Depois da dor da morte, o constrangimento pela espera do ‘Rabecão’

Publicado em segunda-feira, Janeiro 9, 2017 ·

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Os municípios localizados nas proximidades de Patos e Guarabira sofrem com uma situação, no mínimo, inusitada, e que aumenta o sofrimento de muitas famílias: a demora no recolhimento de corpos de pessoas vítimas de crimes ou acidentes nas regiões do Sertão e Agreste paraibanos. O problema é que os Núcleos de Medicina e Odontologia Legal (Numol) dessas duas cidades atendem uma área grande e não conseguem dar conta da alta demanda de ocorrências. Só este ano, até novembro, foram realizadas 686 necropsias nessas duas sedes, que atendem, as duas, 141 municípios.

De acordo com a perita e subchefe do Numol em Guarabira, Michele Ísola Gomes, o prédio onde as necropsias são realizadas, também chamado de Unidade de Medicina Legal (UML) ou Instituto de Polícia Científica (IPC), apresenta problemas hidráulicos, elétricos e até logísticos, como falta de materiais para realização dos exames cadavéricos. Além disso, os chamados rabecões, dois veículos destinados ao transporte de mortos na região, também costumam apresentar problemas mecânicos que chegam a inviabilizar as operações de recolhimento de corpos.

“Em Guarabira nós trabalhamos com uma equipe em cada dia. Se acontecer duas ocorrências em horários próximos, quem chamou por último vai esperar bastante. Porque só temos um rabecão, um motorista, um médico, um odonto, um químico, um  perito criminal, um necrotomista e um técnico de perícia por plantão. Se, por exemplo, acontecer uma ocorrência em Itabaiana e outra em Araruna com meia hora de diferença, irá dar confusão de horário e ficar cadáver no meio da rua por conta desse problema operacional, de área e demanda grande e pessoal reduzido”, disse Michele.

Problema parecido aconteceu a uma família no município de Solânea, distante aproximadamente 40km de Guarabira. De acordo com Maria Araújo (nome fictício para não revelar a identidade da entrevistada), a tia dela, de 50 anos, casada e mãe de três filhos, morreu em um acidente doméstico no dia 19 de agosto, por volta das 14h, mas o rabecão do Numol só chegou à residência onde a morte aconteceu por volta das 21h. A liberação do corpo para velório só aconteceu no dia seguinte, às 12h.

Segundo a Secretaria da Segurança e da Defesa Social, o Instituto de Polícia Científica da Paraíba dispõe de 14 rabecões próprios para atendimento em todo o Estado. Sendo três em João Pessoa, dois em Campina Grande, três em Guarabira, um em Monteiro, um em Itaporanga, um em Patos, um Catolé do Rocha, um em Sousa e um em Cajazeiras.

“Minha tia morreu às 14h. Acionamos a polícia e o Numol poucos minutos depois, mas até as 21h, que foi a hora que o rabecão chegou, a família toda teve que passar pelo constrangimento de curiosos que entravam e saíam de casa para ver o que tinha acontecido e como ela tinha morrido. Por conta de toda a demora na remoção e liberação, o corpo da minha tia só começou a ser velado 24h depois do acidente. Outro problema que nós do interior enfrentamos é o fato do laudo cadavérico não sair na mesma hora. No nosso caso, a família só teve acesso ao documento três meses depois”. Maria Araújo (nome fictício), moradora de Solânea.

Distâncias atrapalham serviço

O diretor do Numol em Patos, Dionísio Costa, afirmou que o que atrapalha as operações de recolhimento de cadáveres no Sertão são as longas distâncias entre as 87 cidades atendidas pelo núcleo. Ele explicou que apesar da sede da região estar localizada em Patos, a equipe tem suporte também nos municípios de Sousa, Itaporanga, Cajazeiras e Catolé do Rocha. “Temos cinco rabecões nas cinco cidades, mas os veículos encontram-se em condições razoáveis, sempre tem dois ou três em manutenção. Não temos como impedir a demora na liberação nos corpos, porque na verdade o tempo gasto é no deslocamento”, afirmou.

Para solucionar esse problema o diretor do Numol/Patos lembrou que o governador já sinalizou que pretende construir uma Unidade de Medicina Legal em Cajazeiras. “Se isso acontecer, vai ajudar muito a melhorar nosso atendimento. É uma obra extremamente necessária, porque a região é muito extensa e precisa de um outro núcleo para melhor atendermos as famílias nesses momentos de tanta fragilidade”, pontuou Dionísio.

Falta espaço na Capital. Enquanto isso, em João Pessoa, o que preocupa o diretor geral do IPC, Israel Aureliano da Silva Neto, é a falta de espaço no prédio, que foi construído, segundo ele, em 1970 e já não comporta a demanda da região metropolitana e dos litorais norte e sul, totalizando 33 municípios. “A nossa sede é antiga, temos consciência que precisa ser reformada e reestruturada para melhor acomodar os serviços que oferecemos. O governador já sinalizou a reconstrução do IPC com um empréstimo que está pra sair. O início das obras do novo IPC está sendo planejado para 2017, segundo os projetos já existentes. Mas só teremos confirmação com a verba disponibilizada”, ressaltou Israel.

Necrópsias só a luz do dia

A respeito das denúncias de que faltava iluminação adequada para necrópsias serem realizada à noite nos núcleos de medicina e odontologia legal da Paraíba, tanto o diretor do Numol/Patos como o diretor geral do IPC afirmaram que a não realização de exames cadavéricos no período noturno é uma normatização seguida pela maioria das unidades.

“No Código de Processo Penal diz que as necropsias devem ocorrer seis horas após o óbito, então quando a morte acontece à tarde, a gente resolve fazer os exames de madrugada. Pra se fazer uma perícia de morte violenta, a luz artificial pura não é ideal, por mais que a iluminação seja boa, não é ideal. Nosso IPC tem até luz de foco cirúrgico, mas por mais que a gente queira que a família receba logo seu ente, aquilo é investigação criminal. Uma necropsia mal feita pode gerar uma exumação no futuro. É preciso fazer as coisas com cautela e responsabilidade”, avaliou Israel Aureliano.

DADOS

Os Núcleos de Medicina e Odontologia Legal (Numol) estão localizados nas cidades de:

– João Pessoa: atende a região metropolitana e litorais sul e norte – 33 municípios.

– Campina Grande: 74 municípios (com suporte de Monteiro).

– Guarabira: 29 municípios.

– Patos: 87 municípios (nessa região o núcleo tem suporte nas cidades de Itaporanga, Sousa, Catolé do Rocha e Cajazeiras).

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