Pai desvenda assassinato do filho e desmascara o Estado

Publicado em segunda-feira, julho 14, 2014 ·

daniel“Meu nome é Daniel Eustáquio de Oliveira, pai de Cesar Dias de Oliveira, de 20 anos, que foi assassinado pela polícia em primeiro de julho de 2012, junto com seu amigo Ricardo Tavares da Silva, também de 20 anos, em uma’suposta’ resistência seguida de morte.” O depoimento abre o documentário Quando Eu Me Chamar Saudade, dirigido por Renan Xavier, Laison Nascimento e Daniel Santos.

O curta-metragem, originalmente produzido como trabalho de conclusão de curso de Jornalismo, conta uma história que se repete constante e especialmente nas periferias. De diferente, apenas o desfecho. “Três horas após eu receber a notícia da morte do meu filho, eu corri para este local, a Avenida Pablo Casals, que foi onde aconteceu o assassinato. A partir desse dia, comecei a vir aqui todos os dias fazer uma investigação particular porque a história não batia”, conta o pai de Cesar que, durante 27 dias, foi ao local do crime para falar com as testemunhas.

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Daniel conhecia o filho e tinha certeza de que não se tratava de resistência seguida de morte. A um policial que chegou depois à cena do crime, questionou as contradições. “Você está falando que meu filho, fugindo da polícia, caiu com a moto, saiu tombando e levantou atirando contra a guarnição. Me mostre um arranhado que seja nesta moto. Ela não caiu, ela foi deitada no local que estava. Não tem frenagem de carro nem de moto, não tem hematoma de tombo. Outra: segundo a ocorrência, meu filho vinha descendo com a moto e a viatura atrás. Por que os tiros estão na frente e na transversal, não tem nada em paralelo e na diagonal?”, enumerou Daniel, entre outras inconsistências. “Ele chegou bem pertinho de mim e disse: ‘Cara, os policiais fizeram merda’”.

No Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), um dos investigadores foi direto: “Você tem todo o direito de discordar (do boletim de ocorrência), mas se você acha que está errado, tem de buscar provas e testemunhas”. Foi o que fez.

Meses depois, apareceu “M”, a testemunha-chave, que revelou o que realmente aconteceu: a moto com Cesar e Ricardo cruzou a frente da viatura, um dos policiais colocou o corpo para fora do carro e disparou, sem sinal de giroflex nem sirene. “Atiraram neles sem que esboçassem qualquer reação. Eles não atiraram nenhuma vez nos policiais. Nem para trás eles chegaram a olhar. (…) Não foi uma legítima defesa dos policiais. Foi uma execução, um duplo homicídio”, declarou a testemunha. Depois de muita insistência e sofrimento, Daniel reuniu provas o suficiente para que os investigadores averiguassem o ocorrido. “Foi desmascarada a farsa que eles fizeram e hoje estão pagando por isso”, afirma Daniel.

O documentário, que pode ser assistido na íntegra pela internet, nasceu da vontade dos três alunos de abordar a questão da segurança pública sob a perspectiva dos direitos humanos. Decidiram pelo tema influenciados por uma das maiores crises de segurança do estado de São Paulo, iniciada em junho de 2012. “Na época, a morte de um agente de segurança era seguida quase que invariavelmente por um aumento nos números de homicídios na mesma região, numa espécie de represália empreendida ora por PMs fardados, que alegavam reagir a supostos confrontos, ora pela ação de encapuzados, com claros indícios da participação de policiais”, declarou Renan Xavier, um dos diretores do filme.

“Reconhecemos que histórias como a de Daniel, que culminam na prisão dos agressores, são uma minoria quando esses agressores são membros da própria instituição policial. No entanto, acreditamos que, em meio a esse triste cenário social, a narrativa da história de um pai que desafiou o Estado em busca de justiça, possa confortar e trazer esperança àqueles que compartilham lutas semelhantes”, diz o jovem diretor.

Assista ao curta-metragem em

 

por Xandra Stefanel, especial para RBA

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