Congresso Continental de Teologia: um novo ‘sinal dos tempos’ do fazer teológico

Publicado em domingo, agosto 28, 2011 ·



Não só fazer memória da experiência teológica, mas também olhar para o futuro: foi com essa intenção que, na noite da quinta-feira (25), representantes de diversas organizações eclesiais e teológicas se reuniram no Instituto Humanitas Unisinos – IHU para o lançamento oficial do sítio do Congresso Continental de Teologia, que será realizado em outubro de 2012, na Unisinos. O Congresso será uma ocasião especial para celebrar dois fatos significativos para a Igreja na América Latina e Caribe: os 50 anos da inauguração do Concílio Vaticano II, celebrada pelo Papa João XXIII, e os 40 anos da publicação do livro Teologia da Libertação. Perspectivas, de Gustavo Gutiérrez, que inaugura a trajetória da teologia no continente. Assim, olhando para o futuro, prospectivamente, o Congresso buscará refletir e debater os desafios e as tarefas futuras da teologia na América Latina, a partir do novo contexto, globalizado e excludente.

Acolhidos pelo diretor do IHU, Prof. Dr. Inácio Neutzling, SJ, estiveram presentes, entre outros, o Prof. Dr. Alfonso Carlos Larrauri Palácio, SJ, vice-presidente da Conferência de Provinciais Jesuítas da América Latina (CPAL) e provincial jesuíta do Brasil; Prof. Dr. Marcelo Fernandes de Aquino, SJ, reitor da Unisinos; Prof. Dr. Pedro Gilberto Gomes, SJ, pró-reitor acadêmico da Unisinos; Claudio Werner Pires, SJ, secretário da província jesuíta do Brasil Meridional; Attilio Hartmann, SJ, diretor da Associação Cultural e Beneficente Pe. Reus; Prof. Dr. Oneide Bobsin, reitor da Escola Superior de Teologia (EST); Ermanno Allegri, diretor-executivo da Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (Adital); Prof. Dr. Edelberto Behs, coordenador da graduação em Comunicação Social da Unisinos e membro da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC); dentre outras autoridades.

O encontro no IHU também ajudou a lançar o debate proposto pelo Congresso e vislumbrar alguns aspectos centrais da relevância do evento. Para isso, a Ir. María del Socorro Martínez (México), Pablo Bonavia (Uruguai) e Roberto Urbina (Chile), em nome da Fundação Ameríndia, membro da comissão organizadora do Congresso, ressaltaram em suas falas alguns pontos de destaque na organização prévia do evento, que já vem ocorrendo, e aquilo que é possível esperar para outubro de 2012.

Palavra e profecia

A Ir. Socorro relatou um pouco do histórico da preparação do evento, que surgiu como uma intuição, a partir das duas grandes comemorações que ocorrerão no ano que vem. Assim, ainda em setembro de 2009, ocorreu uma reunião com diversas universidades e organizações, em que, entre sentimentos como cautela, receio, entusiasmo ou aversão, foi possível avaliar se aquela que era apenas uma intuição poderia ganhar corpo. “Foi um lento processo de construção conjunta”, afirmou a religiosa.

A ideia, contou, era realizar o evento em Bogotá, Colômbia, por ser um lugar cêntrico no continente, mas, vendo a realidade do país e da Igreja local, avaliou-se que o Brasil tinha uma situação melhor. A Ir. Socorro agradeceu, por isso, a disposição do IHU, pela estrutura oferecida, e ressaltou a importância de se localizar em um país com maior abertura política e eclesial.

Em seguida, a religiosa também rememorou as Jornadas Regionais prévias, das quais duas já ocorreram: a da América Central e Caribe, na Guatemala, e a do Cone Sul e Brasil, no Chile. “A proposta – disse – foi a de nos mobilizarmos como comunidade teológica, em um processo que vai somando as contribuições de acordo com o contexto de cada região”.

Na Jornada da Guatemala, afirmou a Ir. Socorro, fez-se uso de uma teologia narrativa, dos processos de fé locais. Assim, tiveram destaque central os migrantes, que saem da América Central rumo aos EUA, as mulheres e o seu lugar na Igreja e na sociedade, os indígenas, em sua defesa da terra e dos recursos naturais, a realidade do Caribe, com uma pequena comissão representante, manifestando também a resistência do povo do Haiti, e o testemunho dos catequistas guatemaltecos, que sofreram a tortura nos anos da repressão e da ditadura. Embasados pela teologia índia, também foram celebrados, assim, os mártires e profetas da região, que nutrem e alimentam a experiência teológica.

Além dessas, lembrou a Ir. Socorro, serão realizadas a Jornada da Região Norte, entre os dias 5 e 8 de outubro deste ano, no México, e a Jornada dos Países Andinos, nos dias 19, 20 e 21 de outubro, na Colômbia.

“As jornadas vão deixando desafios que terão que ser retomados no congresso, como a mobilização, o fato de dar luz ao tempo que estamos vivendo no meio dessa mudança de época”, afirmou a Ir. Socorro. Nesse sentido, brincou, “o site do Congresso vai entusiasmar todo o continente”. E fez um apelo: “Que o Espírito nutra essa intuição de 2009, sem perder a vista de Quem nos chamou primeiro, nessa tarefa de libertação dos nossos povos. Apesar do crescimento do Brasil, ainda há uma grande maioria que precisa de muitas coisas, e nesse contexto a teologia tem que dizer a sua palavra e ser profeta”, resumiu.

Protagonismo reflexivo

Já o teólogo leigo Roberto Urbina relatou a experiência da Jornada do Chile, que reuniu mais de 300 pessoas, superando em muito a expectativa para o contexto chileno, e com o envolvimento de 14 instituições. Urbina também lembrou que a Jornada assumiu o nome de um teólogo muito importante e significativo para o Chile: Ronaldo Muñoz, que foi, afirmou, o “rosto e o selo da Jornada”.

Para Urbina, dois aspectos foram centrais na Jornada chilena. O primeiro, os eixos temáticos escolhidos, que abordaram um conceito fundamental: “Pôr a teologia em diálogo com as outras demandas e perguntas feitas hoje pela sociedade contemporânea a respeito de Deus”, afirmou. Nesse sentido, comparou essa proposta ao eixo Teologia Pública já desenvolvido pelo IHU.

Um segundo aspecto, disse, foi a metodologia da Jornada. “Não foi um congresso típico, com conferências e debates em grupo. Todos os participantes foram convidados a ser protagonistas do processo reflexivo e de um pensamento que possa contribuir com o pensamento teológico, uma contribuição que pode ser assumida pela reflexão dos teólogos/as”, afirmou.

Houve, no entanto, algumas limitações, como a fraca participação ecumênica e a pouca articulação nos conteúdos. Mas um dos resultados da Jornada do Chile, comentou Urbina, foi o de reunir um bom material de reflexão que será publicado em livro, disponibilizando como aporte de preparação ao Congresso, além da notável quantidade de jovens interessados nesse olhar teológico específico.

Sinal dos tempos

O Congresso, além disso, buscará refletir e reatualizar a herança do Concílio Vaticano II para a teologia. Foi a partir dessa ideia que o teólogo e sacerdote Pablo Bonavia explicou o sentido dessa herança: “Fazer teologia é ler os sinais dos tempos, a ação do Espírito”. Segundo Bonavia, “estamos vivendo o tempo dos emergentes, entre países e dentro dos países. O mapa mundial – continuou – está mudando de um mundo unipolar, centrado nos EUA, para um mundo multipolar”. E, nesse contexto, “a agenda mundial está cada vez mais habitada por preocupações que vêm do Sul”.

Assim, em meio a essa “distribuição diferente do poder”, surge a emergência de movimentos populares como os do norte da África, o movimento estudantil no Chile, dentre outros. E a teologia também não passa imune a esse processo. “Na Igreja também estamos diante da possibilidade de viver um tempo de emergência”, afirmou Bonavia.

O Vaticano II, disse, também deixou outra herança: a do “Povo de Deus como sujeito do fazer teológico e eclesial”. “Todos e todas, leigos e leigas, temos o mesmo carisma profético”, afirmou.

Por outro lado, o Congresso também celebrará os 40 anos da teologia da libertação. E essa modalidade de pensar Deus, segundo Bonavia, nos ensinou primeiro que a “teologia é momento segundo de dizer a experiência de Deus a partir da contemplação e da prática dos cristãos”. E, em segundo lugar, a “hermenêutica dos pobres”, ou seja, que “há coisas no mundo que só se veem a partir da perspectiva dos excluídos”.

É por isso, afirmou Bonavia, que “o Congresso poderá dizer uma palavra muito atual, não só fazer memória, mas para olhar para o futuro”, nos contextos espiritual, teológico e prático. Assim, concluiu o teólogo, o desafio “não é só interpretar melhor os sinais dos tempos, mas também fazer desse Congresso um sinal dos tempos” no contexto social, eclesial e teológico contemporâneo.

Por último, o Prof. Dr. Marcelo Fernandes de Aquino, SJ, reitor da Unisinos, lembrou que o IHU busca, desde a sua origem, propôr uma reflexão acerca das gramáticas teológicas que ajudam a anunciar o Evangelho. Nesse contexto, a Unisinos se felicita por poder acolher o Congresso em seu câmpus, como forma de contribuir nesse debate e na reflexão das narrativas teológicas hoje.

Sítio

80962_W220Q60I2SASRFHFVRLRRCLCTCRCBE, assim, dentro desse amplo contexto de debate, foi lançado o sítio oficial do Congresso, em versão trilíngue – português e espanhol, idiomas oficiais do evento, e inglês. Será por meio do site que os participantes poderão fazer as suas inscrições (a partir de março de 2012) e acompanhar todas as notícias e informações necessárias.

O sítio está disponível em www.unisinos.br/congresso-de-teologia.

O Congresso Continental de Teologia é organizado pela Fundação Ameríndia (Uruguai), pela Adital (Brasil), pela Associação de Teólogos do México (ATEM, México), pela Conferencia Latino-Americana de Religiosos (CLAR, Colômbia), pelo IHU, pelo Instituto Teológico-Pastoral para América Latina (Itepal, Colômbia), pela Pontifícia Universidade Javeriana (PUJ, Colômbia), pela Rede Teológico-Pastoral (Guatemala) e pela Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter, Brasil). O evento irá ocorrer entre os dias 8, 9, 10 e 11 de outubro de 2012, na Unisinos.


* Instituto Humanitas Unisinos






Fonte: Adital
Com Moisés Sbardelotto
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