Duas mil crianças vivem ‘invisíveis’ na periferia de cidades da Paraíba

Publicado em segunda-feira, Maio 30, 2011 ·

criança1Uma geração de jovens está sendo exterminada em todo o País e tem deixado órfã outra geração de brasileiros. De forma precoce, adolescentes e jovens paraibanos, de 15 a 24 anos, estreiam nas drogas, tornam-se pais e são executados pelo tráfico, deixando meninas e meninos órfãos. Não há estudos no Estado que mostrem quantas crianças perderam pais e mães assassinados nessa “guerra”. Uma estimativa mostra que cerca de 2,6 mil paraibanos, de 15 e 24 anos, executados em 10 anos (Mapa da Violência 2011), deixaram pelo menos 2 mil órfãos, em favelas da Paraíba. De 1998 2008, a população paraibana cresceu 11,6% e os homicídios de jovens nesta faixa etária 147%, ou seja, 12 vezes mais.


A estimativa de órfãos foi feita com base no trabalho de uma Organização Não-governamental do Estado, que mostra que de cada 10 jovens mortos pelo tráfico em comunidades da periferia, cerca de 40% deixam, em média, dois filhos. Essas crianças estão “invisíveis” na sociedade, que não tem conhecimento sobre elas ou faz de conta que não as vê. Elas vivem “reféns” de uma vida de privações, violação de direitos e fome. A 3ª reportagem da Série “Geração Perdida” fala sobre os órfãos do tráfico e aponta soluções para esse “negócio”, que movimenta milhões de reais, destrói famílias das favelas aos bairros nobres e desafia todos os poderes da sociedade.



Tráfico deixa 10 órfãos na mesma família


Na comunidade Renascer 3, em Cabedelo, na Grande João Pessoa, o tráfico já deixou, em uma mesma família, até 10 crianças órfãs. A família de Maria Tereza Nascimento, 57, é um retrato dessa realidade. Maria cria 10 netos, o mais novo tem 11 anos. São filhos de dois genros executados nessa “guerra”. Ela perdeu em quatro anos, quatro pessoas: o filho de 18 anos, o sobrinho de 22 e os genros Antônio Marcos, 33 e Aderaldo, 40, morto no mês passado. Maria sustenta os netos com um salário mínimo, que recebe da aposentadoria.


“Tem dia que não tenho um caroço de feijão pra botar na panela. É muita gente pra dar comida. Meu marido já tirou 13 anos de cadeia. É pescador e está doente. Não pode mais trabalhar”, revelou Maria. Só Antônio deixou 8 filhos. “Ele foi morto em 2010. Usava droga”, acrescentou Maria.
“Quando crescer, vou ser policial. Ele protege ‘as casa’ e prende ‘os ladrão’”, afirmou Emerson, 7 anos. “Meu sonho é ser professora”, revelou Andriele, 11. Estudiosa, é o orgulho da avó Maria. A menina perdeu o pai no mês passado. Emerson e Andriele são os filhos vivos dessa geração perdida de brasileiros, “apagada” principalmente a tiro. Como eles, outras crianças órfãs vivem no meio desse “fogo cruzado”, em Cabedelo, onde a lei é ditada pelo “Tribunal do Tráfico”.



Mãe aos 14 anos, viúva aos 16


Na comunidade do Riachinho, em João Pessoa, Maria Santos, 38, tem uma história de perdas. Teve 12 filhos. Perdeu oito, sete de doenças, com menos de um ano, e um de tiro, José, 19. “Minha dor é pelo que morreu de tiro”, revelou. Ela cria a netinha que ficou, “Jaqueline”, de 1 ano e 4 meses. “Meu filho começou a usar maconha com 7 anos. Depois passou para o crack e começou a vender também”, contou. A criança é órfã de pai morto e mãe viva. O pai de Jaqueline foi enterrado de forma precoce. A mãe ficou viúva com apenas 16 anos.


“José” e a companheira “Raíssa”, 16 (nomes trocados para preservar as identidades), ingressaram nas drogas e foram pais muito cedo. “Minha nora deu a luz com mais ou menos 14 anos. Quando peguei minha neta pra criar, ela estava magrinha, desnutrida e com pneumonia. Falei com um conselheiro tutelar, ele lutou e conseguiu uma vaga pra ela na creche”, revelou Maria, que tenta na Justiça a guarda da neta.


Em outra família da Capital, Neide, 41 (nome trocado para preservar a verdadeira identidade), cria cinco filhos, com idades entre 4 e 13 anos, que perderam o pai executado há cinco anos, poucos dias depois de deixar a prisão. Ela saiu da sua casa, na comunidade Saturnino de Brito, onde facções do tráfico impõem “toque de recolher”. “Os dois mais novos sempre perguntam pelo pai e quando ele vai voltar. Digo pra eles que o pai foi morto. Então, dizem: ‘meu pai está morando no céu’”, contou Neide, que tenta o impossível: sustentar os filhos com apenas R$ 166 do programa Bolsa Família.


“Só de aluguel pago R$ 120. Faço faxina e junto latinha no lixo pra vender. A sorte é que minha mãe me ajuda”, disse Neide. Como os órfãos de Cabedelo, os filhos de Neide também sofrem privações e não recebem acompanhamento psicológico.



Pais deixam drogas como herança


No meio do “fogo cruzado”, na periferia de cidades da Paraíba, alguns “órfãos do tráfico” já foram ‘seduzidos’ por essa “narcopátria” e perpetuam o ciclo de violência. Os jovens dessa geração perdida de brasileiros deixam a pobreza e esse mundo como herança para os filhos. Esse “negócio” é um dos mais lucrativos do mundo. Em quase quatro anos e meio (de 2005 a abril de 2009), o comércio ilegal de drogas movimentou na Paraíba mais de R$ 389 milhões.
A estimativa de lucro foi feita com base em estatísticas de apreensões da Polícia Federal no Estado e projeções da Organização das Nações Unidas (ONU), que estima que, em todo o mundo, o aparelho policial só consegue apreender em torno de 10% da droga que entra e circula nos Estados. Mas esse dinheiro não esteve nas mãos dos jovens, “soldados desse exército”. E nem está com suas famílias. A fortuna permanece com os chefões do tráfico, que habitam o outro lado do Brasil.


“Algumas crianças órfãs continuam o ‘trabalho’ dos pais, seguindo o mesmo ciclo. Elas são criadas como animais brutos e com a ideia de que a violência é uma coisa normal. Não há tempo a perder. Temos que correr para salvar essa geração. Se a sociedade não acordar, vai gerar outra geração ainda mais violenta”, afirmou Maria Marta Araújo, diretora do Centro Evangélico de Assistência à Criança e ao Adolescente – Casa de Salem, que atua no Renascer 3, em Cabedelo.


Sem perspectivas de vida e emprego, meninos e meninas perpetuam esse ciclo e o trabalho no tráfico passa de pai para filho. “Uma criança de 5 anos me disse: ‘Olha aqui minha ’12’ e apontou para um desenho que tinha feito na ONG. Garotos também mostram armas de verdade. Convivemos com isso todos os dias e nos sentimos impotentes. Há muito por fazer, mas esbarramos na falta de recursos”, acrescentou Marta Araújo. Ela está tentando montar uma escola para 100 crianças do Renascer, órfãs ou que têm pais usuários de drogas. Mas a entidade precisa de recursos para desenvolver suas ações, oferecer cursos profissionalizantes e reforço escolar.


“É preciso atuar na prevenção, oferecendo educação de qualidade, saúde e cursos profissionalizantes para esses jovens, para gerar trabalho e renda. É preciso resgatar também essas famílias. É necessário investir nessas pessoas antes do tráfico”, concluiu Marta Araújo.


“A escola que temos não atrai esse jovens. Eles vivem num mundo paralelo, esquecido pelo Estado e o tráfico pode significar a oportunidade rápida de ascensão social”, comentou o presidente do Conselho Tutelar da Região Norte da Capital, Sérgio Lucena.


Para chegar aos R$ 389 milhões, a reportagem utilizou estatísticas de apreensão de maconha, cocaína, crack, ecstasy e LSD da PF e a projeção da ONU, que calcula que o volume de drogas sendo consumido é nove vezes maior do que o número de apreensões feitas pela polícia. Depois multiplicou pelo preço médio que é vendida cada droga na Paraíba.



Mais de 100 mil viciados


A Paraíba teria mais de 100 mil viciados em crack. A estimativa foi feita com base em dados de um estudo do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), que mostra que João Pessoa é a capital brasileira com maior uso de crack entre adolescentes e jovens, com um índice de 2,5%. E, ainda, em uma projeção da Organização Mundial de Saúde (OMS), que diz que de cada 10 pessoas que experimentam o crack, pelo menos nove se tornam dependentes. Considerando esse índice, somente no ano passado, 4,1 mil adolescentes e jovens (12 a 24 anos) experimentaram o crack pelo menos uma vez, só na Capital. Desses, 3,7 mil se tornaram viciados.


O estudo II Levantamento Domiciliar sobre Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil 2005, do Cebrid, envolveu as 108 maiores cidades do País e analisou o consumo desse tipo de drogas entre estudantes do ensino fundamental e médio, nas 27 capitais brasileiras.


A estimativa dos mais de 100 mil usuários de crack no Estado foi feita com base no índice de 2,5% e na população paraibana de 12 a 24 anos, de 2005 a 2010 (segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).


“A média do País é em torno de 1%. Então, a média de consumo de crack na capital paraibana é quase o triplo da nacional. O crack é o grande impulsionador da violência e tem o maior poder viciante”, ressaltou o especialista Deusimar Wanderley Guedes, presidente da Comissão de Políticas de Segurança e Drogas da Ordem dos Advogados do Brasil na Paraíba.

Henriqueta  Santiago
Do Correio da Paraíba
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