Dilma: reforma política é pilar de Plano de Transformação Nacional

Publicado em domingo, junho 22, 2014 ·

FABIO RODRIGUES POZZEBON/AGÊNCIA BRASIL
FABIO RODRIGUES POZZEBON/AGÊNCIA BRASIL

A convenção nacional do PT teve um objetivo maior do que o de ratificar a aliança com o PMDB na disputa pela reeleição. O encontro de hoje (21) em Brasília serviu como combustível em torno de um dos principais ingredientes para se fazer uma campanha vitoriosa: “a adrenalina nas ruas”, nos dizeres do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Plano de Transformação Nacional apresentado por Dilma Rousseff tem entre seus principais pilares a defesa de uma reforma política no debate eleitoral.

A presidenta abraça a tese de uma reforma com plebiscito e ampla participação social como essencial para se construir um ambiente favorável ao que chama de “novo ciclo de desenvolvimento e novo ciclo histórico”. Segundo ela, sem citar nominalmente o decreto presidencial que institui o Política Nacional de Participação Social (PNPS), que causou alvoroço na oposição, a sociedade exige a criação de novos mecanismos de intervir nas decisões e nos rumos do país.

Citou a internet como ferramenta de ampliação da democracia para além do eixo Executivo-Legislativo – cujos limites foram combustíveis das manifestações populares desde o ano passado. E ponderou que a internet, para ter realmente esse poder, requer acesso universalizado, por meio da expansão das redes de fibra ótica para que os serviços de banda larga alcancem a população mais pobre.

Antes, Lula havia enfatizado: “O que ganha eleição não é maior tempo de TV ou a qualidade da propaganda eleitoral. O que ganha é a adrenalina nas ruas”, destacando o papel da militância petista no processo. “É a campanha da verdade contra a mentira e contra a desinformação”, reforçou Dilma. Ambos têm consciência de que, como demonstraram os momentos de mais aplausos e empolgação, a reforma política e a democratização do acesso à informação são as bandeiras que provocam a “adrenalina” a que o ex-presidente se refere.

Alianças

O vice-presidente Michel Temer afirmou que a eleição de Lula, em 2002, foi o segundo grande momento da democracia brasileira, depois da Constituição de 1988. “A Carta foi um banho de democracia. E a eleição de Lula em 2002 foi um segundo grande momento, ao começar a pôr em prática requisitos de cidadania exigidos pela Constituição, como direito a alimentação, saúde e educação para todos”, comparou, referindo-se aos programas sociais privilegiados pela gestão petista a partir de 2003.

Temer assinalou que, além de ter retirado mais de 42 milhões de pessoas da situação de pobreza extrema e de a chamada classe C ter aumentado de 37% para 55% da população, os quase 12 anos de era Lula-Dilma também representaram o crescimento da classe B de 7,6% para 12,5%. “Governamos para todos os brasileiros”, disse, ao defender a presença de seu partido na coligação.

O fato é que outro sistema político será crucial para conduzir o país a um cenário que torne menos surreal explicar as alianças que hoje se apresentam. Enquanto o PMDB de Temer celebra mais uma temporada de coligação com o PT de Dilma, quase metade de seu partido já sinaliza que pode dar mais trabalho numa eventual próxima gestão do que já tem dado.

Enquanto o PSB de Eduardo Campos se alia ao PSDB de Geraldo Alckmin em São Paulo, o PSB de Romário vai compor chapa com Lindbergh Farias no Rio de Janeiro – o petista disputa o governo e o “peixe”, o Senado.

Enquanto um ministro lamentava o salto do PTB do barco de Dilma para o do tucano Aécio Neves, um militante de São Paulo, que não faz conta de minutos de TV (“prefiro a adrenalina”), comemorava. “O PTB tem aparecido em suas inserções de TV tendo como principal bandeira a redução da maioridade penal. Isso é projeto? Uma explicação a menos pra eu dar lá em casa.”

Pisando em ovos

Dilma enfatizou mais a defesa da reforma política do que a democratização da comunicação. O PT faz da batalha por uma lei de meios que coíba o monopólio da informação uma bandeira de campanha. E Lula coloca um acento mais agudo na questão. Questionado pela reportagem sobre a diferença de abordagens, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, afirmou que a diferença é apenas de “ênfase”, mas não de propósitos.

“O assunto está amadurecido e todos concordamos que a regulação precisa ser feita. Não é preciso inventar muito. Basta chegarmos a um marco civil que ponha em prática o que determina a Constituição”, simplifica Bernardo. “Agora, não pode regular manchete de jornal. Tem de mexer em sistema de concessão pública, garantir produção regional. Por exemplo, parlamentar não pode ter canal de rádio e TV, não pode haver propriedade cruzada.” E quando esse tema vai entrar na pauta do governo? “No momento certo, a partir do ano que vem”, estimou.

O ministro criticou a atitude do PTB, de afirmar num dia que participaria da coligação pró-Dilma e no outro anunciar que vai apoiar Aécio. Reprovou o sistema que proporciona ao PSB apoiar um tucano em São Paulo e um petista no Rio de Janeiro. “É por isso que temos dito que é preciso fazer uma grande reforma política. As pessoas precisam saber o que defende cada partido, e não ficar essa misturança toda.”

Enquanto as regras não mudam, segue o jogo. Agora com recados mais enfáticos, porque a prioridade é a adrenalina. Somados os balanços feitos por Rui Falcão, presidente do PT, Michel Temer, Lula e Dilma, os oradores do evento, os cerca de 800 delegados presentes à convenção foram desafiados durante duas horas a ter na ponta da língua os números da era Lula-Dilma.

Para Lula, a “desvantagem” no tratamento recebido pelos meios de comunicação pode ser revertida na capacidade de comparar números de avanços econômicos e sociais alcançados, o “passado” do qual a oposição não gosta de falar, e projetos que vierem a ser apresentados.

Para Dilma, o slogan “Mais mudança, mais futuro” responde às demandas que vêm sendo apontadas nas pesquisas de opinião e nas ruas. “É necessário aprofundar as conquistas”, repetiu várias vezes, acrescentando que comparar é uma forma de dialogar com os mais jovens. “O Plano de Transformação Nacional tem na essência mais oportunidades que antes não existiam, eram quase nulas para os brasileiros, e mais responsabilidades do Brasil em relação ao mundo”, disse, explicando que o país não seguiu o receituário antes (de 2002) tradicionalmente adotado diante de crises.

“Antes se respondia a crises com arrocho salarial, com juros estratosféricos, com desemprego. Não fui eleita para arrochar, liquidar patrimônio público, mendigar no FMI, como fizeram. Fui eleita para governar de cabeça erguida. E sei que é preciso mais”, disse a presidenta. “Precisamos criar condições de defender o que conquistamos e de ingressar num novo ciclo de crescimento, com mais redução de desigualdades.”

Tanto ela quanto o ex-presidente argumentaram que o que atormenta a oposição é vislumbrar as novas possibilidades de “sucesso do novo ciclo”, diante de uma combinação de cenário externo mais favorável, arrefecimento dos efeitos da crise de 2008 e do potencial de recursos internos a ser proporcionados pelo pré-sal. “Ainda bem que fortalecemos a Petrobras”, voltou a comparar.

Lula aproveitou o momento até aqui bem-sucedido em torno da Copa do Mundo para mandar recados. “O que fizeram com a Dilma no dia da abertura da Copa só fez dobrar a minha disposição de oferecer todo e qualquer esforço para reelegê-la”, assinalou.

Dilma, por sua vez, manteve o tom adotado após o episódio dos xingamentos de parte da torcida. “Nunca fiz política com ódio, nem mesmo quando tentaram me destruir física e moralmente. Que sem deixa guiar pelo ódio faz o jogo do adversário. Não guardo rancor de ninguém, mas não abaixo a cabeça. Não insulto, mas não me dobro. Não perco meu tempo com o rancor do adversário. Tenho muito o que fazer, um país para governar, um povo para representar e um programa de emancipação a conduzir. Abaixo a mediocridade e o baixo astral”.

 

 

Paulo Donizetti

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