Nice Almeida – Amor além da vida

Publicado em quinta-feira, junho 14, 2012 ·

“Tá sentindo o quê minha véia?”. A pergunta é repetida pelo meu avô Manoel dezenas de incansáveis vezes durante todo o dia. A inquietude tem uma razão: sua companheira de mais de 60 anos, dona Rita, não anda nada bem e ele, como que pressentindo que a despedida pode estar próxima, não arreda pé da cama que sustenta o já cansado corpo dela.

Os dias têm sido compridos. As noites cada vez mais longas. Enquanto a temperatura esfria lá fora, aqui dentro ela sobe com o calor da emoção que nos comanda e com a febre da minha avó Rita que não cessa, mesmo depois de todo nosso esforço em curar a sua infecção, antes que ele se generalize.

Em um braço um soro para alimentá-la, já que comidas não mais podem ser ingeridas. Do outro lado um balão de oxigênio nos mantém em alerta. Um princípio de parada cardíaca ocorrido na manhã desta sexta-feira (29) foi o sinal que a qualquer momento será necessário usá-lo.

E no meio de tanta tensão e também de tristeza, pois não a queremos perder, uma grande lição de vida. Estamos todos aqui unidos, lutando, correndo, nos esforçando para mantê-la viva.

E o grande e maior herói desta história tem sido mesmo meu avô. É ele quem tem nos proporcionado o maior de todos os ensinamentos: o AMOR. Mas não aquele amor que acaba com a primeira briga ou no primeiro obstáculo. O amor que ele tem nos ensinado é aquele que vai além da vida.

Tem sido difícil segurá-lo. Ele não quer sair de perto dela nem um instante. E, como a sua saúde também não anda nada bem, em alguns momentos precisamos retirá-lo de cena, mesmo contra a sua vontade.

E ela, embora inconsciente, sabe e sente a presença dele. Aperta a sua mão com toda a força que lhe resta e o chama carinhosamente de ‘papai’. “Ô papai, eu to tão doente papai”. Responde dona Rita como que, inexplicavelmente, retribuindo e demonstrando que o amor que ela sente por ele também é tão grande que não pode ser esquecido.

Fico me perguntando: será que esse amor acabará com a morte como dizem os padres no momento do casamento? Acredito eu que não, pois como explicar que alguém que está sem consciência consiga lembrar apenas de um único ser: o seu marido, o seu amor da vida inteira, o seu maior e melhor parceiro.

Acho que teremos que mudar a frase, ao invés de: “até que a morte os separe” nesse caso terá que ser “por toda a eternidade”.

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