“Já desisti de reportagens para proteger minha família”, desabafa jornalista do Paraguai

Publicado em domingo, setembro 11, 2011 ·

A jornalista Mariana Ladaga nasceu em Buenos Aires. Aos dois anos de idade, mudou com a família para o Paraguai. Hoje, aos 35, ela não só se declara paraguaia de coração, como luta para tentar desenvolver um jornalismo independente na Cidade do Leste, localizada na tríplice fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai. Mariana acaba de ser citada no relatório especial da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) sobre a limitação do trabalho jornalístico na região, feito em julho deste ano.
IMPRENSA visitou a repórter na sucursal do jornal paraguaio La Nación, que tem sua sede na capital Assunção. No escritório, trabalham como correspondentes, na região, Mariana e mais dois colegas repórteres, além de um fotógrafo. Ela falou sobre as dificuldades de atuar na fronteira, as pautas em comum relacionadas à imprensa dos três países e os estereótipos com que muitas vezes a região é tratada por jornalistas, que vão, passam um dia de apuração e publicam impressões “equivocadas” da região.
Luiz Gustavo Pacete
Mariana Ladaga
Em relação à sua integridade física e moral, Mariana conta que não é fácil atuar na região. “Eu já recebi ameaças diretas por telefone. Entretanto, existe um outro tipo de intimidação, que me parece a mais nociva. Hoje, a condição de trabalho dos jornalistas paraguaios não é fácil, muitos nem salários recebem, por isso, fica muito fácil ser subornado por políticos”. Mariana reforça que a corrupção é um grande problema da região, já que ela também contribui para fortalecer o tráfico de drogas. Atualmente, o Paraguai é o principal produtor de maconha da região.
Apesar dos problemas relacionados ao tráfico, Mariana lembra que, estatisticamente, Foz do Iguaçu ainda é mais perigosa que Cidade do Leste, e que alguns problemas, que na imprensa brasileira se tornaram banais, merecem atenção na cidade paraguaia. “É o caso de um sequestro, por exemplo, isso é muito raro acontecer aqui, já no Brasil virou algo normal, que será publicado como uma nota, aqui isso ganha destaque”. No mesmo instante, a jornalista aponta para a capa do jornal do dia, que estampa a libertação de uma jovem que havia sido sequestrada há uma semana.
A jornalista admite que, no início de carreira, ultrapassou alguns limites de segurança, em função do trabalho jornalístico, mas hoje percebe que não vale a pena ir muito além, já que, enquanto as ameaças são feitas diretamente a ela, não tem problema; a questão é quando as intimidações alcançam sua família. “Quando eu estava cobrindo matérias relacionadas ao tráfico mandaram recados de que conheciam meu marido e sabiam onde ele trabalhava. Desde então, percebi que precisava desenvolver uma autocensura”, conta ela.
Temas em comum
Luiz Gustavo Pacete
Sucursal do La Nación em Cidade do Leste

Outra questão que faz parte do cotidiano de Mariana é a parceria que os jornalistas dos três países vêm desenvolvendo: congressos, encontros e debates sobre pautas em comum acabam fortalecendo e agregando valor às apurações. “Já tive matérias em que desenvolvi em conjunto com colegas brasileiros, temas de interesse para ambos os países. Lembro de uma cobertura que fizemos sobre o tráfico de crianças na ponte da amizade”, ressalta.
Mariana conta a IMPRENSA que realmente é difícil levar discussões sobre o tráfico a fundo, mas que na medida do possível os temas vão sendo contemplados. “Tentamos dar conta de uma agenda relevante para a região e que lida, sobretudo com o tema econômico, já que Cidade do Leste é a segunda cidade do país em potencial econômico”.  Quando necessário a jornalista apura temas no Brasil, como no ano passado quando o presidente Fernando Lugo foi a São Paulo para um tratamento médico.
Manipulação e preconceito
Ao conversar com jornalistas da região fica clara certa indignação com a matéria e a postura jornalística da revista Veja quando publicou em abril uma matéria apontando que a região abrigava células terroristas. “Esse episódio fez com que as fontes locais, principalmente as de origem árabe se fechassem para os jornalistas, já que os métodos usados para a reportagem foram ilícitos”. A jornalista não nega que existam problemas envolvendo as comunidades já que a cidade com 300 mil habitantes abriga em poucas quadras vários grupos étnicos, entretanto, ela nunca testemunhou nenhum tipo de terrorismo.
A jornalista estende suas criticas para jornalistas que vão até a cidade e não ficam o tempo suficiente para fazer uma boa apuração, saem de lá com uma má impressão da cidade, publicam no jornal e vários outros meios republicam. “É a mesma coisa que eu for ao Rio de Janeiro ficar somente um dia e falar dos usuários de crack e meninos de rua, por isso que eu acredito que os jornalistas que vem até aqui deveriam ter um pouco mais de cuidado para apurar”, comenta.
Dificuldades da imprensa paraguaia:
– Aprofundar-se em temas como corrupção e tráfico de drogas;
– Estrutura tecnológica e organizacional precária;
– Dar conta de cobrir tantos temas em uma região complexa em termos geopolíticos;

– Aumento no número de processos contra jornalistas;

– Dependência total do poder econômico;

Fonte: Portal Imprensa
Com Luiz Gustavo Pacete, enviado a Cidade do Leste
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