Matéria da Veja sobre terrorismo atrapalha jornalistas na Tríplice Fronteira

Publicado em sexta-feira, setembro 9, 2011 ·

80962_W220Q60I2SASRFHFVRLRRCLCTCRCBLugares, pessoas, instituições e situações recebem estigmas, quase sempre difíceis de serem desfeitos e que causam efeitos devastadores para seus protagonistas. A Tríplice Fronteira – Brasil, Paraguai e Argentina – vive essa realidade. Apesar de as imagens sobre a região replicadas em inúmeras reportagens serem verdadeiras quando tratam de tráfico, contrabando e conflitos de terra, o reforço de estereótipos pejorativos incomoda as pessoas que vivem na região. Sobretudo, os jornalistas, que, além de lidar com os desafios locais da cobertura, precisam esclarecer e desfazer os prejuízos do resultado de “um jornalismo mal apurado dos colegas” e reconquistar as fontes arredias.
IMPRENSA esteve nas três cidades – Foz do Iguaçu, Cidade do Leste e Porto Iguaçu – com o objetivo de ouvir de jornalistas dos três países suas condições de trabalho. A reportagem constatou que eles se incomodam com o resumo feito por equipes de jornalismo que vão, fazem uma “apuração apressada” e contribuem para “proliferar clichês” sobre a região. Os jornalistas ouvidos por IMPRENSA não omitem que a região lida com desafios básicos e complexos, mas são unânimes em ressaltar que, desde que atuam na Tríplice Fronteira, jamais conseguiram detectar focos de terrorismo. Uma revista brasileira, uma equipe de televisão argentina e agências internacionais fizeram, em poucos dias, matérias do tipo, com métodos, segundo ele, de apuração “questionáveis e nada eficientes”.
Reprodução
O caso mais extremado e que causa furor às fontes locais, principalmente às de origem árabe – a região concentra a segunda maior colônia árabe do Brasil – são matérias apontando que existem células terroristas na região. Para a correspondente do jornal Paraguaio La Nación na Cidade do Leste, Mariana Ladaga, “eles [as fontes de origem árabe] se fecharam para falar com os jornalistas, principalmente depois que alguns veículos publicaram que existe terrorismo na fronteira. Isso é um absurdo! Trabalho aqui há anos… Você acha que profissionalmente não seria um belo furo? Não afirmo que não exista, mas nunca vi indícios. Este tema tem nos incomodado, e principalmente a eles [fontes], que estão cansados”, reclama. Mariana destaca que hoje, para falar com essas fontes, precisa ter cuidado na abordagem e convencê-las do teor da matéria.
A revista Veja não é “bem-vinda” entre os árabes e descendentes na região. Sua matéria de capa, “A Rede do Terror no Brasil”, publicada na edição 2211, de 6 de abril, que fala sobre células de terrorismo no país repercutiu não somente do lado brasileiro, mas também no Paraguai e na Argentina. Edgardo Barchuk, repórter da Rádio Cataratas e do jornal Primeira Edición, que trabalha na cidade argentina de Porto Iguaçu, também reclamou da reportagem da Veja e de uma equipe de um canal de Buenos Aires, que foi para a região, fez uma “rápida apuração” e polemizou o tema. “Isso não pode ser dessa maneira. Em ambos os casos [da revista Veja e do canal argentino], são jornalistas que não conhecem o contexto, não vivem aqui, não estão próximos da situação. Como podem vender esse tipo de coisa, sendo que nós não conseguimos enxergar isso?”, rebate.
Luiz Gustavo Pacete
Denise Paro
Sobre a matéria da Veja, alguns jornalistas da região questionam o método da revista, utilizando repórteres não-identificados e que não agiram “lealmente” com as fontes. “É muito complicado você dizer à fonte que está fazendo algo totalmente diferente da realidade, principalmente quando isso vai sair na principal revista brasileira. Essa reportagem prejudicou muitas pessoas por aqui”, diz um jornalista, sem se identificar. À época em que recebeu as criticas, procurada por IMPRENSA, a revista se negou a qualquer tipo de comentário ou manifestação. Barchuk lembra que o tema uniu os jornalistas locais e possibilitou fóruns e discussões sobre o assunto. Em novembro do ano passado, a Abraji e outras entidades locais realizaram um evento, que reuniu jornalistas das três cidades.

Em repudio à matéria da revista Veja, a comunidade árabe de Foz do Iguaçu realizou um ato de repúdio contra as acusações de suposto envolvimento com o terrorismo.
Denise Paro, correspondente da sucursal da Gazeta do Povo, em Foz do Iguaçu, tem teses acadêmicas sobre o tema. Em um deles, “Terrorismo na Triplice Fronteira: O Discurso da Incerteza”, identifica discursos tendenciosos sobre o tema ‘terrorismo’, de matérias analisadas do jornal O Globo, da Agência EFE e da rede MSNBC. “A região passou a ser alvo de ataques do governo norte-americano, logo após os atentados de 11 de setembro, em Nova Iorque”. Denise também admite que a forma como o tema  é noticiado, incomoda. “Nós estamos aqui, conhecemos a região. Eu também não posso garantir a inexistência do terrorismo, mas o problema é que não existem provas que mostrem o contrário”, conta.
Condições de trabalho
Outro ponto apurado por IMPRENSA foi a condição de trabalho dos jornalistas na região, no que diz respeito à liberdade de imprensa, estruturas organizacionais e risco de apuração. Para Denise, nunca houve ameaças, tampouco intimidação em relação ao tráfico ou qualquer outro tipo de denúncia. Sua dificuldade, entretanto, é ter acesso a regiões de conflito. “Das situações mais tensas que já passei está um dia em que fui cobrir o conflito dos ‘brasiguaios’, uma pauta atual para nós e, neste caso, o cuidado a ser tomado é muito grande, já que você acaba sendo visto como inimigo, por representar uma das partes do conflito”.
Luiz Gustavo Pacete
Mariana Ladaga
É visível que a estrutura de cobertura de Denise e do jornal brasileiro se sobressai em relação aos países vizinhos. Em uma pequena sala, duas quadras acima do centro movimentado de Cidade do Leste, está o escritório do La Nacion, que tem sua sede na capital Assunção. Mariana diz que a situação de trabalho dos jornalistas paraguaios é complicada e, em muitos casos, precária. Grande parte de seus colegas nem mesmo recebem salário; acabam conseguindo tirar algum dinheiro em percentual de publicidade. “Desta maneira, fica muito fácil ser corrompido ou pressionado economicamente pelo poder e pela política”.
Mariana comenta que trabalha com uma espécie de autocensura, já que, em determinadas apurações, quando tentou investigar a fundo o tema do tráfico e a corrupção, por exemplo, percebeu que se aproximaram de sua família. “É triste isso, parar uma apuração para proteger sua família. Entretanto, não posso colocar meus parentes em risco por causa de meu trabalho; não tenho esse direito”. O depoimento da jornalista também está registrado no último relatório da entidade Repórteres Sem Fronteiras (RSF), sobre o Paraguai, em julho deste ano. O relatório aponta que, atualmente, um dos maiores problemas da região é a corrupção e o tráfico de drogas.
Luiz Gustavo Pacete
Edgardo Barchuk
Barchuk comenta que a situação argentina não é muito diferente da paraguaia. O poder econômico limita o trabalho dos jornalistas. Entretanto, ele comemora o fato de seu jornal ficar a alguns quilômetros da região, o que lhe permite mais liberdade para qualquer tipo de crítica. “De certa forma, conseguimos fazer nossas apurações sem nenhum tipo de medo. É claro que é necessário um bom senso e a necessidade de autocensura… saber até onde chegar”, destaca.

Mariana concorda que a autocensura é um fator “importante” para sua apuração diária, principalmente, para não se meter em “grandes problemas”. “Quando era mais jovem, eu não tinha muita noção dos riscos que poderia correr, mas com um pouco de maturidade e depois que fiz alguns cursos para jornalistas em condições extremas de risco, vi que o assunto é sério e complexo”. Denise também não gosta de ultrapassar limites. Entrar em favelas, somente com a companhia da polícia; cobrir conflitos de terra, só acompanhada de policiais. “Em casos de conflitos intensos, o repórter pode ser visto como inimigo”, ressalta.


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