Cocaína mata mais homens que mulheres

Publicado em domingo, junho 14, 2015 ·

cocainaOs homens foram quatro vezes mais vítimas de overdose de cocaína no Estado de São Paulo em 2013 do que as mulheres. A conclusão é de um estudo acadêmico que traçou o perfil das pessoas que tiveram a morte associada ao uso abusivo da droga naquele ano. O trabalho também apontou que a maioria das vítimas é economicamente ativa e tem baixo grau de instrução. As faixas etárias predominantes estão entre 19 e 30 anos e entre 31 e 40 anos.

Autora do estudo, a biomédica Alessandra Lapenta explica que ele foi realizado a partir da análise de dados do Núcleo de Toxicologia Forense da Superintendência da Polícia Técnico-Científica do Estado e considerou os registros feitos na capital, na região metropolitana e no interior. Este tipo de recorte, enfatiza, é inédito.

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Em todos os 1.685 boletins de ocorrência avaliados pela biomédica, as vítimas apresentavam cocaína no sangue, mas somente em 88 casos foi possível relacionar, com certeza, o óbito ao consumo do entorpecente. Do total de mortes por overdose, 86,4% foram de homens.

A maioria dos registros aconteceu na capital (46,6%). O interior aparece logo atrás, com 34,1%. A Grande São Paulo contabilizou 19,3% das ocorrências. Um detalhe surpreendeu Alessandra: usuários esporádicos, em geral, estão mais sujeitos a morrer em razão do abuso de cocaína.

— Apesar de a maior parte de usuários estar concentrada no centro de São Paulo, onde há a Cracolândia,  lá é a área em que houve menos mortes. Normalmente, as crises de overdose que observamos foram picos muito altos. São pessoas que não costumam usar a droga frequentemente.

Dose fatal

A partir da quantidade de 0,7 micrograma por mililitro de sangue, a cocaína é considerada potencialmente letal. Dos 88 casos analisados, 17 estavam na faixa de 0,7 a 1 µg/ml — o valor verificado em uma overdose clássica é de 0,9.  A maioria — 68,1% do total — apresentou concentração entre 1 e 5 µg/ml.

Os 11 casos em que foram encontradas concentrações superiores a 5 µg/ml mereceram atenção especial da biomédica. Um deles envolveu o que, no jargão do tráfico, é chamado de “mula” — pessoa contratada para transportar a droga dentro do próprio corpo.

— Ela ingere a cápsula que, muitas vezes, rompe [o que geralmente provoca intoxicação aguda]. Foi achada com uma quantidade de cocaína muito absurda [no organismo].

Uma parcela das mortes aconteceu dentro de unidades prisionais do Estado, segundo constatou o trabalho, sendo que dois internos vitimados teriam sido obrigados a ingerir uma mistura apelidada de “Gatorade” — ela contém diferentes drogas, incluindo a cocaína. Ainda conforme o trabalho, “há relatos de que organizações criminosas inseridas nos presídios se utilizariam desse subterfúgio para provocar a morte simulando uma overdose”.

— A cocaína em qualquer via de administração, oral ou intravenosa, é tóxica. Não precisa de uma quantidade de 0,7 micrograma por mililitro de sangue para ela ser tóxica por via oral. Só não morre em uma situação dessa se a quantidade da droga for muito baixa.

De acordo com Alessandra, uma das conclusões do estudo, que teve como um dos orientadores o perito criminal Julio Ponce, é de que a morte por overdose do entorpecente é um problema tanto de saúde quanto de segurança públicas. O trabalho destaca a necessidade de políticas voltadas para o grupo em que há mais registros de óbitos.

R7

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