Nice Almeida – Saudade, meu remédio é cantar

Publicado em segunda-feira, junho 4, 2012 ·

O ritual se repetia apenas três vezes por ano e começava pontualmente às 17h. Do quintal de casa ela, minha avó Rita, saía carregando a lenha cuidadosamente para não sujar a casa que havia passado por uma bela faxina. Nesse ritual ela reinava soberana durante quase uma hora. Ninguém se atrevia a tomar a frente daquela tarefa a qual ela fazia questão em ter exclusividade.

‘Impedido” de se intrometer, meu avó Manoel se fazia presente observando tudo de seu pequeno tamborete onde ficava sentado na calçada de casa, local onde a fogueira era  carinhosamente preparada.

A sala do meio (sala de jantar) abrigava a vitrola que num tom ameno e alegre deixava nosso rei do baião, Luiz Gonzaga, recitar seus poemas em forma de canção.

A sala da frente (sala de estar) era um verdadeiro perigo, já que as bandeirolas e os balões coloridos tentavam os netos de dona Rita e seu Manoel a correrem e pularem na tentativa de acertar o alvo: o balão localizado exatamente no centro da ornamentação. A brincadeira por muitas vezes quase nos levava a destruir o enfeite da sala levando nossa avó a loucura.

Na cozinha estava guardada a parte mais gostosa da festa. As panelas ficavam sempre recheadas de pamonha, canjica e milho cozido preparados com muito capricho.

Às 18h em ponto era chegado o grande momento. Santo Antônio, São João e São Pedro eram religiosamente homenageados com a fogueira acesa, claro, por dona Rita.

Era a partir dessa hora que a festa começava para nós, os netos, que não perdiam jamais esse momento sublime e eterno. Era chegada a hora de soltar os fogos. A minha avó Rita e o meu avô Manoel não abriam mão disso e, para garantir nossa alegria, eles compravam quilos de fogos. Na fila, cada neto era pacientemente orientado a soltar o rojão adequado para a sua idade.

Depois disso era a hora de assar uma boa espiga de milho e comer sentado à beira da fogueira comentando sobre as nossas últimas travessuras e dando muitas, muitas risadas.

Na época nós não desfrutávamos da tecnologia que dispomos atualmente. Também não entediamos, naquela ocasião, o quão importante, precioso e grandioso eram aqueles momentos.

Por isso, nada foi filmado ou sequer fotografado. Tudo está gravado apenas na nossa humilde memória. Nas nossas doces e eternas lembranças que nos trazem muita saudade.

Mesmo assim, ninguém pode dizer que me viu triste a chorar porque saudade, meu único e melhor remédio é cantar.

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