Clássico indispensável dos anos 80, ‘Você não soube me amar’ ganha documentário

Publicado em segunda-feira, Maio 7, 2012 ·

Filme de 15 minutos mostra desde a composição da música até seu sucesso estrondoso (Foto: Dilvulgação)

No verão de 1982, uma canção era escutada em praticamente todos os cantos do país – “Você Não Soube Me Amar”, composta por Evandro Mesquita, Ricardo Barreto, Guto Barros e Zeca Mendigo. A história de um romance juvenil, com ares de história em quadrinhos, com mistura de pop rock com samba de breque foi incluída no primeiro LP da banda carioca Blitz, e o resultado foi a venda de milhares de cópias. Afinal, envolvendo muito chope, batata frita e um bate-papo do vocalista, Evandro, com as backing vocals, Fernanda Abreu e Márcia Bulcão, ela fazia sucesso tanto na recém-criada rádio roqueira de Niterói (RJ), Fluminense FM, e na lona mais animada do Rio de Janeiro, Circo Voador, como no programa de auditório comandado por Chacrinha nas tardes de sábado da TV Globo.

Trinta anos depois, Leonardo Souza dirige e Daniel Accioly produz o ótimo documentário em curta-metragem “Mais de três foi o diabo que fez”, que, em 15 minutos, mostra desde a composição da música até o sucesso estrondoso que obteve, abrindo as portas da indústria fonográfica para dezenas de outras jovens bandas roqueiras, como Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Titãs, Ultraje a Rigor, Legião Urbana e Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, entre outras.

O curta tem o depoimento de todos os compositores (sendo que dois deles não se conhecem pessoalmente até hoje), que também relembram o contexto musical e político do início dos anos 1980, quando o Brasil, ainda sob o regime militar, vivia um processo cada vez mais intenso de abertura política. Mesmo com a censura ainda em ação, havia o espaço necessário para que uma nova geração de jovens compositores pudesse passar a se expressar aberta e livremente.

O objetivo é que o filme seja lançado ainda em 2012 e, para isso, Souza e Accioly resolveram aderir a um mecanismo de arrecadação de fundos online, em que os internautas ganham vários brindes relacionados à produção.

Leia entrevista exclusiva com o produtor Daniel Accioly.

Como surgiu a ideia de realizar o documentário “Mais de três foi o diabo que fez”?

A ideia surgiu ainda nos tempos de faculdade. Existia uma vontade muito grande de produzir algo que, de alguma forma, representasse um pouco do que foram os anos 80 para o Brasil. Um período tão representativo para a nossa cultura, política e sociedade merece ser lembrado sempre. E o país foi brindado com uma geração de ouro, com um encontro de poetas e músicos extraordinários. É fácil constatar isso quando presenciamos as grandes bandas daquela época em evidência até hoje, tocando em grandes festivais e sempre com shows lotados. Como fazer um trabalho sobre a década de 1980 ou mesmo sobre o rock desse período seria como reprisar trabalhos já consolidados no mercado, resolvemos procurar algo que representasse o início dessa febre. Achamos em “Você não soube me amar” o verdadeiro start para o movimento. O filme descreve como foi feita a música, mas vai além, passando por questões políticas, culturais e, acima de tudo, explica qual era a linha de pensamento daqueles jovens que não tinham espaço na mídia, mas tinham muita coisa para falar. Para fugir do estereótipo explorado exaustivamente pela mídia, optamos por uma atmosfera mais sóbria, menos colorida, tendo como foco principal a história. O resultado nos surpreendeu bastante.

Depois de realizá-lo, como você avalia a importância da canção “Você Não Soube Me Amar” para o rock brasileiro dos anos 80 e para a música brasileira como um todo?

Antes das gravações, estudamos o período e a história da Blitz. Na teoria, sabíamos que a música tinha sido um estrondo e o efeito que ela tinha causado. Mas foi durante os depoimentos que eu percebi a grandiosidade da obra e os motivos que fizeram dela esse estrondo. Trata-se da melhor obra de cada um dos quatro autores e a forma como a junção das ideias ocorreu foi determinante. Hoje, não tenho dúvidas de que o surgimento dessa canção foi o ingrediente mais relevante dentre todos que possibilitaram que o rock saísse das garagens e ganhasse as rádios, saísse dos grandes centros e pegasse a estrada rumo aos quatro cantos do país. Para a música em geral, a maior contribuição da canção foi revitalizar o cenário musical, ainda muito tenso e temeroso em função do período militar. A ascensão do rock ampliou os horizontes da MPB, e a Blitz com essa música fez com que isso fosse possível.

Quais elementos você acredita que transformaram a canção num sucesso tão grande?

Eu acredito que o elemento primordial para que essa canção tenha se tornado um marco foi a forma despretensiosa com a qual ela foi feita. A música deu certo pelo fato de os autores e da banda quererem se divertir com aquilo, acima de tudo. É claro que é preciso mencionar que a música chegou na hora certa e no lugar certo. Mas acho que o mais fascinante é que ela é uma grande música de rock. Ela tem uma letra cabeça, tem um riff certeiro, uma batida contagiante e um refrão arrebatador. Em virtude do trabalho, eu acabo ouvindo a música pelo menos uma vez por dia. É inevitável sentir um frio na barriga sempre. E muita gente nos relata que sente o mesmo. É uma montanha-russa em forma de música.

Por que vocês resolveram pedir para os próprios internautas que invistam no documentário para que ele seja lançado ainda este ano? A ideia é lançá-lo nas salas de cinema comerciais?

O documentário despertou grande interesse da mídia e do público, mas em função de algumas exigências contratuais, não poderíamos recorrer a editais. Conversamos desde o início com potenciais investidores, mas não chegamos a fechar com nenhum naquele momento. Recorremos ao financiamento coletivo em função da necessidade de colocarmos o filme no mercado. Apesar de muita mobilização e do compartilhamento espontâneo de centenas de pessoas, não obtivemos o sucesso esperado na empreitada.

Porém, nesse meio tempo, fomos procurados por potenciais parceiros, o que acabou gerando uma perspectiva animadora e a certeza do lançamento. O documentário sai ainda nesse primeiro semestre. Ele já está montado e agora é questão de detalhes. O projeto não foi concebido para o circuito comercial, mas sim para o circuito de festivais. Além disso, estamos trabalhando para ele ser veiculado em outras mídias e, assim, chegar ao conhecimento do grande público.

Optamos pelo formato de curta metragem, com 15 minutos de duração, que é um formato que nos permite participar da maior parte dos festivais, além de possibilitar a sua eventual adaptação para a televisão. Ainda não disponibilizamos o trabalho para nenhuma mídia, mas é uma das nossas prioridades colocá-lo na internet, mesmo que seja apenas no final do projeto. Devemos todo o retorno do trabalho à internet, e acreditamos nela como a mídia mais eficaz para o trabalho ser conhecido e reconhecido.

Por que ele deve ser lançado em 2012 e até agora quanto vocês já arrecadaram e como quem tiver interesse pode contribuir? O contribuinte se transforma numa espécie de sócio do filme ou ganha alguns brindes?

O ano de 2012 é especial em função do aniversário de 30 anos do lançamento do primeiro disco da Blitz. A data foi planejada pela equipe em função de uma conversa com a Marcia Bulcão, componente da formação considerada clássica da banda e que colaborou muito com o projeto. Sabemos que durante o ano, outras produções aparecerão no mercado, com porte maior, mas dificilmente com um foco tão original quanto o nosso.

Sobre o crowdfunding, elaboramos uma lista de recompensas de acordo com o valor doado por cada pessoa. Mas a iniciativa foi um tiro no escuro. Arriscamos em função do feedback positivo gerado pelo trabalho, mas mesmo não tendo o retorno financeiro direto, enxergamos que a exposição gerada pela tentativa foi positiva. Como o nosso projeto no site de financiamento coletivo encerrou, não estamos mais abertos a contribuições de pessoas físicas, mas estamos à disposição de empresas que desejarem conversar sobre participação.

guibryan1@redebrasilatual.com.br

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