Mais Médicos: Estudantes criticam corporativismo e superficialidade de entidades de classe

Publicado em sábado, agosto 10, 2013 ·

Antonio Cruz/ABr
Antonio Cruz/ABr

Terminou nesse sábado (10), em Brasília, o encontro nacional extraordinário das entidades médicas. Na pauta, as pressões para a derrubada dos vetos da presidenta Dilma Rousseff à lei do Ato Médico, que regulamenta a profissão dos médicos, e à Medida Provisória 621, que institui o Programa Mais Médicos.

O Conselho Federal de Medicina (CFM), a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Federação Nacional dos Médicos (Fenam), com apoio de outras entidades, criticam principalmente a contratação de médicos formados em outros países para atuarem no interior do país e nas periferias das regiões metropolitanas sem a revalidação de seus diplomas no Brasil. E querem manter, no Ato Médico, a prerrogativa exclusiva no diagnóstico e indicação de tratamento, indicação de órteses e próteses, inclusive oftalmológicas, na direção e na chefia de serviços médicos e o atendimento a pessoas sob risco de morte iminente, entre outras.

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Para a Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina (Denem), críticas como a falta de um plano de carreira de estado, de estrutura de hospitais e de unidades de saúde, além de problemas no vínculo profissional com as prefeituras são necessárias, porém superficiais e corporativistas. “As entidades médicas têm pautado muito mais a questão dos planos de carreira e salários, e só, e isso ainda é pouco. Se não pautarmos os problemas do setor, passando pelas questões do financiamento, das privatizações, da estruturação da atenção básica, dos planos de carreira e da formação médica, pouco vamos alterar a situação da saúde no país”, disse o coordenador geral da entidade, Vinicius de Jesus Rodrigues, 25 anos, estudante da Universidade Federal de Ouro Preto.

Para Rodrigues, o rompimento dessas entidades com o governo, ao se retirar dos postos que ocupavam em comissões e câmaras é uma estratégia para serem atendidas em suas reivindicações. No entanto, não sabe até que ponto isso pode ser efetivo. “Preferimos ocupar outros espaços de luta pela saúde, como os fóruns populares, a frente nacional contra a privatização e no auxílio à organização dos centros e diretórios acadêmicos e denúncia de políticas dos governos para somar forças e encorpar as ações e reivindicações.”

Médicos estrangeiros

A Denem, que esteve reunida no final de julho, em Belém, no 43° encontro nacional dos estudantes de Medicina, defende que os profissionais formados no exterior sejam devidamente avaliados e que não sofram retaliações, uma vez que eles terão em mãos parte da população brasileira, que deve ser atendida com dignidade. “Esses profissionais encontrarão situações complicadas de atendimento, e devemser atores importantes nesse processo de denúncia de desmonte do SUS, das condições em que a saúde no país se encontra e, além disso, pautando as reais causas toda a problemática”, disse o dirigente.

Embora defenda a avaliação, não poupa críticas ao Revalida, exame realizado para validar no Brasil os diplomas de escolas médicas de outros países. No seu entender, a prova – bem como aquelas de dentro das faculdades para avaliar os estudantes e as de residência – não se propõem a trabalhar as questões da determinação social do processo saúde-doença, que deveria ser o seu foco. “Necessitamos de médicos que saibam exercer a Medicina dentro dessa linha de atuação, numa abrangência político-social muito mais importante do que a simples medicalização. Estamos sendo formados simples técnicos em medicina, conforme interessedas grandes corporações, da indústria farmacêutica e dos planos de saúde, o chamado ‘complexo médico-industrial’”.

Formação

A formação, ainda muito voltada ao atendimento hospitalar, é outro aspecto criticado por não ir ao encontro do que pretende o SUS, que teria na atenção básica, junto das emergências, sua porta de entrada – as grandes deficiências na nossa formação. O estudante entende quea lógica da formação ainda valoriza as especialidades em detrimento da formação generalista; a falta de hospitais universitários precariza os internatos que em geral têm vínculos instáveis; a carência de professores e preceptores, de cenários de prática, e de assistência estudantil. As escolas particulares, já absurdamente caras, têm em geral a prática de aumentos abusivos nas mensalidades, o que dificulta ainda mais a permanência do estudante.

Sem contar outro grande problema, segundo ele, que é o fato de a universidade não se inserir na comunidade e nem atuar sobre os reais problemas da população – a chamada determinação social do processo saúde-doença. “As doenças não são reflexo de vírus, bactérias e fungos, de causa única, como aprendemos, mas são muito mais um reflexo social, ambiental, e mesmo do trabalho exercido pelas pessoas na sociedade, cuja resolução depende muito mais do que a simples medicalização, mas intrinsecamente ligada a uma atuação social e política do médico, que não pode se distanciar de seus pacientes”, ressaltou. “Muito pelo contrário, deve se identificar com eles e ao lado deles atuar. Logicamente o que aprendemos é decorar protocolos e nomes de remédios, o que não atende às necessidades da nossa população, mas do chamado complexo médico-hospitalar interessado nesse nosso modelo de formação.”

O programa Mais Médicos também está no alvo de críticas dos estudantes. Segundo o dirigente, o alcance da proposta é limitado a atacar a falta desses profissionais sem alterar a política de financiamento, que deveria inclui mais investimentos. Ele defende o fim de isenção fiscal a entidades privadas, a aplicação de todo o dinheiro arrecadado em saúde no próprio setor, diferentemente do que permite a Desvinculação das Receitas da União (DRU), que tira 20% da saúde, previdência social e seguro social para destinar a pagamento de dívidas, a rejeição a privatizações e investimentos em saúde privada e a estruturação da Atenção Básica. No seu entender, faltam recursos financeiros e humanos para a eficiência desse modelos de atenção.

No entanto, a entidade admite que o número desses profissionais é insuficiente no país. O Brasil tem 1,9 médico por mil habitantes, número baixo – Inglaterra possui mais de 2,5, Uruguai e Argentina mais de 3. “Apesar de termos uma grande quantidade de cursos de Medicina, há ainda poucas vagas, não atendendo à quantidade de pessoas que querem cursar e muito menos à demanda dos postos de trabalho”, disse. Segundo Rodrigues, a concentração segue a lógica da centralização das universidades e das melhores escolas em regiões centrais, privilegiando os seus moradores. “Ainda que sigam para estudar no interior, tendem a voltar para suas cidades de origem.”

 

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