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Negras e Negros marcham unificados pela Democracia e Contra o Racismo

Nesta terça-feira (19), João Pessoa recebe a ‘Marcha da Negritude Unificada da Paraíba pela Democracia e Contra o Racismo’. O ato de resistência político-cultural é apartidário e faz parte de iniciativas promovidas por ativistas de diversos movimentos sociais que atuam contra o racismo, por igualdade e equidade de gênero, etnicorracial, geracional. A marcha acontece a partir das 14h, em frente ao Theatro Santa Roza, no centro da capital.

O evento é alusivo ao Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, instituído pela lei nº 12.519/2011, em referência à morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares em Alagoas em 1695.

Além de denunciar o racismo estrutural, institucional e casos de intolerância, o ato ‘Marcha da Negritude Unificada da Paraíba pela Democracia e Contra o Racismo’, vai conclamar autoridades e a sociedade sobre a realidade da população negra.

Vidas Perdidas

Segundo dados do Sistema de informações sobre Mortalidade (SIM/MS) e do Censo Demográfico do IBGE, de 2010, enquanto a taxa de homicídios de negros no Brasil é de 36 mortes por 100 mil negros, a mesma medida para os “não negros” é de 15,2.

Consideradas todas as violências letais: homicídios, suicídios e acidentes, os homens negros apresentam a maior perda de expectativa de vida 3,5 anos de vida, contra 2,57 de outra cor/raça. Alagoas é o estado com maior perda de expectativa de vida (6,2 anos), seguido pelo Espírito Santo (5,2 anos) e Paraíba (4,8 anos).

Mais de 39 mil pessoas negras são assassinadas todos os anos no Brasil, contra 16 mil de outras “raças”. Para além da extinção física, há milhares de mortes simbólicas por trás das perdas de oportunidades e de crescimento pessoal que muitos indivíduos sofrem, apenas pela sua cor de pele. São vidas perdidas em face do racismo no Brasil.

O racismo se manifesta das mais diversas formas no Brasil: está na falta de representatividade de homens e mulheres negras nos espaços públicos, nos guetos de exclusão e pobreza, mas também no imenso número de assassinatos que ocorrem todos os anos. O Mapa da Violência mostra que enquanto o homicídio de mulheres negras experimentou um crescimento de 54,2% entre 2003 e 2013, no mesmo período, o homicídio de mulheres brancas caiu 9,8%. Não bastasse a violência contra si, a mulher negra também experimenta com maior intensidade a violência contra seus filhos, irmãos e companheiros. De acordo com o Mapa da Violência de 2012, dos cerca de 30 mil jovens entre 15 e 29 anos assassinados por ano no Brasil, 93% são homens e 77% são negros.

Mais do que visibilizar a vulnerabilidade das mulheres negras, com generosidade e solidariedade, elas se levantam diariamente e lutam para que outras mulheres não passem por suas dores e dificuldades; a liderança na busca por justiça por filhos desaparecidos e assassinados pela violência, inclusive da polícia. Mulheres do campo, quilombolas, ribeirinhas, indígenas e muitas outras – o grito pelo acesso à terra. Das jovens estudantes a cobrança crescente pela qualidade à educação. Pelo direito a decidir pelo próprio corpo, pela descriminalização do aborto.

Somente conseguiremos erradicar o racismo, com políticas de Estado, efetivação de políticas de reparação e eficiente e eficazes. Reconhecer que sem as mulheres negras e seu pensar ativo não teremos o pleno exercício de nossos direitos. Ser mulher negra é enfrentar a dor, enfrentar a luta cotidiana, sobreviver e seguir mais adiante. A dor não vai passar, mas a mulher negra se levanta generosamente para lutar de forma que outras não experimentem o que ela viveu.

Programação

A concentração terá início às 14h, em frente ao Teatro Santa Roza, na Praça Pedro Américo s/nº, centro da capital, às 16 horas, a Marcha dá início, encerrando no Parque Sólon de Lucena (próximo ao prédio da Esplanada), no palco haverá falas dos movimentos sociais organizadores e apresentações de artistas e grupos da cultura negra, afro-brasileira e periféricas: Tambores de lua, Escurinho, Vó Mera e suas Netinhas, Glaucia Lima (a confirmar), Jany Santos e Zé Reinaldo (Coloral), Nivaldo Pires (Hip Hop), Samba Raiz, Batalha Hip Hop Coqueiral, Slam Paraíba, Preto-A entre outras atrações.

Assessoria

 

 

Ministério da Educação diz não ter dados unificados sobre violência escolar

escolaQuando o assunto é a violência dentro das salas de aula, não parece haver consenso sobre suas principais causas.

Professores, diretores de escolas, alunos e especialistas em educação ouvidos pela reportagem da BBC Brasil apontam para direções diversas, sugerindo que agressões contra educadores seriam fruto do histórico familiar dos alunos, da falta de políticas públicas e policiamento e também de professores mal preparados — e até mesmo agressivos.

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A violência em sala de aula contra professores foi um dos temas destacados por internautas em posts de Facebook e no Twitter como um dos que deveria receber mais atenção por parte dos candidatos presidenciais, em uma consulta promovida pelo #salasocial, o projeto da BBC Brasil que usa as redes sociais como fonte de histórias originais.

Enquanto ninguém fala a mesma língua, o MEC (Ministério da Educação) diz não ter dados unificados sobre a violência escolar.

Confrontado pela reportagem, porém, o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão ligado ao ministério, reconheceu que o tema faz parte da Prova Brasil — avaliação nacional com respostas voluntárias de professores, alunos e diretores. Os últimos dados, de 2011, foram tabulados a pedido da BBC Brasil.

Os resultados apontam que um terço dos professores que responderam ao teste disse ter sido agredido verbalmente por alunos. Um em cada dez afirmou ter sofrido ameaças. Aproximadamente um a cada 50 apanhou de estudantes.

“É simplista culpar crianças e adolescentes por tudo o que acontece”, alerta a socióloga Miriam Abramovay, pesquisadora do tema com passagens pela Unesco, Banco Mundial e Unicef.

“A escola tem culpa, porque se isola das comunidades e não se atualiza. E os professores têm péssima formação, simplesmente não conseguem, e muitas vezes nem tentam, conquistar os alunos”, diz. “No fim, todos são vítimas.”

Descompasso

Para pesquisadora, a desvalorização do ensino resumiria este descompasso. “A estrutura das escolas parou no século 19, os professores dão aulas como no século 20 e os alunos, sempre conectados, vivem no século 21”, diz.

Ela diz que as escolas vivem um “processo de abertura” há 50 anos.

“Se antes havia pouco espaço para as classes populares, hoje a escola se massificou. Todos entram – nem sempre continuam, mas entram. Mas a relação professor–aluno não mudou nada nesse meio tempo e os educadores não sabem lidar com esse novo interlocutor, que antes estava na rua, do lado de fora”, diz.

Abramovay diz que a violência não é consequência direta do entorno. “Há escolas em bairros tremendamente violentos que têm resultados satisfatórios. E colégios particulares, ricos, com problemas enormes”, observa.

A pesquisadora aponta o trabalho participativo, envolvendo pais e alunos na construção de regras e do currículo escolar, como caminho para reduzir a resistência e a agressividade.

“Os muros das escolas não são simbólicos”, afirma. “Eles são reais, ninguém penetra ali. Assim, a escola não é nem protegida, nem protetora”, diz.

O educador Jorge Werthein, presidente da Unesco no Brasil entre 1996 e 2005, também diz que a escola “precisa ser acolhedora” e critica a formação dos colegas.

“Diferente do médico, que faz residência, a maioria dos professores que se forma não tem nenhuma experiência em sala. Só pisam lá no primeiro dia, encontram coisas que nunca viveram e não sabem lidar”, diz.

Para Wherthein, os educadores precisam se dar conta “da violência que eles próprios exercem sobre os alunos”.

“Perseguição, homofobia e exageros nas repreensões” seriam exemplos. “Outra agressão simbólica é o abismo tecnológico que existe entre professores e alunos”, diz.

Celular

Com um olho no smartphone e outro no repórter, os alunos entrevistados parecem concordar com a avaliação.

“Parece que eles vivem fora do tempo. O professor pede para a gente copiar a lição do quadro, mas eu podia tirar uma foto com o celular e prestar atenção no que ele diz”, reclamou uma estudante da 8º ano de uma escola em Diadema, ao sul de São Paulo.

A seu lado, espinhas no rosto e sorriso tímido, um adolescente do ensino médio completa. “Sei que celular pode atrapalhar. Não é para usar Facebook e Whatsapp na aula. Mas quando ajuda, por que não, né?”, questiona.

Eles reconhecem que as agressões são constantes.

“Na semana passada a professora chamou a atenção de um aluno bagunceiro e ele perguntou se ela não tinha medo de morrer. Ela deu risada e continuou passando a lição”, contou uma estudante do 1º ano do ensino médio.

“Tem brigas combinadas também. Os alunos fingem estar dando porrada para o professor vir separar e apanhar também”, completou.

Professores ouvidos pela reportagem disseram que a escola, hoje, seria “um espaço de conflito”.

“Os professores não são santos que caíram do céu e vêm educar com toda a candura. Sempre que passo pelo pátio me chamam de vagabunda. O educador tenta legitimar a sua autoridade, não consegue, e aí revida”, disse uma ex-professora da rede pública, que não quis se identificar.

Eleições

Para Wherthein, é uma tradição que a violência contra professores e alunos não faça parte da agenda dos principais candidatos a cargos políticos.

“A agenda da educação é genérica. ‘A educação é importante’… ‘Vamos aumentar os investimentos e a carga horária’… ‘País bom é país educado’. Nunca nada é objetivo”, critica.

O pesquisador afirma que o cotidiano das escolas, ponto crucial na discussão, passa à margem do discurso político.

“Educação e segurança estão sempre no topo das preocupações do eleitorado. Mas os candidatos não entenderam que há cruzamento entre estes temas. Num país como o Brasil, com taxas de morte tão altas (somos um país sem guerra), os conflitos são resolvidos sempre de forma violenta. Dentro da escola inclusive. Então a violência na escola não é algo que vem só da vizinhança, das famílias, é algo que faz parte da nossa sociedade e aparece em todos os setores”, diz.

Wherthein diz que uma “nova cultura da solução não-violenta de conflitos” deve ser construída dentro das escolas.

 

“O caminho não é, portanto, aumentar os mecanismos de repressão, mas aumentar a prevenção por meio da educação e da disseminação de uma cultura pacífica. Escolas e universidades têm que discutir violência! Só assim se transforma as coisas – e essa responsabilidade está nas mãos dos candidatos”, afirma.

BBC Brasil