Os tempos eram outros (2)

Publicado em sábado, outubro 25, 2014 ·

artigoramalho

Trago hoje mais dois exemplos da fidelidade dos políticos do passado aos seus líderes. Desde a antiga UDN e depois na ARENA meu pai acompanhava Clovis Bezerra. Era ele o nosso deputado estadual. Trocar Clovis Bezerra por outro era para Arlindo Ramalho uma tarefa impossível. Só deixou Clovis Bezerra para votar no próprio filho, eu. Sua casa de comercio advinda da sociedade com  “Seu”  Guilherme, o alemão que teve sua loja queimada em Moreno (Solânea) após o afundamento de navios brasileiros pelos submarinos de Hitler,(essa é outra história) foi levada pela política. Sem comercio e sem emprego meu pai foi procurado pelo Deputado Fernando Milanez.

Milanez representava Draut Ernani, candidato a deputado federal com quem fazia dobradinha. O vereador Arlindo Ramalho receberia um emprego de Fiscal do Instituto de Açúcar e do Alcool, um jeep para fazer a campanha e cobertura de todas as despesas eleitorais. Naquele tempo não existia fundo partidário nem prestação de contas de candidato.  Ouvida a proposta meu pai disse que precisava de tempo pois teria que consultar Clovis Bezerra.  Este  respondeu que não tinha como se opor a qualquer decisão que meu pai tomasse pois sabia da suas dificuldades e o emprego era indispensável à manutenção da sua família.O meu tio Elpídio, então gerente de Matarazzo, intermediou esse encontro.

Voltando a se encontrar com Milanez meu pai comunicou que  estava pronto a oferecer seu trabalho em favor da candidatura de Draut. Ao encerrar a conversa Milanez lembrou que era candidato a deputado estadual e o acordo envolvia também alguns votos para a sua eleição.

-Meu amigo, respondeu meu pai. Fico grato por terem se lembrado de mim. Estou mesmo precisando de emprego mas  para tirar voto de Clovis Bezerra prefiro continuar desempregado. E despediu-se de Milanez  e do IAA.

Silvio  Porto, pai do desembargador Zeca Porto era deputado estadual e  arranjou um emprego para meu irmão na Secretaria do Interior e Justiça da qual era titular. Sabia do compromisso de meu pai com Clovis Bezerra mas me pediu pelo menos um voto em Borborema. No dia da eleição meu irmão Antonio Carlos que hoje é Promotor de Justiça aposentado passava de mão em mão as chapinhas do nosso candidato mas estava designado para votar em Silvio Porto. Na hora de votar  esqueceu o compromisso e votou mesmo em Clovis Bezerra.  Fiquei aflito pois quebraria minha palavra com Silvio. Fui em busca de alguém que, já perto das cinco horas, não havia votado ainda. Encontrei a minha mãe e muito a contragosto ela concordou em honrar a minha palavra e dar seu voto a Silvio Porto.

Alguns dias depois da eleição Clovis Bezerra passou lá em casa, em Borborema, já reeleito e vai agradecer os votos que obteve na cidade. Nesse tempo se fazia isso…Minha mãe, antes de ser cumprimentada foi logo contando a história. E concluiu:

– Me obrigaram a votar contra o senhor, ainda estou contrariada…

Clovis Bezerra compreendeu e saiu comovido com aquela prova de fidelidade eleitoral e de amizade. Os tempos eram outros. (Escrevi esse texto em homenagem à minha mãe,poucos dias após seu falecimento em 2011. Meu único irmão, Promotor de Justiça, também já nos deixou.Quem permanece entre nós são os políticos sem vínculo com a ética ou a fidelidade aos compromissos assumidos, razão da republicação deste artigo.)

 

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