Decapitações em presídio deixam legião de órfãos no Maranhão

Publicado em domingo, Janeiro 12, 2014 ·

pedrinhasFábio Henrique acabava de voltar de uma pelada de rua. Calçava chinelos com o símbolo do São Paulo. No peito, o brasão do Barcelona. Fã de Luis Fabiano e Messi, o garoto de 11 anos vive longe da sede dos times que admira. É maranhense, de São Luís.

Ao entrar em casa com um sorriso no rosto, encontrou a avó falando com a Folha.

O sorriso desaparece ao ouvir o assunto. Fábio fica quieto, apoiado aos pés de Maria do Socorro Silva Lima, 57.

O menino sai da sala e volta com um jornal. Aponta a foto do pai, Fábio como ele.

O registro mostra o pai, Fábio Silva Lima, 30, e outros nove cadáveres, com perfurações de facas e tiros.

São vítimas da rebelião de outubro em um dos presídios de Pedrinhas, maior complexo penitenciário local, pivô da crise de segurança da gestão Roseana Sarney (PMDB).

A avó de Fábio detalha a morte do filho, condenado por homicídio, e as condições insalubres em Pedrinhas.

“Eles não têm como trabalhar. Passam o dia amontoados naquela quentura”. Evangélica, sentencia: “Ali é a casa do demônio”.

Maria do Socorro se emociona ao lembrar de um sinal: um dia, um ex-detento lhe disse para orar para Fábio “sair com vida” de Pedrinhas. Um mês depois veio a notícia.

Fábio Henrique diz ter ouvido que o pai foi morto a tiros, provavelmente por policiais. Conta sobre o último encontro dos dois, em uma visita a Pedrinhas em junho. Era aniversário do garoto. O pai conseguiu um refrigerante e o filho levou o bolo.

O menino quer desanuviar a tristeza. Conta do reggae que ouvia em casa com o pai e das tatuagens que ele ostentava. “Meu pai tem meu nome tatuado”, diz ele, com a flexão verbal no presente.

O sorriso volta.

PELA TV

Da janela de casa, Vitória, 13, lembra do pai varrendo a frente do imóvel e da oficina mecânica em que trabalhava.

O mecânico Elson de Jesus Pereira, 44, ficou 12 dias preso em Pedrinhas. O crime: receptar quatro pneus. No dia 1º de outubro, um dia após o seu aniversário, morreu decapitado durante rebelião.

Diante da notícia das decapitações, a mulher de Elson, Tereza Furtado, 45, correu para o computador e procurou informações. “Se não está o nome dele, é porque não é ele”, disse Marcelo, 15, filho do meio. No dia seguinte, Vitória viu a foto no pai na TV.

Os três filhos repetem o sonho que o pai tinha para eles. Do mais velho, carreira no Exército; da garota, que se tornasse “doutora”. De Marcelo, o do meio, advogado.

Tyelle Safira não conhecerá o pai. Taiane Gaspar, 20, está no sétimo mês de gestação. Detido em Pedrinhas, o pai, Sidnei Pinheiro Martins, 19, foi morto a facadas dia 2.

Estava havia sete meses no CDP, acusado de ter matado um policial em um assalto. A mulher reconhece que ele participou do roubo, mas atribui a morte a comparsas.

O casal havia abandonado a escola. Taiane foi até a oitava série. Abandonou os estudos após engravidar, por não ter quem cuidar da primeira filha, de dois anos.

Sidnei deixou o interior para morar com a mãe em São Luís. Estudou até o primeiro ano do ensino médio. Fazia bicos como ajudante de pedreiro e havia se alistado no Exército. Não queria que Taiane voltasse a estudar.

Viúva e com duas crianças, ela ainda mantém o olhar perdido, para o chão.

 

 

Folha

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