“Não admitimos opinião em nosso jornalismo”, diz Américo Martins, da RedeTV!

Publicado em domingo, novembro 6, 2011 ·

AMERICO INTERNAEm outubro de 2010, Américo Martins deixava uma temporada de 13 anos em Londres – como diretor de jornalismo da BBC -, para assumir a direção de jornalismo da RedeTV!. À época, em entrevista à IMPRENSA, o jornalista admitia que não vinha a passeio. Um ano depois, o portal volta a entrevistá-lo sobre as mudanças que ocorreram na emissora nesses 12 meses e o atual processo de reestruturação de seu departamento.
Suas ambições não eram e nem são modestas. O objetivo é “fazer o melhor conteúdo editorial da televisão brasileira”. Mas ele reconhece que “não é possível dizer que tudo está perfeito. Fizemos alterações, mas ainda temos de acertar muitas coisas”.

Em um ano, ele conseguiu imprimir seu estilo ao jornalismo da RedeTV!. Fez ajustes em programas que já estavam no ar e prepara uma série de pilotos de novas atrações jornalísticas. Entre eles, um programa de debates que será apresentado por Kennedy de Alencar, direto de Brasília. Martins também acumulou os departamentos de esporte e o portal, sendo, agora, superintendente de jornalismo e esporte.

No dia em que IMPRENSA o entrevistava – em 27 de outubro -, a vitória da Globo para transmitir o Ultimate Fighting Championship (UFC) foi anunciada. Após três anos transmitindo o evento, a emissora estava em negociação para renovação de contrato. Segundo Martins, a RedeTV! “foi sim responsável pela popularização do esporte no Brasil”.
Adolfo Vargas Américo Martins
Apesar de manter veneração pela BBC, Martins não tenta impor nenhum modelo britânico, mas acredita que algumas coisas podem ser tidas como exemplo. Uma das coisas que ele rechaça no jornalismo brasileiro é a opinião. Para ele, ela jamais deveria existir. “Não admitimos opinião em nosso jornalismo. O que nossos comentaristas produzem são análises, mas nunca opiniões”.

IMPRENSA – Como tem sido esse primeiro ano? Que balanço você faz da reestruturação do jornalismo da casa? Américo Martins – Foi um ano excelente, tanto do ponto de vista pessoal, como profissional. A gente conseguiu expandir nosso departamento de jornalismo em número de pessoas, contratamos mais de 70 profissionais. Conseguimos expandir fisicamente a redação. Nesse período, do ponto de vista pessoal, nunca estive tão satisfeito. Minha adaptação de volta ao Brasil foi muito boa. Estamos trabalhando muito, mas conseguimos fazer várias coisas.
Quais mudanças você destaca?
Neste processo, eu assumi o esporte e, recentemente, o portal. Tivemos resultados editoriais importantes. Algumas coisas que marcaram foi o primeiro debate presidencial da história da emissora. Além dele, fizemos cinco debates estaduais. No começo do ano que vem, teremos debates municipais. Estamos criando uma tradição de cobertura política na casa. Além de aumentar o quadro de colegas, também expandimos a equipe de correspondentes. Agora, são seis. Fizemos coberturas importantes. O Franz Vacek, nosso correspondente, foi o primeiro repórter brasileiro a entrar na Líbia. Aqui, no Brasil, criamos um pequeno núcleo de reportagem investigativa. Reformulamos todos os programas da casa. Nada feito com muito estardalhaço. Fomos, lentamente, arrumando a casa.
Houve mais sinergia entre conteúdo e entretenimento?
Foi um dos grandes feitos. Hoje, o nível de colaboração é muito maior com programas como “Hebe” e “Manhã Maior”. Na primeira semana que eu cheguei, estava sendo transmitido o caso do goleiro Bruno. O programa “A Tarde é Sua” estava entrevistando, no estúdio, o advogado do Bruno. Eu estava acompanhando o programa, fui à redação e pedi para pegar o material com a Sônia Abrão. O pessoal me olhou com uma cara estranha, como se dissessem: ‘o jornalismo não pega coisas do entretenimento e não dá coisas para o entretenimento’. E eu fiquei chocado. Mas, como é a mesma emissora, eu quero valorizar o material que os colegas pegaram.
Novos programas e formatos estão para surgir?
Desde que cheguei houve reformulações em absolutamente todos os programas da casa. “Leitura Dinâmica” foi o que menos mudou porque era o mais bem acabado. “RedeTV News” teve grandes transformações, o “Aconteceu” mudou, o “Good News”, o “É Notícia” teve seu cenário reformulado. Criamos o “Boletim de Notícias”, que é exibido ao longo do dia. Agora, temos, também, espaços novos. Vamos ter um programa novo de esporte no final da tarde, um programa de debate no início da noite, e pretendemos lançar um programa de entrevistas econômicas. Alguns já vamos lançar agora no final do ano.

Wayne Camargo Debate presidencial realizado em 2010 Como está sendo o desafio de trabalhar a rede?
As afiliadas são muito importantes para nós em vários lugares do Brasil. Rede Pampa, em Porto Alegre (RS); TV Brasília, TV Arapuã, em João Pessoa (PB). São grandes parceiras. A gente ampliou o quadro no Nordeste, abrimos uma sucursal em Salvador (BA), ampliamos o quadro em Recife (PE) e Fortaleza (CE), com a intenção de lançar um jornal regional para o Nordeste. E, obviamente, contamos com a colaboração das afiliadas. Sempre valorizamos as afiliadas.
Você acredita que existe uma tendência de crescimento no jornalismo local?
O jornalismo local sempre foi muito importante, não só para a televisão, mas para todos os meios. Nós temos jornalismo local no Rio de Janeiro, Minas Gerais e queremos lançar no Nordeste, como eu disse. Até agora, nosso maior foco foi nacional, mas, posteriormente, o regional é muito importante. Só que o grande desafio é saber julgar o que é notícia local e o que tem relevância nacional. Esse que é o grande desafio. E temos feito esse exercício diariamente. Nossos coordenadores de praça que fazem essa peneira.
Hoje, a RedeTV! fala muito sobre a questão da tecnologia. Mas quais são os outros diferenciais do jornalismo da emissora?
O jornalismo da RedeTV! se destaca das outras emissoras brasileiras por dois aspectos: o primeiro é a qualidade do conteúdo editorial. Eu quero simplesmente que façamos o melhor conteúdo editorial da televisão brasileira. É simples: nada mais do que isso. Parece arrogante, soa arrogante, mas é a realidade. Estamos fazendo isso? Estamos no caminho. Mas quero fazer um conteúdo relevante para as pessoas, que seja didático e absolutamente correto do ponto de vista de isenção e equilíbrio.

Renata de Paula Apresentadora Anelise de Oliveira
Isso significa tentar adaptar o modelo da BBC aqui?
Olha, dos 13 anos que eu passei na BBC, a discussão foi muito por esse caminho. Não existe possibilidade de nenhuma emissora brasileira se transformar em uma BBC e não acho que deva ser o objetivo de ninguém. A BBC existe na realidade britânica. Nós vivemos em outra realidade. Não temos que copiar os outros, temos que pegar as melhores coisas que vemos em outros lugares e trazer para cá. Inclusive, temos emissoras brasileiras de altíssimo nível e podemos adaptar coisas que dão certo em outras emissoras. E outra coisa muito importante: o jornalismo da RedeTV! não tem opinião. Eu vejo na imprensa brasileira que existe muita opinião.
Opinião com espaço definido ou misturada ao conteúdo?
Nas reportagens e fora das reportagens. É um ‘achismo’ sensacional e nós não temos opinião. Quando pautamos alguma coisa não é no sentido de ‘vamos dar um pau nesse cara’. Tentamos reportar o que está acontecendo com todos os ângulos e lados possíveis. A RedeTV! não julga ninguém; quem tem de julgar é a audiência que é inteligente para isso. Ela deve fazer seu julgamento a partir dos dados. Não temos editorial e nem opinião. Não existe opinião em nosso jornalismo, isso é um compromisso acertado com a empresa e a presidência. O que eu defendo é a análise, que é absolutamente diferente de opinião. Você nunca vai ver a RedeTV! falando que defende essa ou aquela opinião.

Renata de Paula Anderson Silva, Maurício Shogun e Minotauro
Você viu mudanças no jornalismo de TV no Brasil?
Acho que é o momento de buscar formatos diferentes. Inovar o tempo todo. A RedeTV! é a emissora mais tecnológica. Esse ambiente também ajuda na hora de inovar. Queremos ser uma emissora de vanguarda, antecipando tendências e programas que revolucionaram, como o “Pânico”. O jornalismo também acompanha esse ritmo. Ela [a emissora] traz tendências e a tecnologia permite muito isso. Tentamos usar essa tecnologia para transformar, em formatos diferentes e ousar.
Desde que você chegou, que tipo de diferença observou na mídia brasileira?
Eu sempre acompanhei muito de perto a mídia no Brasil. Tenho amigo em todas as redações; trabalhei aqui antes. Quando eu estava na BBC, era responsável por tudo que acontecia nas américas e sempre achei a mídia brasileira de muito bom nível. Mas o mundo não tem noção dessa qualidade, entre um pequeno e seleto grupo de jornalistas que conhecia o Brasil.
Ela evolui em termos de responsabilidade editorial?
Eu acho que sim. Desde que deixei o Brasil, parece que houve, sim, uma evolução, no sentido de proteger a privacidade das pessoas. Por outro lado, ainda não conseguimos nos livrar de alguns problemas que passam pela formação dos profissionais. Também é responsabilidade das empresas darem melhor formação a seus jornalistas. Uma cultura da reciclagem.
Nosso processo de convergência está muito diferente do exterior? Por exemplo, qual o desafio da mídia londrina?
Hoje, já está mais próximo. Eu me lembro quando estava na BBC e vinha dar palestra aqui, em 2006. Eu trazia material da BBC e falava algumas coisas para os próximos 10 anos, mas as pessoas tinham certa resistência e até achavam que eu era maluco. Além disso, as empresas discutiam, mas ninguém se arriscava a investir. Hoje, isso mudou.

O que o site representa para a emissora hoje?

É uma plataforma que consegue ser lucrativa, trazer dinheiro para a emissora. Fizemos, também, algumas reformulações. É claro que o trabalho de base deixado pela equipe que trabalhou inicialmente nele foi muito bom e resolvemos que teríamos três linhas para o portal. Esse portal é essencialmente de notícia, assumimos esse lado noticioso e fizemos investimentos nessa área. Segundo, era abrir muito o portal para as produções da casa. A ideia, hoje, é que as informações da emissora saiam pelo portal. E terceiro é que investimos em mídia social e continuamos a investir. Contratamos, inclusive, editoras de mídias sociais. É claro que precisamos melhorar muito.

Com relação ao esporte, quais são os planos?

O esporte é fundamental para a RedeTV!. Estamos apostando nisso há algum tempo. Nós tivemos vitórias importantes nesse ano. O UFC Rio foi o ponto alto. Primeira vez que um produto esportivo da casa foi líder de audiência na TV em geral. Foi excelente. O campeonato inglês e italiano são dois produtos sensacionais. A gente fez uma aposta na série A, que acabou não vingando, por problemas basicamente do Clube dos 13. Infelizmente, acabamos não ficando com a série A, mas, certamente, daríamos um show na cobertura. Vamos continuar com esse investimento esportivo, tentar levantar outros esportes e modalidades com grande potencial.

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