Catolé do padre e do frade

Publicado em sábado, agosto 17, 2013 ·

 

artigoramalhoAcompanhei por alguns anos a vida de Catolé, bem instalado na minha cadeira de deputado, ouvindo os debates entre o padre Américo Maia e Frei Marcelino de Santana, do mesmo credo religioso  mas de pensamentos políticos antagônicos. O padre era da tradicional família Maia, cujo poderio econômico e político se mantinha  há mais de quarenta anos.Eis que chega a Catolé, “um  fradezinho despretensioso” a quem não deram importância. Virou notícia quando juntou-se aos “moleques-de-rua” e, de batina e tudo, foi jogar futebol e pegou um pênalti. Demoraria muito a fazer o seu primeiro gol.

Tinha simpatia pela luta do Frei, apesar de correligionário e colega de partido do Padre. É que a peleja daquele se assemelhava à minha, ele no sertão e eu no brejo.Não é fácil enfrentar uma estrutura de poder alicerçada por fortes vigas, principalmente,  em uma época em que as liberdades eram controladas por patentes e galões. A luta do Frei lhe deu poder e voto, e as oposições de Catolé se fizeram ouvir na Casa de Epitácio Pessoa.

Rememorei essa disputa sadia entre o Padre e o Frade pelo melhor para Catolé, no ultimo sábado, quando uma elite intelectual vinculada àquela cidade, nascidos ali ou agregados, publicaram Catolé do Rocha em Muitas Lentes, uma coletânea de textos sobre a evolução econômica, política e cultural da cidade banhada pelo rio Agon, “cansado de caminhar” e  “narrando seu destino, seu penar”. Há tempos não assistia a uma festa tão cheia de emoção e de saudade. O prefeito Leomar Maia e o Chico Cezar não sabem o que perderam.

O livro descreve a geografia do município, sua história desde os índios Pegas, da nação Cariri;  seu nome, com o prefixo tupi  Katu ( de Katu’re) que tem o significado de bom e saudável,vem mesmo da palmeira que produz um pequeno fruto, vendido nas feiras como “rosário-de-côco-catolé”, segundo ensina Luiz da Câmara Cascudo, citado por Edna Ribeiro. A que Natercia Suassuna acrescenta:“Catolé, pela abundância da palmeira e do Rocha, em homenagem ao seu fundador” … Francisco da Rocha Oliveira. “Foi o Catolé desse Rocha que mais tarde tomou vida e caráter nuclear, situado que estava na vertente do rio Hiagô, Hiagon, Ogon  ou Agon” esta ultima a que permanece, no dizer de Celso Mariz.

Lembrei acima os meus colegas de parlamento. Mas o que me levou à festa dos catoleenses foi o meu colega da Faculdade de Direito, José Tarcisio Fernandes, um dos autores do livro e que nos brinda com a epopeia de românticos e ousados estudantes sertanejos que pretenderam ensaiar uma guerrilha nas serras de Catolé. Apurados os fatos, se descobriu que na verdade os jovens vanguardistas desejavam mesmo era se isolar do mundo e construir outro, na Serra do Capim Açu,  longe das amarras e violentas repressões em evidência na época. Tudo não passou de uma Colônia de Férias de três estudantes, embora o promotor militar tentasse, em vão, transformar uma caçada em atividade subversiva, já que a arma dos meninos era um livro de Che Guevara…

Notei no livro a ausência do padre  Américo Sergio Maia, do Instituto Histórico e fundador do Instituto de Genealogia e Heráldica através do qual encomendamos a confecção do Brasão da Cidade de João Pessoa, homologados em lei por Dorgival Terceiro Neto e criadas por beneditinos radicados na Bahia.

Voltando a Catolé, está registrado também que sua fama de aguerrida serviu, pelo menos, para afastar de  Lampião a tentação de invadir a cidade. Que a semente da educação plantada pelo Frei, em Catolé, e a sua revolução pela paz, não se perca  no deserto,como parecia o grito  do Monte  Tabor: “ Despertai vós todos os que dormis o sono solto da indiferença e do conformismo . Começa neste instante a Revolução Cultural pela Paz”. O Frei começou pegando um pênalti e terminou fazendo gol.

 

 

 

RAMALHO LEITE

 

 

 

 

 

 

 

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