Joel fala sobre carreira, vida de garoto- propaganda e afirma: ‘Dá para ir mais’

Publicado em domingo, agosto 18, 2013 ·

(Foto: Rui Porto Filho/Foto Arena/Agência Estado)
(Foto: Rui Porto Filho/Foto Arena/Agência Estado)

Desempregado num mercado que é implacável com a idade, o técnico se diz renovado. Aos 63 anos, brilha como garoto propaganda à espera da próxima campanha em campo. Recordista na internet, Joel Santana muda para continuar sendo o mesmo

Você é um personagem do velho Maracanã. Há lugar para você no novo padrão do futebol brasileiro?

Vai ter sim. Por que um treinador com 25 anos de carreira está ultrapassado? Quem cria isso é o empresário para botar o técnico dele. Diziam que o Felipão já não estava bem, e olha o que já fez com a seleção. Parreira e Felipão são dois campeões do mundo, qual país tem isso? E muita gente foi contra a volta deles.

Paulo Autuori associou a supervalorização dos técnicos ao atraso do futebol brasileiro. Isso te atinge?

Não discordo, cada um tem sua opinião. Futebol é bom por isso, depende do momento e do resultado. Não me sinto atingido porque quem comanda time grande tem sempre que vencer. Cada um sabe seu valor: ou você é uma BMW, um Audi ou um Fusca. Não tô menosprezando, já andei muito de Fusca. Provei de tudo na vida, o açúcar, a pimenta e o sal.

Há uma geração de técnicos vitoriosos, como Espinosa, Geninho e Leão que foi saindo de cena. Como vê esse processo de renovação?

Não posso me sentir ameaçado. Estou sempre vendo e conversando sobre futebol, dou palestra, vou a exposições. Um professor na UFRJ dizia que se aprende até em pelada. Guardo outra frase de que é preciso jogar para aprender a jogar. É simples. Não tenho porque mudar.

Mas quando está ganhando, você muda. Fica mais seletivo…

Não é verdade. Atendo todo mundo igual. Basta ver como as pessoas reagem quando me encontram. Criança, idoso, mulher… Um mineiro acabou de me pedir para eu voltar para o Cruzeiro

Sempre que alçou voos nacionais, acabou voltando à província…

Quando fui pro Cruzeiro eles venderam cinco titulares, não tem milagre. No Corinthians, cheguei em setembro num time que estava caindo No Inter, o momento era ruim. Chegar para apagar o fogo em outro estado é mais difícil. Vou refazer meu currículo para não esquecerem. Tenho Mercosul, dois Brasileiros.

Qual o segundo Brasileiro?

Em 2000 como técnico e em 1974 como jogador. Ganhei dentro e fora do campo

O título de 2000 pelo Vasco é seu ou do Oswaldo de Oliveira?

Fomos nós dois. Isso faz parte. Quem ganhou a Copa do Brasil de 2008 pelo Fluminense? Foi o Renato sozinho? Dei início. Já tinha juntado a metade do time.

O técnico Joel foi superado pelo folclore em torno do personagem?

Folclore, não. É inteligência. Aprendi a ganhar dinheiro em cima da situação que era de gozação pelo meu jeito de falar inglês. Já são mais de 17 milhões de acessos. no Youtube. No ano passado, o comercial da Pepsi já tinha sido melhor.

Técnico ou garoto-propaganda?

Virei as duas coisas. O artista é o artista. O Tom Cruise faz todos os papeis e continuo mesmo sucesso. Minha imagem levantou a marca de quem me contratou. Quem quiser levantar o time, é só chamar. De repente, ainda valorizo a marca do clube.

Aonde está a novidade de um futebol que trouxe os comandantes do tetra e do penta para disputar o hexa?

Não é só parte tática, mas tudo que se relaciona ao jogo, mas não adianta estar atualizado sem ter qualidade. A gente ainda consegue produzir talentos apesar de estarmos tirando os meninos com 13 anos. Ainda é a semente. Vai terminar a alfabetização lá fora, mas foi a nossa escola, do drible, da finta e do futebol moleque, que fez a gente ganhar cinco títulos. Era para o Brasil ter ganho pelo menos sete Copas. O que pega são as condições de trabalho. Tem que parar com essa palhaçada de um técnico trabalhar 25 dias e sair como culpado para encobrir questões políticas.

O técnico que cava o emprego hoje é o mesmo que será enterrado amanhã. Qual é a ética desse mercado?

Treinador não tem ética. Pode ser que os mais famosos tenham alguma, mas é muito difícil. Se um dirigente me telefonar, com o técnico ainda empregado, falo para ele resolver a vida dele primeiro. Não tenho que passar na frente de ninguém. Meu avião está na pista, pronto para decolar. Na Europa, o ex-técnico do Bayern (Jupp Heynckes) ganhou tudo aos 68 anos. O Ferguson passou dos 70 cheio de títulos no Manchester. Estou com 63, ainda dá para ir mais um pouco.

Existe nó tático

Não, o que há são dias em que a equipe não desenvolve. Minha prancheta não é palhaçada. Guardo anotações de todos os adversários. Quando vou ter outro confronto com o mesmo treinador, vou lá atrás buscar. Não ganho à toa. A gente sabe tudo um do outro. Tem treinador que é enganador, treina de um jeito durante toda a semana e entra no jogo diferente

O Renato Gaúcho ora está à beira da praia, ora está à beira do campo. Afinal, ele é técnico ou é rei do Rio?

Príncipe. Rei só existe um, eu. Pelo que tenho visto, ele vai dar treinador. Lembro de um jogo lá na Bahia todo mundo criticou sua escolha e ele mostrou que estava certo. Tática boa é a que ganha. No Grêmio, acabou de ganhar do líder. Vai longe.

O que acha do político Romário?

Romário é bom em tudo que faz. Ele é o cara. E eu sou o amigo do cara

Quando jogador, Romário aceitava práticas que agora combate…

É outra história. Política, religião e futebol você não discute, concorda. Meu santo protetor não é igual ao seu. Respeito, mas não venham pisar no meu calo. Meu santo é forte pra cacete. Sou iluminado, nasci no dia 25 dezembro, tá pensando que eu tô sozinho? Meu nome é Natalino e tenho muito orgulho disso

Sua ascensão no início dos anos 1990 coincide com o período de esvaziamento do futebol brasileiro. Foi aí que a importância da tática e dos treinadores aumentou?

Era mais fácil fazer futebol quando você tinha o jogador por mais tempo. Agora, qualquer garoto mal aparece e já se manda. O técnico não tem material para pôr em prática as soluções para mudar um jogo. Não vejo mais jogadores como antigamente. Não falo nem daquele que foram campeões do mundo, mas de craques como Arurzinho, Dirceu Lopes e Eduzinho. Todo time tinha um camisa oito e um camisa dez de habilidade. Sem jogador, não adianta inventar novidade. Esse esquema que estão falando agora, o 4-2-3-1, é uma mentira safada porque acaba caindo no 4-4-2. Todo mundo acha bonito, mas não mudou nada. Podem inventar o que for. Número, você faz na hora. Já joguei de todo jeito, com losango no meio, falso cabeça de área…

A distância para os clubes da Europa está aumentando ou diminuindo?

Não estamos nada nem, basta comparar o Santos que conquistou a Libertadores em 2011 e o atual. Na Europa, quase todos os titulares dos grandes times são de seleção, aqui são no máximo dois ou três. O que está faltando é sentarmos todos para um grande debate, tô aqui para aprender também

Por que os meias acabaram?

Porque só se fala que a prioridade tem que ser a parte física, marcação e pegada. Só não se fala em jogar futebol

Mas não era você que enchia o meio-campo de volantes e os chamava orgulhosamente de pitbull e de chefe da swatt?

Para jogar bola, é preciso que haja proteção no meio. Futebol é equilíbrio. Um time bom precisa ter consciência defensiva e qualidade quando recupera a bola.

Por que o Alex joga como um menino e o Ganso parece perto da aposentadoria?

O Alex é um mostro, foi ídolo e ganhou tudo por onde passou. A diferença é muito grande. Futebol não é só em campo, é preciso conviver com os altos e baixos. Aprendi a ganhar dinheiro com aquilo que me desvalorizava. Aceito as críticas e tenho direito de discordas. Em outros tempos, parava de dar a entrevista quando você falou que eu fico mascarado quando estou ganhando. Não me aborreço mais. Quando eu falo, todo mundo se promove junto. Dá para publicar meia página nos Esportes e outra no Segundo Caderno. Sou artista.

globoesporte

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