O Almirante do povo

Publicado em domingo, julho 21, 2013 ·

artigoramalho

A última vez que o Almirante Cândido da Costa Aragão esteve nesta capital, já depois de anistiado, recepcionei-o com um almoço na minha residência do Jardim Luna. José Aragão, seu primo e meu sogro, pedira a cada membro da família para o acolher com carinho. Era uma forma de compensá-lo dos sofrimentos e da distância que mantivera dos seus.  Chamei alguns amigos, entre os quais Jório Machado, Edivaldo Motta e Orlando Almeida.O militar, cansado e cego de um olho, resultado de torturas  na Fortaleza de Lajes, se queria falar, não conseguiu, mesmo diante da insistência de  Jório, já deputado, mas que não largava seu faro de repórter. A segunda esposa do almirante, Aldalina Bobadilha, uma chilena com quem andou por vários países durante o exílio de quinze anos, não deixava que abrisse a boca sobre o passado. Ainda vivia apavorada com os inimigos do chamado Almirante do Povo.

Cândido Aragão, nascido em quatro de setembro de 1907, nesta cidade de João Pessoa, começou sua carreira como soldado, chegando a capitão-tenente em 1938. Durante a Segunda Guerra comandou a Ilha de Trindade, e em 1948, cursou a Escola de Guerra Naval. Por suas posições políticas, foi reformado no posto de capitão- de -corveta e ficou afastado da Marinha até 1955 quando retornou à ativa por decisão judicial. JK o fez contra-almirante fuzileiro naval, e  João Goulart, vice-almirante. No mesmo ano, 1963, nomeado Comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, alí foi alcançado pelo golpe militar de 1964. Um estopim para a deflagração do movimento que   tirou  Jango do poder e  entronizou os militares por três décadas, foi a atuação do  paraibano como líder dos marinheiros rebelados.

Eclodido o movimento armado, Candido Aragão foi preso. Graças a um habeas-corpus concedido pelo Superior Tribunal Militar foi solto após quatro meses de cárcere. Pediu asilo político no Uruguai. Regressou ao seu País em 1979, já na vigência da Lei da Anistia – o que não impediu que fosse novamente preso por 49 dias.  Tempos depois, era  absolvido em todos os processos instaurados contra ele. Foi promovido a Almirante pelo presidente João Figueiredo.

Um dos poucos militares a permanecerem  fiéis ao presidente João Goulart, Candido Aragão virou alvo predileto dos defensores do novo regime e tornou-se inimigo fidagal de Carlos Lacerda.

Ao registrar o falecimento do Almirante do Povo,em 11 de novembro de 1998, no Rio,   a revista Veja conta que em primeiro de abril de 64, Aragão foi surpreendido por uma mensagem através de emissora de  radio: “Aragão, covarde,incestuoso,venha decidir comigo essa parada! Quero matá-lo com o meu revolver” . A voz era de Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, injuriado com os boatos, nunca confirmados, de que o almirante se preparava para invadir O Palácio Guanabara,  onde Lacerda estava cercado de barricadas.

Puxei da minha memória a presença de Cândido Aragão entre nós, para lembrar que  há quem defenda a substituição dos nomes dos militares vitoriosos em 64 e que são patronos de conjuntos residenciais,  praças e ruas, pelos nomes dos que foram derrotados. Sou contra. Todos fizeram parte da historia deste País. Defendo sim, que também de encontre espaço para homenagear os que foram presos, torturados e mortos.Em Sapé, a rodovia onde trucidaram João Pedro Teixeira, ganhou o seu nome. Brizola denomina escola na Beira-rio.Jango continua “deshomenageado”.Candido Aragão, o Almirante do Povo, é paraibano como nós. Merece ser lembrado e pranteado. O prefeito do Rio batizou uma rua na Barra da Tijuca com o seu nome. Falta a  Paraíba, às vezes  ingrata, destacar os seus filhos mais ilustres.

 

RAMALHO LEITE

 

 

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