquina vive em manutenção. Teve uma vez que quebrou e passou oito dias sem ninguém nem pisar no hospital. Depois de oito dias, voltou, mas, com dois dias, parou de novo. Isso não é só de agora. Conversando com outras pessoas, elas disseram que é coisa antiga e que vem se arrastando. Não sei a quem recorrer. As pessoas já estão doentes e ainda mais passando por esse desgaste! Foram várias as vezes em que cheguei em casa cansada, com dor de cabeça. Lá, eles não oferecem nada, nem um lanche. Quando oferecem, é através de voluntários, que vêm como anjos da guarda”, contou.

Diretor se explica

O diretor João Simões confirmou a situação, mas atribuiu as interrupções a fatores que estão fugindo da capacidade do hospital. “As máquinas são de alta resolução, muito sensíveis. Nossa energia é precária. Quando cai (a energia), causa problema em alguns equipamentos. Temos várias proteções, mas as máquinas são sensíveis demais. Todas são fabricadas nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde existe uma energia contínua e sem nenhuma variação”, explicou, acrescentando que a manutenção é caríssima. Uma única peça chega a custar mais de R$ 100 mil.

 

 

Tássio Ponce de Leon

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