Movimento negro e produtores culturais apresentam demandas à Fundação Palmares e à SECULT

Publicado em domingo, Abril 29, 2012 ·

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Segmentos ligados à cultura afroparaibana apresentaram na sexta-feira, 27, durante oSeminário sobre o Programa Nacional de Cultura Afrobrasileira, ocorrido na Capital, João Pessoa, uma série de reivindicações ao secretário de Cultura da Paraíba, Chico César, e ao Diretor de Preservação do Patrimônio Imaterial Afrobrasileiro da Fundação Palmares, Alexandro Reis.

Povo de Santo trouxe propostas para a cultura | Fotos: Fabiana Veloso

Entre elas está a proposta de criação de um festival específico para a cultura popular, especialmente enfocando as culturas negra, indígena e cigana produzidas no estado. Outra demanda já antiga do movimento é por um museu temático para a cultura africana na Paraíba. Os participantes também demandaram estruturação de um projeto estadual de circulação da cultura entre as comunidades, promovendo o intercâmbio dos produtos e fazeres culturais.

Para o artista multivisual Elioenai Gomes, é urgente também que se promovam ações para o resgate da memória oral, visual e cultural das comunidades negras urbanas e rurais, além da catalogação dos grupos e artistas populares que lidam com a temática etinorracial na Paraíba. “Não adianta investir apenas na revitalização de prédios, eu acho até um equívoco falar em revitalização de algo que não seja humano. O importante é a vitalização humana, fortalecendo os laços culturais da africanidade paraibana”, comenta Nai, que criou um ateliê multicultural na região do Centro Histórico de João Pessoa, onde promove diversos eventos com a temática etinorracial.

Ana Lúcia e Emílson Ribeiro trouxeram suas experiências de vida

O para-folclorista Emílson Ribeiro diz que é preciso identificar os grupos para manter identidade e origem e dar condição de se fazer a atividade cultural na própria comunidade e levar o público às localidades onde a cultura popular ocorre. Ele diz que hoje o maior gargalo para os grupos de folguedos é a questão do transporte. “A cultura se esconde. É preciso ir atrás dela e dar visibilidade a ela”, opina.

Discussão em grupos dinamizou seminário

Um exemplo da dificuldade que os grupos da cultura popular afroparaibana enfrentam foi exposto pela contra-mestra do Coco de Roda Novo Quilombo, de Gurugí, na região do Conde, Ana Lúcia do Nascimento. “Nós ganhamos um prêmio de R$ 10 mil e decidimos construir um pavilhão na comunidade para as apresentações do Coco, mas o dinheiro não deu pra terminar a obra e ainda tá faltando toda a parte da cobertura e telhado”, revela Ana, informando também que mesmo depois de 25 anos de atividades o grupo musical ainda não conseguiu gravar um CD. “Quando a gente chega nos lugares pra se apresentar o pessoal pergunta pelo disco e nós não temos nada para divulgar nosso trabalho”, lamenta.

Outra representante dos quilombolas na Paraíba, Francimar Fernandes, diz que é preciso garantir acesso à cultura para o povo das comunidades. Ela também defende o intercâmbio cultural entre as comunidades. “Em Pombal havia uma manifestação tradicional dos negros chamada de “pontões”, que era desenvolvida por um núcleo familiar conhecido na região como ‘Os Daniel’ e ‘Os Rufino’. Seria importante tentar resgatar isso antes que desapareça de vez”, diz Francimar. Ela informou ainda que no próximo dia 13 de maio, na Estação Ciência e Arte Cabo Branco, haverá oficinas com as louçeiras de várias comunidades quilombolas da Paraíba.

Representantes de grupos de capoeira também estiveram no evento. Eles reclamam que não há qualquer incentivo do poder público para que os grupos se mantenham em suas comunidades. Defenderam que nos bairros e comunidades sejam criados espaços específicos para a prática da capoeira. Os capoeiristas também buscam apoio para o registro audiovisual de suas músicas já que o conteúdo delas tem uma relação direta com a história da cultura negra e pode ser um instrumento para estimular a autoestima das comunidades afrodescendentes. Os praticantes da capoeira na Paraíba também apresentaram reivindicações relacionadas à regulamentação do ensino da capoeira nas escolas.

Chico César e Alexandro Reis ouviram propostas da sociedade; Kaline Lima mediou a mesa

Lideranças das religiões de matriz africana também se posicionaram no seminário. Elas querem incentivo para que as vestimentas e outros objetos usados nos rituais religiosos possam ser produzidos pelas próprias comunidades. Uma das ideias surgidas no evento foi a de que a Prefeitura de João Pessoa e o Governo do Estado reservem parte dos recursos do Projeto Empreender para o fomento de atividades culturais e artísticas dos povos e comunidades tradicionais, o que poderia ser chamado de “Empreender Afro”.

Outra questão discutida no evento foi o fato de que as igrejas de orientação evangélica, também chamadas de “cristãs”, têm proibido seus seguidores a praticar qualquer atividade vinculada à cultura afro-brasileira, com a capoeira, o maculelê, o maracatu, estigmatizando essas manifestações e deturpando o real significado que elas têm na cultura nacional.

PRESERVAÇÃO, MEMÓRIA E RESGATE

Platéia atenta nos dois turnos do seminário promovido pelo FOPPIR

Durante todo o evento foram levantadas várias propostas no sentido de que sejam construídas políticas públicas no estado para a preservação e o resgate das manifestações culturais afroparaibanas. Uma delas diz respeito ao apoio à Escola de Samba Malandros do Morro, no bairro da Torre, cujo barracão e quadra precisam ser reestruturados.

A presidenta da Associação Cultural Posse Nova República, jornalista Fabiana Veloso, sugeriu que a SECULT promova um evento relacionado à obra artístico-cultural do ativista negro Heliton Santana, falecido no ano passado. “Helinton produziu muito em várias áreas, como teatro e literatura”, diz Veloso.

O secretário Chico César disse que a SECULT está se estruturando para dar respostas às demandas. Ele anunciou a criação de um centro de referência da cultura popular que deverá ocupar o prédio do antigo Grupo Escolar Tomáz Mindello, no centro da capital paraibana.

Mariah Marques, gerente do Setor de Cultura Popular da SECULT, disse que o evento subsidiará o Plano Estadual de Cultura. Ela disse que a secretaria estabeleceu 12 articuladores nas macrorregiões do estado e que serão realizados seminários e cursos de capacitação nos 223 municípios. “Infelizmente o Plano Plurianual (PPA) não tem previsão de recursos para cultura afro, mas vamos ter que relocar de outras rubricas”, comentou Marques. Segundo ela, a SECULT está ainda estimulando as prefeituras a criarem conselhos municipais de cultura para estabelecer os planos municipais do setor.

“Nossa ideia foi que o seminário construísse um produto que pudesse ser apropriado pelos participantes, realizadores e, principalmente, pela sociedade civil. E acho que alcançamos esse objetivo”, diz a educadora Fátima Solange, do Fórum Paraibano de Promoção da Igualdade Racial (FOPPIR), entidade organizadora do evento. “Agora vamos incentivar as comunidades a darem prosseguimento a essa discussão em seus próprios espaços. Se não houver mobilização social o governo não avança na implementação das políticas públicas nessa área”, acrescenta Solange.

Movimento negro para o Focando a Notícia

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