Troca-troca partidário mostra confusão e alianças inusitadas para 2014

Publicado em segunda-feira, outubro 7, 2013 ·

Bornhausen e Heráclito Fortes, históricos do DEM, agora socialistas como Campos. Paulinho leva para o Solidariedade Arthur Maia e Augusto Coutinho, da bancada empresarial (Montagem com fotos da Agência Brasil e Câmara)
Bornhausen e Heráclito Fortes, históricos do DEM, agora socialistas como Campos. Paulinho leva para o Solidariedade Arthur Maia e Augusto Coutinho, da bancada empresarial (Montagem com fotos da Agência Brasil e Câmara)

Encerrado o prazo para que possam ser feitas mudanças de legenda necessárias por parlamentares diversos em todo o país para as eleições de 2014, o quadro político ainda é confuso, mostra filiações surpreendentes e acertos inusitados. As articulações ficaram ainda mais quentes com o debate sobre para onde iriam migrar os que integrariam a Rede de Sustentabilidade – e que desde a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de proibir o partido da ex-senadora Marina Silva, no último dia 3, de ser formalizado, fizerma intensas reuniões antes de decidir se instalar no interior do PSB.

Segundo analistas e observadores políticos, ainda é difícil dizer quem mais sairá ganhando com os arranjos ou como ficará a base governista num primeiro momento, mas já se sabe que a troca de cadeiras ampliou o poder do PSB e que as migrações reforçaram, também, alianças de partidos que antes não assumiam diretamente o apoio pela reeleição da presidenta Dilma Rousseff, caso do recém criado Partido Republicano da Ordem Social (Pros) e do PSD.

O que tem chamado a atenção nos últimos dias é o caráter totalmente sem critério das filiações e transferências dos parlamentares de um partido para outro. As principais mudanças e filiações estão sendo observadas em relação ao Solidariedade (que embora tenha sido instalado oficialmente na última semana é objeto de um pedido de impugnação por parte do PDT, partido de onde saiu o articulador do Solidariedade, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força), o Pros e o PSB – no caso deste último, depois da decisão de formalizar rompimento com o governo federal.

O Solidariedade, que tem a expectativa de vir a filiar até o ultimo momento aproximadamente 30 deputados, possui três nomes de deputados que costumam ser representantes do empresariado no Congresso. São eles os deputados Laércio Alves (SE), que era do PR, Arthur Maia (BA), saído do PMDB, e Augusto Coutinho (PE), originário do DEM. Laércio Alves é integrante da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Arthur Maia é o relator do projeto referente a terceirização, que é fortemente combatido pela entidades de trabalhadores, e Augusto Coutinho também integra a bancada empresarial.

Setor produtivo

“Os princípios do programa do Solidariedade falam de uma participação de centro-esquerda para defesa do direito dos trabalhadores, aposentados e também setores produtivos. Achamos, portanto, que é possível fazer essa ligação, até porque existem matérias no Congresso que podem reunir  interesses entre esses setores, como regras para importação e a reforma tributária. Para garantir boas condições para os trabalhadores é importante fortalecer os setores produtivos também”, afirmou Paulinho, ao tentar justificar o motivo da junção de forças tão contraditórias numa mesma legenda.

Apesar disso, informações de bastidores dão conta que, no caso de Arthur Maia, a ida do parlamentar para o Solidariedade causou tensão entre os integrantes do partido, uma vez que a apreciação do projeto referente à terceirização tem gerado grandes embates. A entrada de Maia teria sido negociada em função das coligações que unem o deputado em Pernambuco e depois de telefonemas feitos por vários líderes políticos para o presidente do partido. Mas ficou decidido que o assunto será melhor discutido e o Solidariedade poderá, inclusive, vir a fechar questão em relação a vários pontos do projeto.

Saindo do Solidariedade, outro balcão de mudanças com muitas nuances pode ser visto no Pros – que absorverá parte dos políticos do PSB. O Pros terá como nomes de peso os irmãos Ciro e Cid Ferreira Gomes, do Ceará, e muitos dos integrantes do seu grupo político (só não migraram todos, como preferiam os Gomes, porque após avaliação em Fortaleza (CE) ficou constatado que existiam complicadores para as alianças nas próximas eleições caso uma parte do grupo não fosse para o PDT – motivo pelo qual eles se dividiram nas duas legendas.

Mas, criado a partir de lideranças pouco conhecidas, no interior de Goiás, o novo partido tem início com parlamentares que possuem tradição em mudar de sigla nas vésperas das eleições. A maior parte dos deputados fez uma média de quatro trocas de partido ao longo da vida pública. O campeão, entretanto, é o deputado federal Maurício Trindade (BA), que parte para sua sétima legenda.

“A questão que pesa são os arranjos partidários locais. Estamos no fim do prazo de filiação e na Bahia nós hoje temos dois grupos políticos: o do governo estadual e a oposição, comandada pelo prefeito ACM Neto. Eu era do PR, da base do governador, e agora sou secretário da gestão de ACM Neto. Ficaria incompatível continuar no PR”, afirmou  Trindade, deixando claro a forma como funcionam, na maior parte das vezes, as vinculações dos políticos com os partidos, no país.

Novo pacto

O PSB, por sua vez, arrasta a cada dia que passa mais nomes que se destacaram como lideranças conservadoras, pertencentes ao partido Democrata e que, antes, foram do PFL e da antiga Arena. Um dos nomes é o ex-governador de Pernambuco e ex-ministro do Interior no Governo Sarney Joaquim Francisco. Mas as alianças mais inusitadas articuladas pelo neto de Miguel Arraes – o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos – são observadas em todo o país. No Piauí, os adversários do ex-senador Heráclito Fortes (ex-DEM) brincam que ele “dormiu democrata e acordou socialista”.

Em Santa Catarina, pai e filho Jorge e Paulo Bornhausen, também migraram do DEM para a sigla, em meio às críticas de que o PSB estaria mudando sua tradição histórica de esquerda e fazendo aflorar um caráter mais fisiologista com o intuito de juntar forças para a candidatura.

O tema, que já gerou irritações em Campos e, segundo integrantes do PSB, foi um dos motivos que levaram o partido a romper com o governo – os socialistas acusam o Palácio do Planalto de ter divulgado a versão de que o partido estaria mudando o seu viés de esquerda – é alvo do argumento de que o partido estaria adotando uma nova visão sobre o “pacto político que a sociedade espera”, nas palavras do líder da legenda na Câmara, deputado Beto Albuquerque (RS).

“O Brasil exige o fim da política do ‘nós e eles’ e não vejo problema que se tenha pessoas dentro de um partido político com ideias divergentes. Não vejo isso como dificuldade, até porque se trata do novo pacto político que o país precisa. O importante é que temos clareza quanto aos nossos princípios básicos”, justificou Albuquerque.

O deputado Paulo Bornhausen, filho de um dos caciques históricos do Democratas, diz que tomou a decisão de virar socialista quando sentiu que o partido ao qual pertencia, o PSD, estava dando sinais de que iria apoiar a presidenta Dilma Roussef. “Tomei a decisão (de se transferir para o PSB) quando senti isso (o apoio à reeleição de Dilma). É complicado. Fui líder de oposição na Câmara, meu pai foi perseguido pelo PT. O eleitor que votou em mim não é bobo. Minha postura, ao contrário de ser contestada, é muito mais uma questão moral, ética, de postura”, explicou.

Wellington Dias
“Hoje criar uma legenda é o mesmo que criar uma micro ou pequena empresa. São raros os que possuem algum fundo de ideologia”
Senador Wellington Dias (PT-PI). Foto: Benonias Cardoso/RBA

O piauiense Heráclito Fortes, chegou a ironizar para jornalistas, ao comentar sua mudança de partido: “Deixei meu DEM no último pau de arara”. Sua formalização no PSB foi homologada no início da semana e ele deixou claro que o principal objetivo da mudança foi ter condições de disputar uma vaga ao Congresso nas próximas eleições. Segundo ressaltou, as eleições de 2014 “vão exigir um altíssimo coeficiente eleitoral do DEM, em Sergipe” e, frisou, a iniciativa “faz parte do jogo”.

Apesar disso, o líder socialista Beto Albuquerque contesta que possam vir a ser observadas muitas divergências com um colegiado de ideologias políticas tão distintas em cada estado. “Com a saída de Ciro e Cid Gomes, o PSB perdeu seis parlamentares nos últimos dias, mas acho bom que isso aconteça, que tenham saído. Também trouxemos novos nomes e o que queremos, agora, é que a legenda caminhe unida em torno da candidatura própria à presidência”, acentuou, embora entre os deputados da base aliada do governo na Câmara, seja difícil acreditar que, quanto ao debate de ideias, a unidade floresça.

‘Partidos como empresas’

Ingredientes mais picantes ainda podem ser incluídos na fervura com a decisão da dos políticos que iriam para a Rede de abrigar-se no PSB. “A base do PSB no Maranhão é muito parecida com a do PT”, afirmou o ex-petista Domingos Dutra, que estaria na Rede e anunciou um dia antes de Marina Silva sua ida ao PSB. O grande problema do deputado, em especial, é o fato de, no seu estado, o PT apoiar os Sarney, grupo político que sempre combateu.  “O meu problema com o PT é local. Não posso culpar o partido, mas não tenho mais condições de ficar entre os petistas”, ressaltou.

O troca-troca observado nos últimos dias foi considerado “desastroso para o país” pelo líder do PT no Senado, Wellington Dias (PI). “Hoje partidos são pessoas jurídicas. Criar uma legenda é o mesmo que criar uma micro ou pequena empresa. São raros os que possuem algum fundo de ideologia. E, o pior, infelizmente é que ainda é difícil o povo entender isso, mas a culpa é do modelo político eleitoral ruim que temos. É por isso que precisamos intensificar os esforços para a realização, logo, de uma reforma política e eleitoral que seja abrangente”, defende o senador.

Há, ainda, filiações isoladas que têm chamado a atenção da mídia nos últimos dias, como a do PSD, que fecha com o PSB em vários estados mas diz que manterá o apoio à reeleição da Dilma em 2014 – o que está sendo olhado com cuidado e cautela pela base aliada. Para o cientista político David Fleysher, da Universidade de Brasília (UnB), o grande problema é que o político brasileiro tem no seu DNA a troca de partidos e isso, embora sempre surpreenda, é comum desde as décadas de 40 e 50.

“Foram grandes, ao longo desse período, as trocas de partido por parlamentares de reconhecida expressividade no país. Até que as regras em vigor sejam alteradas, a situação não será diferente nas próximas nem nas demais eleições”, frisou.

 

 

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