É hora de mudar as estruturas ‘viciadas’ do esporte no país, defende Raí

Publicado em sexta-feira, agosto 16, 2013 ·

RENATO LEITE RIBEIRO/AGÊNCIA PÚBLICA
RENATO LEITE RIBEIRO/AGÊNCIA PÚBLICA

Para quem não conhece a região, não é fácil chegar à Fundação Gol de Letra. As vias tortuosas e as ladeiras da Vila Albertina, no bairro do Tremembé, extremo norte de São Paulo, confundem quem está acostumado às ruas largas e sinalizadas do chamado centro expandido da capital paulista. A organização fundada pelos ex-craques do São Paulo, Raí e Leonardo, em 1998, fica no alto de um morro.

Vista de fora, parece uma escola infantil bem cuidada, contrastando com as casas vizinhas, sem revestimento, e na companhia de Raí, vamos descobrindo a fundação. Entramos nas salas, ele cumprimenta as pessoas, explica as atividades realizadas ali: aulas de capoeira, futebol, teatro, música, informática. O objetivo é complementar a formação das crianças da região.

Ele é o que se pode chamar de exemplo inspirador para a molecada. Tetracampeão com a seleção brasileira em 1994, 5 vezes campeão paulista, 2 vezes campeão brasileiro, campeão da Libertadores e campeão mundial pelo São Paulo, além de uma passagem vitoriosa pelo PSG (Paris Saint Germain), da França, Raí aproveita os troféus conquistados no futebol profissional para erguer outras bandeiras: “As pessoas estão menos interessadas no esporte em si, enquanto direito das pessoas”, diz.

Ele também é diretor da ONG Atletas Pela Cidadania, presidida por Ana Moser, uma mobilização de atletas consagrados por políticas públicas para o esporte e, antes de começar a entrevista, mostra no jornal a primeira vitória da organização: o governo havia endossado a proposta dos atletas para emendar a Lei Pelé (MP 612), adotando medidas como quatro anos de mandato para dirigentes das federações que recebem recursos públicos, transparência na prestação de contas, participação dos atletas nas eleições e remuneração dos dirigentes. “Saiu hoje, o governo endossou”, repetiu, orgulhoso. Leia aqui a entrevista do craque.

Quando você iniciou sua carreira como atleta você sentiu falta de ter uma estrutura como a que você oferece para essas crianças na Fundação Gol de Letra? Faltou algum apoio nesse sentido?

Eu sentia isso de duas formas diferentes. Primeiro, no próprio clube que deveria incentivar e se preocupar mais com o jovem. Hoje em dia mais ainda porque os jogadores chegam com 12, 13 anos para morar no clube e geralmente vêm de outra cidade. Mas o que era mais forte para mim era sentir o quanto os jogadores com quem eu convivia, meus companheiros e colegas de time no juvenil, nos juniores e depois no profissional também, eram pessoas capazes, inteligentes, mas que não tiveram acesso à informação, a uma boa qualidade de educação, a experiências diferentes, como a gente tenta fazer na Fundação. Apesar de ter vindo de um meio mais pobre e tal, quando eu nasci meu pai já estava numa condição melhor, e vi que 95% dos atletas vêm de regiões pobres, de bairros pobres com escolas ruins e que acabam tendo que deixar a escola. Eu tive boa escola, boas condições e pude ver o quanto isso limitava o potencial e as oportunidades que eles tinham. Isso me marcou e me deixou muito sensível ao tema. E não só pelo projeto aqui, mas também pela minha visão ideológica, de justiça social, tudo o que eu fui desenvolvendo depois. Eu sempre digo que o que me levou a montar a Fundação não foi só a diferença de recursos, mas também de oportunidades entre as pessoas, o que é a grande injustiça.

Você poderia explicar mais sobre o papel dos clubes na formação dos atletas?

Existem bons exemplos de clubes que ainda são minoria, mas, em geral, o clube só quer formar o atleta para jogar no time dele, com uma visão muito pobre de formação cidadã, educacional. A formação é muito voltada para desenvolver um lado técnico, de fundamentos, o aspecto físico, mas essa outra parte, de desenvolvimento da pessoa, fica esquecida. Pelo fato de eles serem responsáveis por esses garotos já muito cedo, eles teriam que ter uma fiscalização mais constante, mais presente. O Conselho Tutelar já chegou a multar ou tomar outras providências em alguns clubes em que os caras não iam para escola ou não estavam em situação decente. Então acho que é uma coisa que ainda tem que melhorar bastante.

E qual é o efeito disso para o atleta?

O efeito é um jogador menos preparado, uma pessoa menos preparada para encarar as coisas. O reflexo disso fica evidente no pós-carreira, quando ele sai do universo do futebol e fica perdido, sem uma visão mais ampla. E quando você se torna um atleta, além de cidadão, você se torna uma pessoa pública, e aí a formação faz falta para participar, ser consciente.

Você teve uma breve experiência como gestor das categorias de base do São Paulo. Como foi?

Durante os três meses que fiquei, eu vi que os atletas moravam em quartos embaixo da arquibancada do estádio do Morumbi: as janelas tinham grades, os meninos tinham que se deslocar para a escola, para o treino… Então a primeira coisa que eu fiz foi provar para os dirigentes que valeria a pena ter um centro de treinamento que o São Paulo não tinha. Para tirar os garotos dali, eles alugaram um centro de treinamento que pertencia ao José Roberto Guimarães, treinador da seleção feminina de vôlei. Outra coisa que eu fiz foi trazer um educador com grande experiência, que era ligado à Escola da Vila [colégio particular de São Paulo], que também tinha trabalhado em presídios, tinha vivência em diversos ambientes, para  Eu a gente desenvolver um projeto educativo [no São Paulo], como a gente faz aqui. Uma ideia de educação integral: ver como as crianças convivem, onde elas vivem, a escola, o tempo livre, ver como trabalhar isso para ter uma formação mais ampla. A minha primeira preocupação foi justamente essa questão humana. E depois que eu saí, o Cilinho, que entrou no meu lugar, manteve esse educador por mais um tempo. Não acompanhei de perto, mas tenho certeza que ele deve ter colaborado bastante.

Por que você saiu em tão pouco tempo?

Primeiro porque a estrutura do futebol e dos clubes tem muitas amarras políticas, né? Então você tem que compor com várias chapas, vários interesses diferentes, para você conseguir se eleger ou se manter onde está. E acaba ficando muito dividido. Eu entrei num momento em que a oposição tinha ganhado, então estava mudando de grupo. Achei que iria colaborar como um executivo, como um profissional que ia fazer esse tipo de plano. E eu vi que as pessoas ali dentro me respeitavam como pessoa, me tinham em boa conta, mas não queriam profissionalizar o trabalho, tinham outros interesses. E aí acabou travando. Ali eu me senti meio que como um peixe fora d’água, senti que ia acabar incomodando, arrumando briga política. E eu, por ter sido ídolo do São Paulo, vi que eu tinha muito mais a perder do que a ganhar em uma estrutura que não estava pronta para as ideias e para a maneira como eu queria atuar.

Mudando um pouco de assunto: como você avalia a superestrutura do futebol? Esse modelo de repasse de verbas da confederação para as federações?

Acho que é uma estrutura viciada há muito tempo. As federações que elegem o presidente da confederação são, na maior parte delas, [dirigidas por] pessoas que já estão há muito tempo no poder. Os clubes que elegem o presidente da federação geralmente devem favores à pessoa que está na presidência da federação. O presidente da federação é um cara que já ajudou clubes aqui e ali, até financeiramente. E o clube acaba se sentindo obrigado a votar nessa perpetuação de poder. A CBF é a mesma coisa: acaba fazendo conchavos com as federações para se manter ali e devolve esse conchavo com favores. Então acho que é uma relação viciada para permitir uma perpetuação do poder, algo completamente antidemocrático. E as pessoas que gerem o futebol acabam se sentindo donas dele e se esquecem do interesse público do esporte que elas representam. E isso não só com o futebol, mas com todas as modalidades esportivas. Esse vício começa montando um ambiente que é muito propício para falcatruas, corrupção, mau uso do dinheiro, em detrimento da modalidade e das pessoas que estão envolvidas com o futebol.

Você acha que a Copa do Mundo pode impulsionar uma discussão pública desse modelo?

Acho que é uma oportunidade. A gente viu a quantidade de exigências que a FIFA coloca para o país poder receber a Copa do Mundo. E como existem muitos interessados, o país acaba cedendo e aceitando todas essas exigências. Aí a FIFA vem com uma coisa pré-determinada que acaba dando muitos poderes para ela própria, ou para a confederação que está recebendo a Copa. Então a Copa do Mundo por si só, acho que não poderia deixar legado nesse aspecto porque os responsáveis pela organização são eles mesmos. Até o governo federal começou a perceber isso, tanto que a Dilma tem uma relação super distante tanto com o Ricardo Teixeira quanto com o Marin, não quer nem aparecer junto. Mas ao mesmo tempo é uma grande oportunidade da população se mobilizar, das pessoas organizadas reivindicarem, porque isso tem que mudar. Antes não havia propostas, apoio da opinião pública, os esportistas também não tinham uma mobilização tão grande… Agora eu acho que está acontecendo, é o que a gente está fazendo. Essa emenda que aprovamos é um exemplo. Enfim, a Copa do Mundo é uma oportunidade para que as pessoas se manifestem e aí forcem uma mudança. São mudanças que até poderiam acontecer de outra forma, mas com a Copa aqui, chamando a atenção, é uma grande oportunidade para que a gente tenha os avanços nas estruturas do futebol.

E estamos aproveitando essa oportunidade?

Por enquanto estamos aproveitando pouco. Acho que ainda tem tempo e as Olimpíadas vão estender o interesse e o ambiente de discussão sobre esporte até 2016, pelo menos. Acho que vai depender da nossa mobilização e de uma boa estratégia para poder tocar e mexer nos pontos chave. No nosso caso, o que estamos fazendo é ter discussões internas e com outros atores da sociedade que mexem com o tema para ver quais pontos podemos atacar. O que pode acontecer é a imprensa e a população também ficarem atentas a alguns abusos que aconteceram. E por que eles acontecem? Por ter muito poder centralizado, acumulado na mão de poucos. Temos que pensar tudo que não avançou e foi mal feito, mal intencionado, o quanto isso prejudica o desenvolvimento do esporte no Brasil.E precisamos ver o que poderia ser feito de diferente, se houvesse essa alternância de poder, quais seriam as vantagens, os benefícios. Precisamos mostrar, discutir, debater e reivindicar. Esse é o caminho.

 

por Por Ciro Barros e Giulia Afiune, da Agência Pública

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