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Família luta contra preconceito aos soropositivos e mãe carrega culpa pelo HIV

Carol (mãe, 35 anos), Mateus (pai, 38 anos), Paulo (filho, 10 anos), Bernadete (filha, 14 anos) e Carla (filha, 4 anos) é uma família típica do interior da Paraíba. O pai trabalha com gado. A mãe é  empregada doméstica. E os filhos costumam brincar, estudar e ajudá-los no dia-dia. Em 2009, porém, um fato mudaria completamente a vida dessa família simples, que mora na zona rural do município de Patos (na região do Sertão paraibano, a 294 quilômetros de João Pessoa). Um teste de sangue confirmou Carol como soropositiva. Ela portava o vírus da Aids.

Carol (assim como todo os outros dados à essa família, é um nome fictício) mora na zona rural e descobriu por acaso a doença. Ela estava no final da gestação da última filha, Carla, quando uma ginecologista solicitou-lhe um exame de HIV (vírus da imunodeficiência humana).

“Se eu tivesse pensado antes teria evitado muita coisa ruim com minha família. Hoje, eu faria qualquer coisa para voltar ao tempo. Tenho vergonha de estar com meu marido, do que fiz para os meus filhos. Vê-los sofrendo me corta o coração”, disse Carol.

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O medo dos filhos e o marido estarem contaminados mudou a sua vida. Paulo, de 10 anos, é o filho do meio de Carol. Uma criança alegre e comunicativa que sonha em ser jogador profissional. Ele não esconde sua preferência pelo Flamengo (time do coração). Recentemente, também descobriu que estava contaminado pelo vírus da Aids. Ele foi infectado na gestação.

A descoberta só foi possível após Paulo ter uma forte crise de tuberculose e pneumonia. Agora todos os dias, na hora marcada, Paulo tem que tomar um coquetel com quatro tipos de remédios (antiretrovirais) para manter o corpo protegido. Ele ainda não tem noção sobre a gravidade da doença e brinca como uma criança normal.

Filhos da AidsFoto: Paulo (nome fictício) em uma das atividades da Ong
Créditos: Reprodução/Portal Correio

“Tenho um sonho de ser jogador de futebol. Quero brilhar como os jogadores do Flamengo. Tomo estes remédios para ficar igual aos jogadores (história contada pela mãe para forçá-lo tomar o coquetel). Eu até já me acostumei com eles. Não quero ficar mais doente”, revelou o menino.

Esta semana a filha mais nova, Carla, de apenas 4 anos fará um teste para saber se também foi contaminada no período da gravidez da mãe. Já a filha de 14 anos (Bernadete), grávida do primeiro filho, está com medo de fazer o teste de sangue.

Mateus, marido de Carla, culpa a mulher por toda essa situação familiar. Ele também foi contaminado pelo HIV. Quando se descobre a doença, uma crise se instala no casal, é inevitável, segundo os psicólogos. “Quando um casal descobre que tem o vírus, o normal é começar culpar o outro pelo acontecimento. Isto gera uma crise entre os casais que, em sua maioria, acabam se separando”, relatou a psicóloga Juliana Rodrigues.

Esta família é apenas uma das muitas que se infectam com o vírus HIV todos os dias na Paraíba. Segundo Hospital Clementino Fraga (referência no tratamento da doença na Paraíba), no ano passado, foram registrados sete casos de crianças e adolescentes com Aids. As notificações entre paraibanos com idades de 0 a 4 anos saltaram de dois, em 2011, para 7, em 2012. Este ano, já são três registros. No entanto, os números podem não refletir a realidade, visto que ainda há casos de subnotificação, principalmente no interior da Paraíba.

Há algum tempo só nas grandes cidades da Paraíba era possível realizar o teste e isso impedia o controle da doença. Hoje a Paraíba trabalha com a política da descentralização da testagem do HIV. “Entendemos que o teste de HIV tem que ser realizado no município que a pessoa mora para facilitar o tratamento da doença. Temos testes em quase todas as cidades da Paraíba”, disse Roberto Maia, Coordenador do Centro de Testagem e Aconselhamento DST/Aids.

Vitor Buriti é fundador e presidente da ONG Missão Nova Esperança (cuida de crianças soropositivas) disse que, atualmente, as crianças vivem mais tempo e com qualidade de vida. Há na ONG crianças que nasceram com a doença e hoje já tiveram filhos que, provavelmente, não foram contaminados na gestão. “Hoje os coquetéis ajudam a melhorar a qualidade de vida dos pacientes. As crianças quando seguem o tratamento completo vivem uma vida normal e com muita saúde”, explicou Vitor.

Vitor Buriti - presidente da ong Missão Nova EsperançaFoto: Vitor Buriti – presidente da ong Missão Nova Esperança
Créditos: Portal Correio

É o caso de Maria (nome fictício). Soropositiva, ela deu a luz à Fernanda (nome fictício) em 1995. A criança foi infectada pelo vírus da Aids através de transmissão vertical –  uma infecção ou doença a partir da mãe para o seu feto no útero ou recém-nascido durante o parto. Há três meses, Fernanda teve seu primeiro filho.

A doutora Maria Benalva de Medeiros, infectologista do Hospital Clementino, chama este caso de ‘Netos da Aids’. “Hoje o tratamento da Aids tem avançado muito. Podemos dizer que temos até netos da Aids. E se Deus quiser o neto não será contaminado. Mas ainda temos que esperar dois anos para descartar totalmente a doença (são necessários, no mínimo, dois anos para se criar o sistema imunológico da criança)”, disse a doutora Benalva.

O Serviço de Assistência Especializada Materno Infantil do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HU) é referência no tratamento nacional de gestantes com Aids. Graças, ao trabalho do médico obstetra Otávio Soares, que desde 2002 implantou metas de qualidade, a unidade conseguiu índice zero de infecções maternas entre as mulheres atendidas no HU. Ele recebe mensalmente cerca de 100 mulheres HIV positivo, entre gestantes e não gestantes, além de realizar o acompanhamento de 400 crianças de até 13 anos que tem o vírus. “Em 1997 chegou até mim o primeiro caso de gestante com HIV. A partir daí montei um projeto que começou a usar o AZT (um dos primeiros tipos de remédios anti Aids) em 45 gestantes. Conseguimos negativar (não transmitir) o vírus em 43 dessas mães”, explicou o médico Otávio Soares.

Aids

O vírus da Aids apareceu primeiro na África no começo do século 20 e se transformou em um problema de saúde global na década de 1980. Nos primeiros anos da epidemia, não havia tratamento. O vírus matou mais de 25 milhões de pessoas nas últimas três décadas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A partir da metade da década de 1990 surgiram as terapias com antiretrovirais, e o impacto que tiveram no número de mortes por Aids foi dramático.

 

 

Priscila Andrade

Preconceito isola crianças com doenças sem cura

A dermatologista Régia Patriota uniu duas paixões para brigar contra o preconceito. Misturou fotografia à medicina e o resultado é a mostra “Além da Pele”, exposição que abre ao público nesta quinta (21) na Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina, em São Paulo, e se encerra em 29 de maio.

Divulgação

Um dos retratos feito pela médica e fotógrafa Régia Patriota para alertar sobre o preconceito com as doenças de pele: na foto, uma criança com psoríase

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Os 16 retratos de pacientes infantis, portadores de doenças de pele sem cura, têm como objetivo dar o pontapé em uma campanha nacional para acabar com o isolamento social imposto a estes meninos e meninas.

Divulgação

Em exposição, médica mostra pacientes infantis com doença de pele sem cura para brigar contra o preconceito. Na imagem,uma garota albina

“São crianças vivem presas em casa por causa do preconceito”, lamenta Régia.

“Tudo por causa dos problemas de pele hereditários, sem cura, mas nada contagiosos. Ainda assim, a sociedade rejeita, por desconhecer por tratar-se de um assunto escondido e pouco explorado. Ninguém chega perto.”

 

Em entrevista ao iG , Régia afirmou acreditar que suas fotos – feitas inicialmente para o trabalho de conclusão do curso de fotografia na Escola Panamericana – podem desmitificar os tabus que cercam albinismo, psioríase, dermatite atópica, epidermólise bolhosa e ictiose, entre outros problemas de pele.

“Conheci as famílias destes garotos, que são extremamente amorosas.”

 

Em close, Régia tenta flagrar o que é invisível aos olhos. “Meninos e meninas carinhosos que não são tocados na escola, no ônibus, no supermercado”.

 

 

iG

Preconceito tem impacto na saúde da população, diz especialista

Casos de discriminação são facilmente identificados por quem é alvo de piadas, chacotas, olhares atravessados ou tratamentos diferenciados. Mensurar os impactos que esses episódios trazem à saúde das pessoas, entretanto, ainda não é comum no Brasil. Para o professor João Luiz Bastos, do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), estratégias difundidas internacionalmente podem ajudar o país a entender como a discriminação pode estar associada, por exemplo, ao aumento da ocorrência de casos de depressão, ansiedade e hipertensão.

“A literatura internacional aponta uma forte relação entre quadros de alteração na saúde com o fenômeno da discriminação. É importante que, no Brasil, também sejam desenvolvidos estudos que identifiquem esse impacto, levando-se em conta nossas formas de sociabilidade e de tratar as pessoas em diferentes instâncias, para ver se aqui também essas relações se confirmam e de que forma elas se confirmam”, defendeu Bastos, que é autor do livro Discriminação e Saúde: Perspectivas e Métodos, lançado em novembro pela Editora Fiocruz.

Entre as metodologias que podem ser utilizadas por pesquisadores brasileiros, citadas na obra produzida em parceria com o professor Eduardo Faerstein, do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), está a conhecida como auditagem.

Por meio dela, são selecionados pares de pacientes com características semelhantes, exceto o aspecto que caracteriza a discriminação que se pretende investigar. Eles se apresentam em um serviço de saúde com os mesmos tipos de roupa e formas de comunicação e solicitam o mesmo tratamento.

“Se houver tratamento diferenciado, com encaminhamentos diferentes, poderá ser detectada a discriminação e o prejuízo para o tratamento de determinada patologia”, disse.

Segundo João Luiz Bastos, estudos que identifiquem e quantifiquem essas circunstâncias são fundamentais para reduzir a falta de equidade na saúde, “que podem estar nas relações entre profissionais de saúde e pacientes, na prescrição de tratamentos medicamentosos ou de outros procedimentos cirúrgicos e terapêuticos, assim como na própria satisfação dos usuários com o atendimento prestado”.

O professor da UFSC também citou a aplicação de “grandes inquéritos” que incluam perguntas sobre experiências discriminatórias e sobre o desenvolvimento de problemas de saúde. “Dessa forma, pode-se avaliar os dados e examinar a relação entre as experiências vividas e a ocorrência de agravos à saúde”, explicou.

O professor destacou o caráter inovador do tema, ressaltando que somente durante a década de 1990 a discriminação passou a ser encarada como um fenômeno complexo, nem sempre identificado. Ele lembrou que, antes de 1920, a discriminação racial, por exemplo, sequer era entendida como um problema importante de pesquisa. Segundo ele, a discriminação em qualquer área do cotidiano das pessoas pode trazer prejuízos à saúde.

A aposentada Noádia Almeida diz que já perdeu a conta das vezes que foi alvo de discriminação por causa da cor de sua pele. Em um dos episódios, ela foi impedida de deixar uma loja de departamentos na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, após ter trocado uma peça que tinha comprado para a filha.

“Eu estava saindo da loja quando dois seguranças me mandaram segui-los até um outro setor e disseram a outro funcionário: ´pegamos a crioula com a muamba no saco’. Como eu tinha a nota fiscal, consegui provar que a peça era minha, mas foram minutos de muita angústia, de muito nervosismo. Todo mundo me olhando, foi um horror”, contou ela, que chegou a faltar um dia ao trabalho por causa do “violento estresse emocional”.

O Ministério da Saúde informou, por meio da assessoria de imprensa, que não tem dados sobre os impactos da discriminação na saúde da população, mas destacou que desenvolve várias ações para ligadas ao tema, como as associadas à Política Nacional de Humanização, lançada em 2003. Por meio da iniciativa, os profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) são treinados e capacitados no atendimento que garanta a defesa dos direitos dos usuários, qualquer que seja sua classe social, cor da pele ou condição física ou psicológica.

Agência Brasil

É fundamental diminuir preconceito contra os indígenas, diz presidenta da Funai

A população indígena no Brasil aumentou segundo o censo Populacional 2010, do IBGE. Os resultados já eram esperados pela presidenta da Fundação Nacional do Índio (Funai), Marta Maria do Amaral Azevedo. Ela é cientista social e demógrafa especializada em população indígena (está licenciada das atividades de pesquisadora e docente do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp).
Segundo Marta, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aperfeiçoou a logística de coleta de dados e a metodologia de apuração de informações. Além disso, houve, desde a Constituição de 1988, melhoras nas políticas indigenistas que resultaram em aumento da qualidade de vida e menor mortalidade.
Apesar do avanço, a presidenta da Funai aponta para os riscos das disputas fundiárias e de intolerância com indígenas. A seguir os principais trechos de entrevista exclusiva que concedeu à Agência Brasil, a primeira desde que tomou posse (em abril passado).

Agência Brasil – O censo registrou aumento da população indígena. Esse dado a surpreendeu?
Marta Azevedo – O que aconteceu nesse censo de 2010 é que, além de perguntar raça, cor da pele para todas as pessoas, se perguntou ao indígena a qual etnia pertence e quais línguas fala. Não tem nada novo, o fenômeno se deve a uma recuperação demográfica dos povos indígenas no Brasil.

ABr – Recuperação?
Marta – Houve de fato uma recuperação demográfica desde os anos 1960-1970, sendo que a gente viu isso no censo de 1991. Antes disso, não tem como medir. Em geral, toda população humana, quando há perdas muito sérias, ocorre uma recuperação demográfica. No Brasil, as estimativas da população do século 16 variam de 3 milhões a 7 milhões, não existe exatamente um trabalho de demografia histórica. Mas, baseado em trabalhos de outras regiões da América Latina, faz-se essa estimativa, e eram mais de mil povos e, com certeza, mais de mil línguas faladas. Quanto ao aumento do número de etnias, muitos antropólogos têm escrito sobre isso a respeito de fenômenos de autoidentificação de pessoas que pertencem a um determinado povo, mas que nos últimos anos passaram a não se declarar como pertencendo a esse povo e justamente por todo esse fenômeno de recuperação demográfica e de valorização da identidade étnica. São pessoas que estavam se declarando como caboclos, pardos, e que passam a se declarar como povos indígenas específicos. Tem também, ainda, um outro fenômeno, é a declaração de etnias que os antropólogos consideravam antigamente como se fosse um subgrupo.

ABr – Também melhorou a cobertura do censo?
Marta – Melhorou muito. Em 2007, criou-se um grupo de trabalho entre o IBGE e a Funai juntamente com o apoio da Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep), da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), e de outras instituições para fazer coincidir as malhas cartográficas das terras indígenas com os setores censitários. Por isso que os resultados saíram com a lista das terras indígenas e mapas. Está tudo disponibilizado também no site do IBGE

ABr – A demarcação de terras indígenas depois da Constituição de 1998 ajudou?
Marta – Olha, com certeza a terra politicamente demarcada, assegurada e efetivamente disposta a esses povos indígenas traz uma melhor qualidade de vida para essa população, traz uma segurança, a possibilidade de um futuro. O serviço de atendimento à saúde dos povos indígenas, que vem melhorando nos últimos anos, impacta também os indicadores de mortalidade infantil, que vem caindo.

ABr – Mas se compararmos a situação da população não indígena com população indígena, o atendimento à saúde, assim como a escolaridade, é muito desfavorável aos indígenas…
Marta – As populações negra e indígena são as que têm piores indicadores de qualidade de vida Isso tudo tem uma série de fatores que vão afetando e, com certeza, um dos quais é a segurança da terra.

ABr – E a questão do ensino indígena?
Marta – Esse direito a ter uma escola específica e diferenciada na sua própria aldeia, de ter professor que fala sua língua é uma coisa muito recente, dos anos 90 para cá. Se olharmos o perfil etário e o número de matrículas no Censo Escolar, que contabiliza todo ano as escolas indígenas, número de matrículas, língua de ensino…, veremos com certeza tem muita criança de 1ª a 4ª série, e depois vai diminuindo bastante de 5ª a 8ª. Pouca gente com acesso a segunda parte do ensino fundamental, pouquíssima gente com acesso ao ensino médio, e menos acesso ao ensino superior. A gente tem que garantir cada vez mais esse acesso. Acho que está aumentando o número de escolas de ensino médio nas terras indígenas, mas a qualidade deixa a desejar.

ABr – Por que deixa a desejar?
Marta – Muitas vezes falta formação para os técnicos das secretarias estaduais e municipais de Educação, porque muitas vezes a escola indígena é longe, distante. A própria secretaria estadual de Educação não tem como ir até lá para fazer acompanhamento, não tem uma equipe para fazer esse acompanhamento.

ABr – Falta professor qualificado?
Marta – Os professores indígenas têm sido formados nos cursos de magistérios indígenas. Isso tem sido feito pelos estados com o apoio do Ministério da Educação e com participação das universidades. Muitas universidades estão envolvidas nesse processo de formação dos professores, mas ainda falta muito. A população está crescente e a cada ano tem que abrir novas escolas.

ABr – Voltando ao censo. O que explica o aumento de índios em São Paulo?
Marta – Em São Paulo, mais de 90% da população autodeclarada indígena estão fora das terras indígenas. O que isso quer dizer? São indígenas que se autodeclararam, mas que estão vivendo nas cidades, ou então em terras indígenas ainda a serem demarcadas.

ABr – São indígenas que migraram?
Marta – Até o censo de 2000, muitos eram pessoas de outros estados, principalmente do Nordeste. Mas a gente não sabe qual é o perfil dessa população, não tem ainda estudos exatos apurados sobre o perfil dessa população. Quem são essas pessoas que se autodeclaram indígenas, que não reconhecem uma etnia? Foi a primeira vez que se perguntou sobre a etnia.

ABr – De alguma forma esses dados ajudam a fixar ou aperfeiçoar as políticas da Funai? Quais as prioridades?
Marta – As prioridades da Funai continuam sendo as mesmas: promover e defender os direitos dos indígenas no Brasil, ou seja, tem a ver com demarcação de terra, identificação de marcação de terra, proteção territorial, fiscalização, manejo ambiental dos territórios, tem a ver com uma discussão com os povos indígenas que estão nas terras indígenas já demarcadas ou em processo de demarcação. O que vão fazer com essa terra? Quais são as alternativas para o futuro dessa população nessas terras? Acho que a grande virada da Funai, a grande mudança que houve nos últimos anos é que a Funai não tem mais aquela visão que se tinha de assistencialista.

ABr – Por trás dessa visão assistencialista, havia uma ideia de integrar as culturas indígenas à cultura central, digamos assim. Estamos passando por um momento de conflitos em várias áreas. É por conta desse choque de paradigmas?
Marta – Acho que tem diferentes tipos de conflitos a colocar. Acho que a mudança de paradigmas que ocorreu no final dos anos 1980 com a Constituição, mas também em termos de visão da sociedade brasileira, é que os povos indígenas são dessa parte do território da América do Sul, não são uma categoria transitória. Os povos indígenas estão aqui, fazem parte da sociedade brasileira, patrimônio cultural do Brasil que é um país multiétnico. Nos anos 1970, era muito comum a maior parte das pessoas – inclusive professores da USP [Universidade de São Paulo], onde eu cursei ciências sociais – dizer que os povos indígenas estavam fadados ao desaparecimento. Até os anos 1970, demarcar uma terra indígena era demarcar uma aldeia. E demarcar uma aldeia ou pedaço de terra para uma determinada população significava uma reserva com índios que falam a mesma língua e que moram perto podem ser colocados ali dentro. A ideia era demarcar aldeia e não o espaço para reprodução física ou cultural, que é absolutamente fundamental para a sobrevivência dessa população. É muito importante a existência de matas, água, animais, montanhas, de um território culturalmente mais fácil de viver… Não é preciso que se tenha um carro, geladeira ou computador do ano para ser feliz.

ABr – Isso não quer dizer que o índio não possa ter internet wireless
Marta – Eles têm todo direito de dialogar, de ter computadores, caminhonetes como todo cidadão brasileiro. Mas eles também têm direito de viver de outro jeito, não querendo dizer que são atrasados ou que não seja desenvolvido. A gente escuta muito “aqueles lá da Amazônia ainda estão na Idade da Pedra”. Muito pelo contrário, eles estão muito mais avançados que a gente com outra maneira de viver. Essa discussão que seria muito importante para nós não índios e aprender também o que a nossa sociedade, cultura precisa de fato. Esse paradigma ainda não mudou.

ABr – Essa certa intolerância contra os indígenas e esses conflitos que vimos em pleno século 21 põem por terra que o brasileiro tem como traço cultural a cordialidade?
Marta – Eu tenho certeza de que os estrangeiros já perceberam que os brasileiros não são tão cordiais assim, e essas questões de violência no Brasil também estão colocadas com os não indígenas. A gente tem questões de violência nas grandes cidades, uma mortalidade de jovens homens por causas externas muito grande nas cidades. Agora, no ponto de vista de melhoras as relações dos não indígenas com indígenas aqui no Brasil é absolutamente fundamental para a gente implementar aquela lei que manda que as escolas não indígenas estudem a história dos povos indígenas, que até hoje a gente vê escolas que ficam ensinando para jovens e crianças que os indígenas estão numa oca, que eram preguiçosos. Isso para mim é uma das coisas mais importantes que a gente tem que fazer nesse governo, priorizar a formação das crianças e jovens. Diminuir o preconceito é uma coisa fundamental.

Agência Brasil

Preconceito eleva risco de distúrbios psiquiátricos entre jovens homossexuais

O medo de envergonhar a família, não correspondendo às expectativas quanto à sexualidade, é a principal constatação da psicóloga Daniela Barbetta Ghorayeb, que entrevistou homossexuais e heterossexuais de 16 a 22 anos para sua tese de doutorado defendida recentemente na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No entanto, há outro dado preocupante: esses jovens têm maior tendência à depressão e outros distúrbios mentais associados a ideias suicidas do que os heterossexuais da mesma faixa etária. Para chegar a essas conclusões da pesquisa, inédita, Daniela ouviu depoimentos sobre a vida, angústias e sentimentos de dois grupos de 86 jovens, divididos por gênero e escolaridade, com as mesmas idades, sendo um declarado homossexual e outro heterossexual. Na entrevista a seguir, a pesquisadora fala sobre o trabalho e aponta medidas que considera efetivas para enfrentar esses riscos. Qual a principal conclusão do seu estudo?

O mais relatado pelos jovens, independentemente da idade, é o medo que sentem de desapontar a família. É um dado interessante porque reforça o papel fundamental que a família tem na adolescência e juventude, principalmente em casos como esse. Basicamente é o temor de envergonhar os familiares, de não corresponder às expectativas deles justamente num momento muito difícil, quando a juventude é pressionada, inclusive por ela própria, para escolher a profissão, para alcançar independência financeira e emocional; é quando começam os namoros. Embora a gente observe que já existe uma geração mais informada, menos preconceituosa que a geração anterior, e que essa tolerância, a convivência com a diversidade facilita a sociabilidade sem tantas angústias, com os pais isso não ocorre. A família ainda é o que pega mais.

 Qual o dado mais preocupante que a senhora encontrou?

O grupo homossexual apresentou maiores danos mentais que o heterossexual. Eles acessam mais os serviços de saúde mental, vão mais ao psiquiatra, fazem mais psicoterapia. O principal problema é que o preconceito que enfrentam se torna importante fator de risco para a doença mental. O dado é bastante sério. Prevalência de 50%. Mais transtornos nesses jovens homossexuais com relação aos heterossexuais.

Que danos mentais seriam esses?

Depressão associada ao risco de suicídio. Ou seja, a pessoa já ter tentado tirar a própria vida ou ter tido a ideia de fazê-lo – o que chamamos de ideação suicida. É quando se chega a ter um planejamento; a pessoa pensa como faria; como poderia fazer isso. No grupo heterossexual não encontramos nenhum caso assim.

Então os jovens homossexuais entrevistados já procuram ajuda?

Os homossexuais procuram mais esses serviços, vão ao psiquiatra, à terapia. Buscam na psicoterapia uma forma de elaborar e lidar com a situação do preconceito. Esse aliás é um traço marcante em todas as idades analisadas. Infelizmente, pelo tamanho da amostra, não pude segmentar a análise por grupos etários (como 16-18, 18-20, 20-22). O que eu pude extrair dos relatos dos jovens, que moram longe de suas famílias para estudar, é que elaboram melhor a questão do preconceito, e mesmo a liberdade deles viverem as relações sociais e afetivas. Por estar longe dos pais, o preconceito fica mais leve.

Como enfrentar essa situação?

É preciso um trabalho educacional junto às escolas, aos professores, que têm grande inserção na vida de jovens e adolescentes. Com isso haverá efeito muito positivo a médio e longo prazo. A educação é fundamental, mas não só à base de folhetos informativos. O preconceito é uma questão que tem de ser discutida com as pessoas. Estamos numa sociedade majoritariamente heterossexual. Claro que modos diversos de viver a sexualidade não vão ser encarados tão naturalmente. A discussão sobre o assunto de modo a levar à reflexão pessoal é o caminho para as pessoas mudarem a maneira de encararem. A educação seria o espaço para começar esse trabalho.

Quais seriam os outros?

Não. Esse quadro dramático exige mais instrumentos, como a criação de serviços de saúde mental para atender a essa população, seus familiares. Essas famílias precisam de orientação. O que fazer? Como lidar com a situação? Dentro dos serviços públicos de saúde mental falta ênfase nesse tipo de atenção. Faltam cuidados, tratamento mais sensível à questão da orientação sexual, que já seriam medida positivas. E é preciso melhorar a formação dos próprios profissionais de saúde para que eles possam tratar a questão da orientação sexual de uma forma mais delicada e sensível que essa população precisa.

redebrasilatual

Homossexuais: preconceito aumenta risco de depressão, diz estudo

 

O preconceito pode estar levando jovens homossexuais a casos de depressão e suicídio. Pesquisa realizada pelo Instituto de Ciências Médicas da Unicamp constatou que homossexuais têm tendência maior a desenvolver transtornos mentais em relação a jovens heterossexuais da mesma faixa etária. A discriminação, sobretudo por parte da família, é um fator de risco para o aumento desses casos.

Por  Clara Roman, na Carta Capital

Rejeição da família é um dos fatores que contribui para distúrbios mentais/Foto: Guillaume Paumier/Flickr

Isso porque o adolescente ainda necessita da proteção do ambiente familiar e mimetiza seus valores. Assim, quando rejeitado, acaba internalizando o preconceito sofrido e se auto-discrimina por sua orientação sexual.

“Nos adolescentes, isso funciona de forma mais grave porque ainda está num momento crítico de construção da individualidade”, afirma Daniela Ghorayeb, autora do estudo e PhD em saúde mental pela Unicamp. A pesquisa faz parte de sua tese de doutorado, que deu sequência a um estudo anterior sobre a saúde mental dos adultos homossexuais.

Cerca de 67% dos entrevistados afirmaram sentir vergonha de sua orientação sexual. E, enquanto nos adultos a religião e pressões da sociedade são os fatores que induzem a esse tipo de sentimento, sobretudo entre as mulheres, nos adolescentes entre 16 e 21 anos é o medo de frustar a família o que mais pesa. “Acho que até já tive raiva de mim, mas não era só ser gay, era muita coisa junto”, diz um entrevistado.

Além disso, 35% dos pesquisados apresentaram depressão e 10%, risco de suicídio. Já entre os heterossexuais, apenas 15% sinalizaram quadro depressivo e nenhum caso de tentativa ou intenção de se matar. Por sua vez, quando a homossexualidade do jovem é bem recebida pela família, e a proteção aumenta, diminuem os riscos de transtornos mentais. “Pior porque passei por muita coisa e melhor porque enfrentei, mesmo com a depressão, eu só me trancava, chorava, não queria nada, foi horrível, aí sou melhor porque tá passando”, declara um dos participantes, em trecho da pesquisa.

Segundo Ghorayeb, muitos adolsecentes afirmaram terem sido impedidos de exercer afetividade e terem medo de serem agredidos fisicamente e verbalmente. “Alguns adolescentes, a partir de um certo horário, não andam na rua. Não andam porque sabem que existe iminência de violência física”, explica a pesquisadora. Tanto a falta de liberdade para expressar sentimentos quanto o risco de agressão tem efeito negativo na saúde mental e qualidade de vida das pessoas. No último mês, uma criança de 12 anos cometeu suicídio depois de sofrer “bulling” na escola por conta de sua orientação sexual, em Vitória (ES).

Ghorayeb comenta que no exterior existem cada vez mais pesquisas para mensurar o quanto o preconceito pode interferir na saúde mental de jovens. Há também um cuidado, em alguns lugares, de se proporcionar tratamento na rede de saúde tanto para os adolescentes quanto para a família, que recebe parte desse impacto. No Reino Unido, nos centros de saúde públicos, há profissionais especializados no tema para auxiliar na orientação familiar. Aqui no Brasil, este é o segundo estudo que cruza homossexualidade e saúde mental, sendo o primeiro a sua tese de mestrado.

Na rede de saúde, não existe nenhum tipo de auxílio especializado para estes casos. “É necessário divulgar para a comunidade acadêmica melhorar a formação dos profissionais de saúde nesse sentido”, afirma Ghorayeb.

A pesquisa considerou apenas os homossexuais que assim se definiram. Além disso, por conta da dificuldade de se conseguir voluntários com esse perfil, por conta da discriminação, a pesquisadora utilizou a técnica de recrutamento denominada “snowball sampling”. Cada entrevistado indicava outros cinco que correspondiam ao perfil.

Por conta disso, o público foi bastante homogêneo e não teve abrangência de diversas classes sociais. A média de renda familiar foi entre cinco mil e sete mil reais. A maioria tinha planos de ingressar no ensino superior. “Se pesquisar outra faixa de renda, vai se chegar a resultados bem diferentes”, afirma Ghorayeb.

Fonte: Carta Capital