Brasil-EUA o romance que morreu antes de nascer

Publicado em sábado, Janeiro 4, 2014 ·

KEVIN DIETSCH/EFE
KEVIN DIETSCH/EFE

Foi o ano diplomático menos imaginado. No dia 31 de maio de 2013, quando o vice-presidente norte-americano Joe Biden desembarcou em Brasília para definir a letra pequena dos acordos que seriam firmados durante a cúpula entre Dima Rousseff e Barack Obama, ninguém, possivelmente nem a presidenta, imaginava qual seria o desenlace dessa aproximação com Washington, sem precedentes em 11 anos de governos do Partido dos Trabalhadores.

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“Não há obstáculo que não possa ser superado por nossos países… estamos ansiosos por recebê-la (Dilma) em outubro em Washington” assegurava Joe Biden ao deixar o Palácio do Planalto com seu sorriso invicto.

Não é usual que Dilma receba vice-presidentes em seu gabinete e, se o faz, é para cumprir algum protocolo rápido: o fato de ter concedido 90 minutos de seu tempo ao número dois da Casa Branca alimentou especulações fundamentadas sobre o tamanho dos pactos que estavam sendo gestados. Porta-vozes anônimos do governo, possivelmente alguma fonte militar interessada, deixaram transcender que depois da conversa com o emissário de Obama, a presidenta havia resolvido comprar 36 caças F-18 Super Hornet fabricados pela Boeing, uma das empresas que formam o complexo industrial militar norte-americano, cujo poderio gigantesco cresceu ainda mais depois da declaração de guerra ao terror anunciada em 2001 por George Walker Bush, a partir dos atentados contra as Torres Gêmeas nova-iorquinas.

O sorriso, agora vitorioso, de Joe Biden ao apertar a mão do sempre contido chanceler Antônio Patriota marcavam o momento mais regressivo da política externa brasileira desde 2003, com a virtual queda da posição “altiva” frente à Casa Branca concebida sob o mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, secundado por seu ministro de Relações Exteriores Celso Amorim e o assessor especial Marco Aurélio García, uma troika que se completava com Samuel Pinheiro Guimarães, o “enfant terrible ” do Itarmaraty, a quem coube a tarefa de revisar planos de estudo e sistemas de admissão na inexpugnável estrutura do Serviço Exterior.

Autor de livros seguidamente citados por Hugo Chávez, Pinheiro Guimarães havia sido condenado ao ostracismo pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nos anos 90, como escarmento por ter enunciado a Área de Livre Comércio das Américas.

Dilma, conhecida por suas posições nacionalistas de esquerda, não parecia totalmente convencida com a aproximação abusiva com os Estados Unidos tecida desde 2011 por seu chanceler Antônio Patriota.

A fim de estabelecer comparações, poderíamos situar Patriota nas antípodas de Amorim e Pinheiro Guimarães: diplomático submisso aos poderes estabelecidos no Itamaraty, muito bem relacionado em Washington, onde se desempenhou como embaixador, e um dos brasileiros prediletos da ex-secretária de Estado Hillary Clinton, que costuma chamá-lo de “meu amigo Antônio”. Afeto que é recíproco.

Rousseff costuma se pronunciar através de gestos e com frequência suas feições pareciam de uma mulher obrigada a calçar sapatos dois números menores aos de sua forma cada vez que aparecia em público junto a Patriota, isso especialmente depois da incompetência com que este atuou frente ao golpe que derrubou o ex-presidente paraguaio Fernando Lugo em junho de 2012.

Em rigor, Patriota foi algo assim como o chanceler de uma nota só, a de Washington, a despeito da agenda sul-americana na qual, depois da gafe paraguaia de 2012 se somou o escândalo boliviano de agosto de 2013, dado que a embaixada brasileira em La Paz foi cúmplice de um dos dirigentes opositores acusados de desestabilizar o presidente Evo Morales.

Essa assimetria diplomática a favor dos Estados Unidos era o desejado pelas facções do Palácio Itamaraty (Chancelaria) nostálgicas do mandato de Fernando Henrique Cardoso, que tiveram que suportar com desgosto a heterodoxia e o latino americanismo que imperaram durante os 8 anos de Lula-Amorim-García.

A verdade é que, em agosto de 2013, a política externa de Dilma, seguindo os postulados da velha guarda do Itamaraty, era criticada por baixo no PT enquanto parecia encaminhar-se a um pacto de subordinação relativa com Washington a ser rubricado na visita de Estado à Casa Branca, prevista para o dia 23 de outubro.

Foi então, entre julho e setembro, que se conheceram centenas de documentos obtidos pelo ex-analista da NSA, Edward Snowden, revelando que sob o pretexto de caçar terroristas imaginários, essa agência instalou uma central de operações clandestinas em Brasília de onde foram violadas as comunicações de Dilma e roubados dados, provavelmente sensíveis, da petrolífera estatal Petrobras.

Ofendida pela violação da “soberania nacional” perpetrada pelos Estados Unidos, Rousseff solicitou uma reunião urgente com Obama, na qual este não pode dar as explicações exigidas ao mesmo tempo em que admitiu ser impotente frente o poder da comunidade de informações, prima-irmã do complexo industrial militar.

A fracassada conversa com Obama e, em menor medida, a queda de Patriota, fatos acontecidos no lapso de um mês, certificaram a morte da política externa inaugurada em 2011, e afirmaram o reencontro com várias das teses forjadas desde 2003.

A partir desse corte, inesperado e drástico, Dilma assumiu, em setembro do ano passado, o comando das relações exteriores apresentando uma bateria de movimentos convergentes.

Suspendeu a visita de Estado a Washington apesar dos esforços contrários realizados pelo sorridente Joe Biden e pelo secretário de estado John Kerry, também enviado a Brasília para reparar os danos causados pelo dossiê Snoden.

Propôs e obteve o acordo dos países do Mercosul para elaborar uma estratégia conjunta contra a espionagem eletrônica, iniciativa que posteriormente formulou, com algumas modificações, frente a Assembleia das Nações Unidas que, no mês passado, a aprovou com o apoio maciço dos países emergentes e de várias potências como a Alemanha, apesar das reservas iniciais de Angela Merkel.

Pouco depois de assumir o novo chanceler Luiz Alberto Figueireido, empreendeu uma turnê por vários países na qual qualificou a espionagem norte-americana como “inaceitável” e “violação aos direitos humanos”.

Uma simples análise contra factual autoriza supor que, se Dilma tivesse realizado a tão anunciada visita a Washington, provavelmente as petrolíferas norte-americanas teriam sido fortes candidatas no leilão, do super poço de Libra, com 15 bilhões de barris e os aviões Super Hornet, da Boeing poderiam ter sido escolhidos pela Força Aérea para modernizar sua frota de guerra.

Como se sabe, nenhuma petrolífera estadunidense se inscreveu para disputar o campo de Libra, na licitação vencida em outubro por um consórcio encabeçado pela Petrobras, associada a duas companhias chinesas, uma francesa e uma anglo-holandesa.

E, em dezembro, o agora ministro de Defesa, de carreira Celso Amorim, seguindo instruções do Planalto, finalmente optou por comprar 36 caças-bombardeiros Gripem NG, de fabricação sueca, descartando os norte-americanos F18, que antes do datagate pareciam imbatíveis.

Foram duas medidas de Estado que transcendem o conjuntural, nas quais se materializa uma guinada vantajosa para a autonomia nacional, assim como antipática para grupos hegemônicos das indústrias petrolífera e militar, o que gera ressonâncias nas grandes empresas midiáticas.

Quem repasse a linha editorial da CNN, The Economist ou The Financial Times advertirá como mudou o tratamento dado a Rousseff.

Deixou de ser aquela estadista de 2011 para tornar-se uma presidenta “intervencionista e contrária ao livre jogo das forças do mercado”, um modelo inconveniente para os demais países latino-americanos, aos que se recomenda, desde essas usinas de opinião global, descartar o exemplo do Brasil e seguir o proposto pelo México do presidente Enrique Peña Nieto.

Créditos da foto: Arquivo
cartamaior

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