Estrangeiros que atenderam no SUS avaliam desafios do Mais Médicos

Publicado em sexta-feira, agosto 9, 2013 ·

medicosAs grandes distâncias e o contato com doenças que não estão habituados a tratar serão problemas que os profissionais estrangeiros que vierem trabalhar no Sistema Único de Saúde (SUS) pelo programa Mais Médicos terão de enfrentar, alerta o médico espanholJosé María Hernandez, que já atuou no país. Mas, na visão do cubano Josué Jesús Matos, que também já trabalhou no SUS, dificuldades como essas podem ser superadas com estudo, preparação e boa vontade.

O G1 ouviu a opinião dos dois médicos estrangeiros sobre o programa do governo federal que visa ampliar o número de profissionais em municípios no interior e na periferia das grandes cidades e, em alguns pontos, suas avaliações divergem. Formados na Espanha e em Cuba, eles trabalharam vários anos em postos de saúde e hospitais de Mato Grosso e Roraima, respectivamente, e são especializados em medicina da família.

O espanhol José María Hernandez, que morou oito anos no Brasil, se mostra preocupado com o que os médicos de fora encontrarão no país. “Há patologias que nunca foram vistas na Espanha e são habituais no Brasil. E não falo de coisas estranhas. São problemas de parasitologia, doenças infecciosas”, aponta.

O cubano Josué Jesús Matos, que trabalhou mais de dez anos no SUS, por sua vez, acha que é possível estudar, relembrar conteúdo da faculdade e se adaptar. “Ele [estrangeiro] vai chegar aqui e vai ter que aprender”, afirma. “Vai estudar a prática para resolver picada de cobra, para tratamento de malária”, exemplifica.

Seleção
O Mais Médicos teve demanda de 15.460 médicos para 3.511 cidades. Só 938 profissionais brasileiros (6% do total) foram selecionados na primeira rodada, número que deve aumentar com as próximas etapas de seleção.

Está previsto para este sábado (10) o anúncio dos selecionados estrangeiros. Eles passarão por um período de três semanas de preparação no Brasil antes de começar a trabalhar, o que deve acontecer ainda em setembro.

Durante a preparação, eles terão aulas de português, vão estudar o SUS, os procedimentos e medicamentos usados na saúde pública brasileira, e estarão sob avaliação.

Cumprida essa etapa, os estrangeiros irão trabalhar. Cada médico terá um supervisor vindo de uma universidade federal que fará visitas periódicas – ainda não há definição sobre a frequência desses encontros. O supervisor também ficará à disposição para tirar dúvidas por telefone ou internet, segundo o ministério.

O foco do Mais Médicos é na atenção básica, ou seja, consultas, tratamento de doenças e prevenção. Procedimentos mais complexos como cesarianas e cirurgias ficarão a cargo de outros médicos, que fazem o chamado atendimento secundário.

José María Hernandez (Foto: Arquivo Pessoal)José María Hernandez (Foto: Arquivo Pessoal)

Da Espanha para MT
José María Hernandez morou no Brasil de 2002 a 2010. Passou a maior parte do tempo em Mato Grosso. Trabalhou no interior do estado, em São Félix do Araguaia, e na capital, Cuiabá.

Atendeu como médico no Programa de Saúde da Família (PSF), em postos de saúde, em hospitais e deu plantão em pronto-socorros. Deu aulas em Mato Grosso e em Cacoal (RO). Atualmente, está na Espanha, mas pretende voltar ao Brasil.

Hernandez diz que a imersão de três semanas é muito pouco tempo para que um médico estrangeiro se familiarize com doenças encontradas com frequência no interior do país, como malária e infecções por vermes.

“Mato Grosso, por exemplo, é o estado com mais hanseníase no Brasil. Na Espanha temos um caso por ano. Aqui não existem parasitoses, e o vírus da dengue não circula.”

José Jesús Matos presta os primeiros-socorros em acidente (Foto: Divulgação/Prefeitura de Mucajaí)José Jesús Matos presta os primeiros-socorros em
acidente (Foto: Divulgação/Prefeitura de Mucajaí)

Cubano foi para Roraima
Já para o médico cubano Josué Jesús Matos, que atendeu pelo SUS por mais de 10 anos em Roraima, o Mais Médicos será positivo para as populações mais pobres no interior. Ele avalia que os estrangeiros terão dificuldades com o idioma no início, mas que, com o tempo, devem se adaptar.

Matos afirma que o currículo dos cursos de medicina em geral inclui conhecimentos básicos de doenças tropicais, como malária e leishmaniose. “Em seis anos você estuda todas as doenças, noções básicas nós temos. Malária em Cuba, por exemplo, está erradicada”, aponta ele.

O médico veio ao Brasil pela primeira vez em 1997, por meio de um convênio entre o Brasil e seu país, quando era estudante universitário, e ficou até 2001. Casou-se com uma brasileira e voltou a Havana, onde permaneceu por um ano – em 2002, decidiu instalar-se em Mucajaí, município de 15 mil habitantes a cerca de 60 quilômetros de Boa Vista, capital roraimense, onde está até hoje.

Tanto o espanhol quanto o cubano fizeram a revalidação do diploma. Matos foi eleito prefeito de Mucajaí em 2012 e, desde então, não atende pelo SUS. Já Hernandez está na Espanha desde 2010.

Diferenças na formação
Hernandez mostra-se preocupado com a falta de experiência dos médicos espanhóis em tratar doenças recorrentes no interior do Brasil, como dengue e malária. Segundo ele, a formação em medicina de saúde da família na Espanha é focada no risco de problemas cardíacos, na prevenção do diabetes e na pneumologia. Os outros casos são encaminhados a especialistas.

“Ninguém aqui [na Espanha] trabalha com hanseníase [na atenção primária]. A tuberculose é tratada por um infectologista. Os pediatras cuidam das crianças até os 14 anos. Aqui, um médico da família não trabalha com crianças de dois meses. No Brasil, o médico vai encontrar crianças recém-nascidas, gravidez de meninas de 15 anos, o que seria atribuição de um ginecologista.”

Uma das saídas, na opinião do cubano Matos, está em se preparar e estudar a fundo as doenças que vão ser encontradas no Brasil e que foram vistas pelo médico em sua formação. “Uma vez que chegue e veja quais as doenças fundamentais do país, o médico vai estudar e relembrar o que já sabia”, avalia.

O médico cubano lembra que encontrou um surto de malária quando veio ao Brasil. “Quando cheguei aqui [em Mucajaí], nunca tinha tratado um paciente com malária. Em 1997, havia um surto e a média era de mil pacientes com a doença por mês. Estudei malária, me dediquei, fiz capacitação do governo e pronto, tudo começou a caminhar”, diz.

Críticas
As críticas de Hernandez aproximam-se às de boa parte dos órgãos da categoria no Brasil, como o Conselho Federal de Medicina (CFM), que se opõe a que médicos estrangeiros trabalhem no Brasil sem passarem pelo processo de revalidação de diploma. O Mais Médicos exige apenas que os profissionais estejam habilitados a trabalhar em seus países de origem.

Você não pode simplesmente encaminhar numa ambulância uma pessoa que vai demorar 24 horas para chegar num hospital onde há recursos para resolver [o problema do paciente]. Essa situação não existe na Espanha.
José Hernandez, médico

Até a questão geográfica pode ser um complicador, na opinião do espanhol. Pelo tamanho continental do Brasil, os conceitos de “longe” e “perto” de um estrangeiro dificilmente se aplicarão aqui.

“As distâncias são muito grandes, e você não pode simplesmente encaminhar numa ambulância uma pessoa que vai demorar 24 horas para chegar num hospital onde há recursos para resolver [o problema do paciente]. Essa situação não existe na Espanha: você sempre tem um hospital a meia hora de distância.”

Brasileiros primeiro
Para Matos, o projeto do governo é positivo e acerta ao priorizar os brasileiros, para então convocar estrangeiros. A proposta pode “humanizar” mais a profissão e ajudar na medicina preventiva, acredita. “Há que se priorizar o médico brasileiro. Ele tem que conhecer o ser humano, conhecer o Brasil, para que o país tenha uma cobertura de 100% para a saúde e não só profissionais concentrados nas grandes cidades”, diz.

A ideia de que os profissionais vão atender em locais isolados e longe de centros urbanos não corresponde totalmente à realidade, na avaliação do médico. Ele conta que, quando chegou a Roraima, em 1997, vindo com seus colegas de universidade, imaginava um local sem condições. “Estávamos preparados para o pior, mas não foi isso que encontramos. Encontramos tudo normal. Acho que os médicos estrangeiros vão enfrentar uma situação parecida, terão que conhecer [a região em que vão atender]”, diz.

Para o prefeito de Mucajaí, é importante que o governo deixe claro aos estrangeiros onde e em quais condições eles irão atender, e que sejam dadas orientações quanto ao trabalho a ser realizado. Boa parte das vagas do Mais Médicos estão abertas em regiões próximas a grandes cidades, de acordo com os dados do Ministério da Saúde.

Médico cubano fala com idosos (Foto: Prefeitura de Mucajaí/Divulgação)Médico cubano fala com idosos
(Foto: Prefeitura de Mucajaí/Divulgação)

Sem cirurgias?
O programa seleciona profissionais para atuar na atenção básica – por isso, Matos aponta que o trabalho não deve envolver cesarianas, cirurgias e procedimentos do atendimento secundário. O médico afirma que o trabalho no Mais Médicos vai ser essencialmente de prevenção e de controle de doenças diversas, desde hanseníase e malária até diabetes, hipertensão e hepatite.

“Esse programa precisa da boa vontade dos profissionais, equipamentos básicos para medir a pressão, estetoscópio, um sonar para auscultar o bebê, uma balança para acompanhar o peso da grávida. Precisa de recursos mínimos, não precisa de [aparelho de] raio-X” , diz.

Já o médico espanhol diz que a realidade pode ser bem diferente do que o programa propõe. Segundo ele, em cidades do interior, o médico que seria responsável pelos procedimentos mais complexos muitas vezes não fica à disposição e se dedica a outras atividades.

“Esse programa precisa da boa vontade dos profissionais, equipamentos básicos para medir a pressão, estetoscópio, um sonar para auscultar o bebê, uma balança para acompanhar o peso da grávida. Precisa de recursos mínimos, não precisa de [aparelho de] raio-X” , diz.”
Josué Jesús Matos, médico

“Existe o médico que vai para o posto de saúde por duas horas e depois vai para sua clínica privada. (…) Às vezes você se encontra num povoado de 5 mil habitantes e há cesarianas para serem feitas. Precisam de um cirurgião, e você está sozinho. Isso é uma realidade constante. Trabalhei no Pronto-Socorro de Cuiabá e, em mais de um plantão, eu cheguei e era o único clínico que havia porque os outros dois companheiros simplesmente não apareciam”, critica.

Info Mais Médicos V4 6.8 (Foto: Editoria de Arte/G1)

Comunicação
O agente comunitário de saúde será fundamental na comunicação com o paciente, diz o médico espanhol. Quando trabalhava no Brasil, ele contava com esses profissionais para entender queixas, sintomas e explicar o tratamento.

“Em atenção básica, o paciente precisa receber educação sanitária. O pessoal humilde, carente, sempre olha para o médico com medo e desconfiança. Se é um médico com uma fala enrolada, a informação se perde, e o paciente não retém nada do que foi explicado”, argumenta.

Com relação ao idioma, o médico cubano diz que os estrangeiros irão sofrer no início, mas que isso não deve ser impeditivo – em alguns meses eles já devem estar adaptados. “Passei por essa situação”, diz ele. “O meu idioma é o espanhol, eu cheguei em 1997 sem nenhum tipo de conhecimento do português.”

“Nos primeiros meses foi difícil, mas foi rápido. Em três meses estávamos entendendo bem, consultando no interior”, recorda-se Matos. “Se o médico que vai vir [pelo programa] tiver uma preparação básica em português, de três a seis meses antes, é muito melhor.”

Adaptação
Apesar de ver dificuldades na adaptação dos profissionais estrangeiros no Brasil, o médico espanhol acredita que o resultado poderá ser positivo. “A formação em medicina de família na Espanha é de muito falar com o paciente, de muito tocar o paciente. Os pacientes percebem rapidamente que não é um médico que simplesmente olha a cara, prescreve e manda embora em dois minutos. E isso a população agradece.”

Pedido de médicos
Dez profissionais foram solicitados pelo município de Roraima através do programa Mais Médicos, afirma Matos. Eles devem complementar o trabalho de seis equipes de saúde da família que já têm médico, enfermeiro e demais profissionais e estão completas na cidade.

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