O meu amigo Pedro Gondim

Publicado em sexta-feira, Maio 2, 2014 ·

artigoramalho

Menino perambulando pelas ruas de Borborema, minha atenção foi chamada por um movimento diferenciado na estação ferroviária. Não havendo previsão de trem de carga ou da chegada de uma “gasolina”, gente na estação, só à noitinha, próxima à chegada do comboio que vinha da Capital com as noticias trazidas pelos passageiros e pelos jornais do dia. A curiosidade me  aproximou da plataforma. Indaguei e descobri do que se tratava. Era gente de Serraria que acompanhara Pedro Gondim até o telégrafo, ansiosa como ele, para saber se estava eleito deputado estadual. Telegrafava para Caiçara e esperava a resposta. Para Mari e Mulungú e outros redutos pessedistas. A cada resposta com a quantidade de votos apurados para Pedro Gondim, seus companheiros faziam a festa. De Borborema ninguém se aproximava. O deputado local era Clovis Bezerra e já saíra eleito do velho município de Bananeiras. Só restava comemorar. Pedro, mais sofrido, catava os votos pingados para completar a legenda. Foi eleito e essa foi sua ultima eleição para deputado estadual. Desse mandato, sairia vice-governador de Flavio Ribeiro na pacificação engendrada por José Américo e aceita por Argemiro de Figueiredo, Rui Carneiro e João Agripino.

Passados alguns anos reencontro Pedro Gondim na Faculdade de Direito onde fora proferir uma aula inaugural do ano letivo de 1963. Consegui acompanhar com dificuldade suas largas passadas e o abordei. Queria trabalhar no Palácio e já sendo servidor publico estava mais fácil. Esclareci que estava começando na imprensa. Me apresentei: “sou filho de Arlindo Ramalho, prefeito de Borborema”. “A origem é boa”, respondeu, agradando minha vaidade. E me mandou procurar José Barbosa de Souza Lima que era o chefe da Sala de Imprensa do Palácio, um embrião da futura Secretaria de Comunicação. Da Sala de Imprensa passei ao Gabinete do Governador e era sua companhia escolhida para as reuniões da SUDENE, naquele tempo, respeitável fórum dos governadores do nordeste.

Na campanha de João Agripino para governador, ficou arredio. Só participaria se o seu nome fosse bem acolhido pela UDN. Me disse isso, escorado em uma janela do terraço do Palácio cujo piso tinha mosaicos que reproduziam a suástica de Hitler, mandada retirar pelo governador Antônio Mariz. Ele sabia da minha ligação política com Clovis Bezerra, figura exponencial da UDN. Entendi que ele mandava um recado por mim. O recado foi dado e a UDN o recebeu em festa no primeiro comício da Torrelândia. Sua presença levou o funcionalismo a votar em João Agripino, àquela altura, apontado injustamente como inimigo da classe. Seu apoio foi decisivo à eleição de JA.

Quando deixou o governo e candidatou-se a deputado federal, eu e meu pai abrimos uma dissidência com Clovis Bezerra, que apoiava Joao Úrsulo Ribeiro. Votamos em Pedro Gondim, merecedor de toda a nossa votação em Borborema, cidade que emancipou e dotou de luz elétrica de Paulo Afonso. Ainda estudante, fui um dos oradores da festa de inauguração da energia da CODEBRO, empresa que Pedro Gondim instalou para eletrificar o brejo, depois transformada por João Agripino em SAELPA. Borborema, diga-se de passagem, era pioneira no nordeste em energia hidrelétrica, graças à capacidade vanguardeira de Jose Amâncio Ramalho, pai do general Edson Ramalho que viria a ser um dos fundadores da CODEBRO.

Quando Pedro Gondim era deputado federal estive em Brasília pela primeira vez, de passagem para o Rio onde teria uma audiência com o presidente Costa e Silva, paraninfo da nossa turma da Faculdade de Direito e depois, de toda a Universidade, naquele ano de 1967. Hospedei-me no Hotel das Nações e quando fui pagar a conta, estava paga. Meu deputado chegara mais cedo e liquidara o débito. Era esse o homem, capaz de gestos às vezes acima do seu alcance de modo a demonstrar sua amizade. Cassado, não teve tempo de mostrar ao Brasil quem era o líder que a Paraíba mandara ao Congresso Nacional. Sua cassação, por se rebelar contra o Planalto e negar seu voto à cassação de Marcio Moreira Alves reafirmara posição de dez anos atrás quando avisou ao PSD de Rui Carneiro que lhe ameaçava de expulsão: “Prefiro ser expulso por rebeldia a ser condecorado por subserviência”.

Cassado, viveu vida modesta de servidor público aposentado. A pensão de ex-governador, inserida na Carta Federal para beneficiar o enfermo presidente Costa e Silva era negada a todos detentores de mandatos retirados pelo regime militar ou que tiveram seus direitos políticos cassados. Como deputado estadual, apresentei emenda modificativa à Constituição da Paraíba, que permitiu a Pedro Gondim receber a pensão vitalícia de ex-governador. Saindo os militares do poder, foi indicado pelo  José Sarney para uma diretoria do Banco do Nordeste. Ainda tentou uma eleição para o Senado. Os tempos eram outros e os serviços prestados a Paraíba já estavam esquecidos. Enquanto esteve sob o severo normativo do estatuto dos  cassados, amargou a distancia dos que se diziam amigos e comparecia apenas a enterros, dizia, porque não precisava de convite…

Já carregando algumas enfermidades, Pedro Gondim freqüentava diariamente a sede da Associação dos Procuradores onde o vi muitas vezes meter a mão no bolso para atender a pessoas do povo que o procuravam para a compra de um remédio ou o pagamento da conta de luz. Procurador aposentado do estado, somava seus parcos proventos com a pensão vitalícia e assim mesmo, confessava-se um eterno devedor. Morreu como viveu, pobre e digno. Seu patrimônio se resumiu a uma legião de amigos entre os quais me incluo. Sua obra reflete o homem sensível, o poeta bissexto e o intelectual consagrado que ocuparia uma cadeira na Academia Paraibana de Letras. Sua imortalidade, porém, já estava assegurada antes do laurel acadêmico. Pedro Moreno Gondim, nasceu em primeiro de maio de 1914. Dia do Trabalho e neste próximo primeiro de maio, se vivo estivesse, completaria cem anos.

RAMALHO LEITE

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