O que virá após a morte de Bin Laden?

Publicado em quarta-feira, maio 4, 2011 ·

osamaBinLaden_A morte do líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, é politicamente importante para o presidente dos EUA Barack Obama – sirvam de testemunha as alegres multidões que se reuniram do lado de fora da Casa Branca mesmo antes de seu discurso no domingo à noite. Seu impacto na al-Qaeda, no entanto, é mais difícil de ser medido.

Peter Bergen, um jornalista americano, disse na CNN que a morte de Bin Laden marcou “o fim da guerra ao terror”. Mas muitos outros analistas discordaram: a Al-Qaeda, afinal, é uma organização muito diferente em 2011 do que era em 2001, com um novo quadro de líderes e uma gama mais ampla de grupos afiliados.
Analistas muito debateram a profundidade com a qual Bin Laden – e seu representante, egípcio, Ayman al-Zawahiri – dirigiam as operações da al-Qaeda. Os dois homens estiveram se escondendo desde os ataques de 11 de setembro de 2001 aos EUA, deixando seus subordinados para cuidar de muitas das operações do dia-a-dia do grupo. Grupos afiliados, como a al-Qaeda na Península Árabe, já operam com relativamente pouca direção da liderança do território do Afeganistão-Paquistão.

“Freqüentemente se assume que os principais papéis desempenhados por eles, particularmente no caso de Bin Laden, eram de líderes propagandistas ou mesmo meras figuras públicas”, disse Bárbara Sude, uma antiga analista da Al-Qaeda da CIA, num documento político publicado no ano passado.

De fato, uma série de jovens líderes – alguns deles agora mortos – emergiu para cumprir papéis fundamentais no grupo ao longo dos últimos anos, ampliando sua liderança. São eles Abu al-Yazid; Abu Yahya al-Libi; e Atiyah abd al-Rahman.

Se Bin-Laden era somente uma figura pública, então poderia se dizer que já cumpriu seu propósito: Sua ideologia e estratégia se espalharam pela Al-Qaeda, tanto na organização central no Afeganistão e no Paquistão quanto nos grupos afiliados em outros lugares.

“Este é um grande abalo para a rede jihadi em muitos aspectos, mas não mata a Al-Qaeda,” disse Daveed Gartenstein-Ross, diretor do Centro para Estudos da Radicalização Terrorista na Fundação pela Defesa das Democracias, baseada em Washington. “O grupo jihadi possui outros líderes que podem assumir para servirem como figuras públicas ao grupo.”

A morte de Bin Laden, em outras palavras – embora simbolicamente significativa – pode significar pouco para os recursos que tem a Al-Qaeda.

“Catastrófico se autêntico”


A reação da Al-Qaeda e de seus simpatizantes até agora foi silenciosa. A ala de propaganda do grupo até agora não lançou um vídeo-tributo a Bin Laden, nem comentou nas reportagens sobre sua morte.
Nos fóruns da internet simpáticos à Al-Qaeda, a maioria dos comentadores pareceram chocados pelas reportagens da morte de Osama Bin Laden.
No passado, quando autoridades americanas anunciavam a morte de membros do alto-escalão da al-Qaeda, os comentadores frequentemente rejeitavam estas reportagens. Mas este último anúncio feito por Obama, por outro lado, parece ser visto com mais credibilidade.

“Se é verdade então devemos agradecer Allah pela América não tê-lo capturado vivo,” dizia um comentário. “Do contrário, estariam humilhando-o como Saddam Hussein.”

“Deus queira que estas notícias não sejam verdade. É catastrófico se for autêntico,” disse outro.

O Departamento de Estado dos EUA lançou um alerta mundial para os cidadãos americanos em viagem, e o exército americano aumentou seu nível de “força de proteção”, que mede ameaças a bases militares. Um administrador sênior disse que não havia nenhuma ameaça específica, no entanto.

‘Nenhum outro país foi informado’


Outra questão premente é o que significa a morte de Bin Laden para a já tensa relação EUA-Paquistão. Os dois países se confrontaram publicamente nos meses recentes a respeito de ataques dos EUA no noroeste paquistanês e a respeito do caso de Raymond Davis, um contratante da CIA preso por assassinato em Lahore e liberado depois que “dinheiro com sangue” foi pago às famílias de suas vítimas.

Obama no passado louvou o governo paquistanês por sua cooperação na caçada à Bin Laden. E algumas autoridades do ISI, a agência paquistanesa de espionagem, declaradamente desempenharam um papel na sua eventual morte, de acordo com as reportagens da mídia.
Mas a Casa Branca rapidamente rejeitou este feito: numa reunião no domingo à noite, um administrador sênior disse aos repórteres que o Paquistão não teve participação na operação que levou à morte de Bin Laden.

“Uma operação como esta tem que ter o maior aparato de segurança”, disse a autoridade. “Nenhum outro país foi informado, e um pequeno círculo de pessoas dentro dos Estados Unidos sabia sobre isso.”

Obama, ao agradecer ao Paquistão, também pareceu advertir as lideranças do país, dizendo ser “essencial que o Paquistão continue conosco na luta contra a al-Qaeda”. Outras autoridades foram mais longe, descrevendo o longo esconderijo de Bin Laden no Paquistão como uma causa de preocupação e uma potencial fonte de fricção na relação.

“Nós estamos muito preocupados com a situação no Paquistão… mas isto é algo que precisamos trabalhar com o governo paquistanês,” disse um funcionário.

Também não está claro se a morte de Bin Laden terá algum impacto sobre a guerra no Afeganistão, agora em seu décimo ano. Obama não mencionou nenhuma mudança estratégica durante seu discurso; Bin Laden foi morto do Paquistão, não no Afeganistão; autoridades dos EUA admitem que só um punhado de membros da al-Qaeda restou no Afeganistão.

Em outras palavras, a guerra – que começou punindo os perpetradores dos ataques de 11 de setembro – pode muito bem destruir também os arquitetos daqueles ataques.

Tradução de Cainã Vidor. Publicado originalmente em http://english.aljazeera.net/indepth/2011/05/20115255840441224.html. Foto de http://www.flickr.com/photos/cainandtoddbenson/.

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Com Gregg Caristrom

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