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Marilena Chauí: “não. As manifestações de junho não mudaram o país”

Carta Maior entrevistou Laymert Garcia dos Santos e Marilena Chauí por ocasião do debate Brasil em Tempo de Manifestações, ocorrido na Universidade de São Paulo (USP).

Para Laymert, professor de Sociologia da Unicamp e doutor em Ciências da Informação pela Universidade de Paris VII, o que as manifestações de junho trouxeram de novo foi a politização dos jovens, tanto nas ruas quanto nas redes.

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Segundo o professor, “é extremamente importante pensar nessa relação rua/rede porque é no entre os dois que está a novidade da política”.

Além disso, Laymert faz coro com os que notam os partidos “anacrônicos” e “incapazes de falar com a juventude”.

Já Marilena Chauí, filósofa da USP e membro-fundadora do PT, foi lacônica e não menos polêmica do que em suas últimas intervenções públicas: “não. As manifestações de junho não mudaram o país”, afirmou.

Mudar o país, para a consagrada leitora de Espinosa, é realizar reformas estruturais, como a tributária ou a política. Segundo ela, “a institucionalidade política é capaz de tratar dos problemas levantados pelas manifestações”. Tanto que Marilena pensa que as manifestações podem servir “não para acordar o Brasil, mas acordar o PT”.

 

cartamaior

 

Manifestações refletem crise de mediação de partidos e entidades, afirmam especialistas

cc/mídia ninja
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Faltou meio de campo. Se fosse futebol,  a resposta para entender as manifestações que tomaram o país nas últimas semanas seria essa. Para os especialistas em análise social e política ouvidos pela RBA, a questão é a falta de mediação institucional dos anseios da sociedade. Partidos e instituições que davam vazão às vontades populares deixaram de cumprir esse papel, e agora, além de não entenderem o povo, são alvo de violenta antipatia. Na manifestação que reuniu milhares de pessoas na Avenida Paulista, em São Paulo, no dia 20, bandeiras de partidos e movimentos sociais de esquerda foram queimados. Ativistas foram agredidos e impedidos de prosseguir em marcha.

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A crítica vem da própria esquerda, que reconhece avanços nos 10 anos de governo federal do PT, mas entende que é necessário garantir novas conquistas e romper certa acomodação.“O lulismo talvez não funcione mais. A capacidade de sintonia com a rua, acho que isso é o que está em questão. Não quer dizer que a direita ganhou. Não foi ela a fazer isso”, acredita o sociólogo e diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Cândido Grzybowski.

“Aumentou a ‘arrogância institucional’ em relação ao sucesso do Bolsa Família, ganhos do salário mínimo. E, ao mesmo tempo, houve a desqualificação de lutas, a mais recente delas a dos indígenas. Isso alimentou um caldo que afirma que a voz dos insatisfeitos não é ouvida”, afirma Grzybowski.

Ele analisa que apenas o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) tentou alguma renovação nos últimos anos, acrescentando à pauta o agronegócio e a produção de alimentos, com mais apelo popular, em vez de ficar preso na questão do grande latifúndio. E aponta que, no vácuo deixado pelas entidades tradicionais, igrejas evangélicas têm canalizado as vontades da população mais pobre. “Não é à toa que eles têm ocupado tantos espaços políticos.”

A crise de legitimidade dos partidos, no entanto, não é exclusiva do Brasil, afirma o sociólogo Leôncio Martins Rodrigues, da Unicamp. “Em um dado momento essas manifestações de rua, que são muito positivas em termos de aumentar a participação, vão encontrar problemas na fase da institucionalização. Como eles vão concretizar as demandas que são abstratas? Vão ter de passar por um processo que vai terá de ser discutido no Congresso. Não dá pra discutir em praça pública”, aponta.

Para Rodrigues, no entanto, a solução para a insatisfação não passa pela criação de novos partidos. “Já temos demais. Então é preciso ficar mais atento ao comportamento dos políticos, isso sim. Mas a ideia de que podemos funcionar sem partidos é uma ilusão negativa. Eles são necessários e precisam ser bons”, afirma.

Ele ressalta que, diferentemente de outros momentos, as diversas reivindicações estão relacionadas à prestação de serviços públicos, como saúde, educação e transporte, e não materiais ou econômicas, como o aumento de salários. “Talvez pela presença de jovens de classe média”, acredita.

A ex-professora de História da USP, Maria Victoria Benevides, também aponta a diminuição de legitimidade de políticos eleitos e não acredita em ações orquestradas para produzir manifestações. “Não é uma força organizada que faz isso. É uma demanda em face da incapacidade das instituições de captar essas angústias”, afirma, e inclui a mídia entre as instituições que não estão em sintonia com as pautas reais da população.

A professora entende que o processo é positivo, mas, ao mesmo tempo, traz riscos. “É bom, porque tira as ideias do lugar. Mas pode vir um oportunista e se apresentar como salvador da pátria. É uma possibilidade, mas eu não vejo ninguém assim.”

Para Grzybowski, a disputa é por quem vai canalizar as vozes das ruas. “A direita não tem condições de capitalizar um ‘troço’ deste tamanho. Ela não tem história para isso. Estamos diante de uma crise de hegemonia, sem dúvida. Quem achava que tinha o sentimento da rua não está tendo. Acho que a partir disso vamos ter muitas formas de pequenas lutas, em uma dispersão desordenada”, aposta.

 

 

por Gisele Brito, da RBA

Da tribuna do Senado, Cássio Cunha Lima agradece manifestações de carinho pelo seu pai

O senador Cássio Cunha Lima discursou nesta quarta, 11, da Tribuna do Senado Federal de onde agradeceu os gestos de carinho e solidariedade das pessoas de várias partes do Brasil e em particular da Paraíba para com a sua família por causa do falecimento do Poeta Ronaldo Cunha Lima, ocorrido no último sábado, 7 de julho. Segue na íntegra, o discurso do senador Cássio.

O SR. CÁSSIO CUNHA LIMA (Bloco/PSDB – PB. Pela liderança. Sem revisão do orador.) – Sr. Presidente, Sras. Senadoras e Srs. Senadores, cumpro, neste instante, o doloroso dever de agradecer ao Brasil, à Paraíba e muito particularmente à Campina Grande e, de maneira especial, a esta Casa, pelas homenagens que foram prestadas pelo falecimento do meu pai Ronaldo Cunha Lima.

Claro que nenhum filho gostaria de estar fazendo um agradecimento desta natureza.

Mas foi o meu próprio pai que dentre tantas lições de vida que nos deixou pautadas todas pela correção, pela hombridade e pela ética, pela seriedade que dizia meu filho quem sabe pedir tem que saber agradecer. E as homenagens que o meu pai recebeu nesses últimos dias não foram pedidas, foram na verdade construídas passo a passo por uma vida marcada pela dedicação à causa pública. Dizia ele também, Senadora Ana Amélia: “Não faço política como negócio, faço política como sacerdócio”.

E foi sim um sacerdócio de vida do advogado, do membro do Ministério Público, do poeta, acima de tudo, do poeta Ronaldo Cunha Lima que foi lembrado aqui de forma tão generosa através do Senador Aníbal Diniz na citação do habeas pinho, petição em versos feita para liberar um violão preso em uma seresta, Senador Capibaribe. E eu quero nesse momento de dor louvar a Deus em primeiro lugar desta Tribuna pela vida do meu pai. Louvar a Deus pela existência que ele teve, intensa, extremamente intensa em toda a sua trajetória de 76 anos de existência. Repetir aqui o que ele havia feito em vida, pedir perdão pelos eventuais erros cometidos, mas sabendo que ao longo dessa trajetória, Ronaldo Cunha Lima, o meu pai, se notabilizou pela fraternidade, pelo amor, pela correção nas relações de lealdade.

Ao tempo em que nós louvamos a Deus pela sua vida, nós estamos sim, eu os meus irmãos, Ronaldo Filho, Glauce, Savigny e, sobretudo, a minha mãe Glória, uma baraúna, uma mulher forte, uma mulher exemplar, agradecendo desta tribuna as autoridades do Brasil inteiro ao Governador Ricardo Coutinho, ao Prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital do Rego, a todos.

…a todos os Senadores e Senadoras que aqui se manifestaram – e não vou nominá-los neste instante para não pecar por omissão –, o agradecimento que também é em nome dos netos, dos sobrinhos, dos irmãos, das noras de Ronaldo – e, hoje, uma nora muito querida dele, Sílvia, minha esposa, está completando mais um ano de vida, e a ela os meus parabéns, de forma muito carinhosa. Mas o agradecimento principal que quero deixar nesta tribuna é ao povo da Paraíba, ao mais anônimo e humilde paraibano que compareceu às cerimônias dos funerais de meu pai, seja no Palácio da Redenção, seja em Campina Grande, onde ele foi velado embaixo da pirâmide do Parque do Povo, Parque do Povo que ele criou como prefeito para realizar aquilo que o Brasil inteiro e o mundo em parte já conhecem, que é o maior São João do mundo. E uma multidão, uma verdadeira multidão, com lágrimas, com aplausos, com sentida e verdadeira emoção, ali compareceu para prestar essa última homenagem ao poeta Ronaldo.

E o poeta dizia, um terceto muito simples: “A vida é uma belezura, vale mais pela largura do que pelo comprimento”. E os poetas não morrem. E ficará, com certeza, na memória do povo da Paraíba e do povo do Brasil, o advogado, o homem do Ministério Público, o tribuno, o Senador – e meu pai foi, Senadora Marta, talvez um dos poucos paraibanos, talvez raros no Brasil, que recebeu todos os diplomas que um homem público pode receber de um Tribunal Regional Eleitoral. Todos os cargos eletivos no âmbito de um Estado foram por ele exercidos, com igual dignidade, com decência, com espírito público: Vereador, Prefeito de Campina Grande, Deputado Estadual, Governador da Paraíba, Deputado Federal e Senador da República. A rigor, só lhe faltou o diploma de Presidente da República. Em todos esses cargos, exercendo sempre com essa filosofia de quem faz política como um sacerdócio, e não como negócio.

Agradeço, em nome de toda a minha família, em meu nome pessoal, naturalmente, por todas essas manifestações fraternas e de solidariedade que recebemos.

Oportunamente, teremos uma sessão especial nesta Casa, já requerida pelo Senador Cícero Lucena e subscrita pelo Presidente Sarney, para que possamos homenagear a memória, e digo sem nenhuma suspeição, desse extraordinário brasileiro que foi Ronaldo José da Cunha Lima.

Os poetas não morrem…

paraibaja