Documentário mostra Raul Seixas nos mínimos detalhes

Publicado em segunda-feira, Março 26, 2012 ·

 

Os atores Peter Fonda e Dennis Hopper aparecem pilotando duas motocicletas nas imagens clássicas do filme “Easy Rider”, dirigido por Hopper, em 1969. Junto com elas, na mesma situação, surge o mais famoso sósia do roqueiro baiano Raul Seixas. Assim começa o documentário “Raul – O Início, o Fim e o Meio”, dirigido por Walter Carvalho, co-dirigido por Evaldo Mocarzel, e que estreou nos cinemas brasileiros na sexta (23).
O documentário conquista o espectador pela riqueza de detalhes, tanto nos depoimentos, como na escolha de materiais de arquivo. Não faltam também algumas sequências mais rebeldes, bem de acordo com o espírito de Raul Seixas. É o caso daquela em que ele aparece com o áudio da sequência anterior; da que mostra a vontade do artista em se tornar cineasta por meio dos desenhos que realizava na infância; e da sequência final em que a câmera acompanha o trajeto até o apartamento onde ele foi encontrado morto. Outro momento delicioso é quando Paulo Coelho está dando a entrevista e aparece uma mosca, a qual ele chama de Raul, claro, em menção a uma das mais famosas músicas do artista, que é mostrada em seguida.
A opção aqui é por ser um documentário mais convencional, misturando lembranças e histórias de amigos, parentes e personalidades com tentativas de restituições e muito material de época. Tem-se a impressão de que tudo que poderia ser mostrado sobre Raul Seixas aparece ali e os personagens mais importantes para relatar a história foram ouvidos por ótimos entrevistadores, que não deixaram de abordar qualquer assunto, dos menos conhecidos aos mais discutidos.
Já que a completude é tão grande, sente-se falta de algumas passagens, como quando Raul Seixas e Paulo Coelho compuseram a trilha original da telenovela “O Rebu”, e de “Gita”, dirigido por Cyro Del Nero, ser considerado o primeiro videoclipe brasileiro, mesmo sendo ele mostrado e mencionado. São apenas detalhes, pois tudo o que realmente interessa está ali, desde a infância de Raul Seixas, em Salvador (BA), no anos de 1940 e 1950, até seus últimos shows ao lado do também roqueiro baiano Marcelo Nova, no final da década de 1980, e a morte no apartamento em que morava em São Paulo, em 21 de agosto de 1989, aos 44 anos.
Walter Carvalho mostra ser um documentarista extremamente minucioso, atento e com o “timing” afinadíssimo, disposto aos mais diferentes recursos para desenvolver uma boa narrativa. Ele vai, por exemplo, com Waldir Serrão, amigo de infância do artista, ao Elvis Rock Club, ao qual os dois pertenceram e que, como o nome já entrega, era uma homenagem a Elvis Presley. Em seguida, são mostradas imagens do filme “King Creole”, um dos estrelados pelo roqueiro norte-americano; e outro amigo descreve que eles saíam imitando o ídolo pelas ruas de Salvador e, claro, recita exatamente da maneira correta algumas das falas, mesmo tantos anos depois.
A partir daí, vai-se construindo a personalidade e carreira de um artista que chamou a atenção por misturar rock com baião, no sucesso “Let Me Sing”, classificado para um dos festivais da canção, e foi considerado cantor de protesto, mesmo não assumindo o rótulo, tal era sua ousadia, criatividade e inteligência num momento dominado pela censura. Antes atingir a fama e se tornar cultuado, ele formou uma banda, Raulzito e os Panteras; e trabalhou como produtor numa grande gravadora.
Todos os 17 álbuns são, de algum modo, mencionados (isso quando não são reveladas curiosidades) e mostrados, assim como os principais sucessos, caso de “Sociedade Alternativa”, “Maluco Beleza”, “Gita”, “Medo da Chuva”, “Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás”, “Al Capone”, “Ouro de Tolo”, “Cowboy Fora da Lei”, “Carimbador Maluco”, “Tente Outra Vez”, “O Trem das 7” e “Rock do Diabo”, entre tantas outras.
São refletidas e analisadas no documentários pontos mais polêmicos, como a criação ou não da tal Sociedade Alternativa; o convívio com os parceiros Paulo Coelho e Claudio Roberto; os vários casamentos e relações amorosas; o convívio conturbado e carinhoso com as filhas, exceto uma que se recusa a falar sobre ele; o intenso envolvimento com drogas e o sofrimento com a diabetes e o alcoolismo; e os shows realizados com Marcelo Nova, que, para alguns, estava sendo benemérito e, para outros, explorando um artista muito fragilizado e adoecido.
Nada é evitado. Muito pelo contrário. É exposto na tela, sem ressalvas e sem esconder os momentos em que as pessoas se emocionam de fato. Nada é feito propositalmente para que isso ocorra, mas também não há necessidade de se esconder ou maquiar. No final, o que importa mesmo são os números musicais e as dezenas de depoimentos, de, além de amigos e familiares, Solano Ribeiro, André Midani, Roberto Menescal, Nelson Motta, Pedro Bial, Daniel de Oliveira, Sylvio Passos, Caetano Veloso, Tom Zé e Marcelo Nova. Tudo tão bem amarrado e saboroso, que quase não se percebe que o documentário estende-se por quase duas horas.

Por: Guilherme Bryan, especial para a Rede Brasil Atual
guibryan1@redebrasilatual.com.br

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